Pages

'Brasileiro desconhece os riscos de regimes autoritários'

Filho de argentinos exilados, vencedor do Jabuti reflete sobre o passado dos dois países, a importância da memória e o grito pela ditadura no Brasil


Da Crata Capital, 23 de Junho, 2018
Por Tory Oliveira. Deutsche Welle 


Cia. das Letras / Divulgação
O escritor brasileiro Julián Fuks, premiado por seu livro "A Resistência"

O livro A Resistência rendeu ao escritor Julián Fuks os prêmios Jabuti, José Saramago e o alemão Anna Seghers. No romance de autoficção, o paulistano filho de argentinos exilados no Brasil toca em feridas pessoais e sociais ao revisitar o processo de adoção do irmão em meio à fuga dos pais durante a violenta repressão da ditadura argentina.

O regime deixou milhares de mortos e desaparecidos no país vizinho e um processo contínuo de exercício de memória sobre o período autoritário. Já no Brasil, diz o escritor, impera o esquecimento do passado sem reflexão crítica.

"Esse esquecimento fez muito mal para o país. E chegamos, em 2018, ao retorno do recalcado. E, de repente, temos de volta o grito pelos militares em um contexto absolutamente injustificável", afirma. "É um país que desconhece os riscos dos regimes autoritários, com pouquíssimo respeito pela democracia."

Em entrevista à DW Brasil, o escritor fala sobre os perigos do autoritarismo, a importância da memória e o atual cenário político brasileiro.

DW Brasil: Seu livro 'A Resistência', que fala sobre memória, política, ditadura e família, recebeu o prêmio Jabuti na categoria ficção do ano em 2016, poucos meses após o processo de impeachment de Dilma Rousseff e em meio a uma intensa crise política e institucional no Brasil. Como é ter um livro com esse título celebrado neste momento político?

Julián Fuks: O livro, de partida, não tinha sequer o nome A Resistência, o título era outro. Com esse título, naquele contexto, o livro foi recebido como um comentário sobre o presente que ele não se propunha a ser. No entanto, trazia uma reflexão sobre qual é a militância possível hoje, em oposição a uma militância do passado.

Não traz nenhuma resposta, mas indagações: como reagir diante das opressões que permanecem no presente, que se replicam e ganham novas formas? Nada disso é muito explícito, mas me parece uma questão que subjaz a toda a narrativa. Para mim, foi quase como um convite a uma tomada de posição como autor, não só pelo livro em si. E resolvi aceitar esse convite.

DW: Ao ganhar o Jabuti, você terminou seu discurso com um "Fora Temer”. Nesse contexto de crise geral, qual é o papel do escritor?

JF: O papel do escritor é o de todo cidadão: se posicionar se julgar pertinente. Ao mesmo tempo, as aproximações e distanciamentos entre literatura e política são interessantes de se conceber historicamente.

Há momentos que parecem convocar muito mais os escritores a se posicionar politicamente e fazer um tipo de literatura que dialoga com questões políticas e sociais. Há outros em que a literatura tem como missão primordial discutir suas próprias formas e questões internas. Eu respeito esses dois momentos.

DW: Sua geração, nascida no início dos anos 80, aparentemente tinha uma relação distante com a política. Como você analisa o debate político conduzido por essa geração atualmente?

JF: Sem dúvida, tivemos na infância e adolescência uma percepção equivocada de "fim da história". Isso tudo caiu por terra. Ninguém, em sã consciência, olharia para a história agora e diria que ela acabou. Sinto que hoje há uma politização extrema da população, mas sem formação política, feita de forma visceral. Isso resulta em tomadas de posição muito radicais sem uma consciência efetiva das consequências.

O impeachment [de Dilma Rousseff], me parece, teve algo desse fenômeno. O grito que pede "fora todos os políticos", esse tipo de posição antipolítica me parece a politização mais alienada nesse momento. E talvez a mais nociva.

DW: Não se ouve, em geral, um anseio por mais democracia.

JF: A nossa geração veio a descobrir, com um grande susto, a fragilidade da democracia brasileira. Aprendemos sobre os momentos de ruptura democrática, mas parecia que vivíamos em um país que tinha superado essa questão.

E, justamente, a deixou para trás sem culpabilizar, julgar ou conhecer os crimes das ditaduras anteriores. O resultado é um país que desconhece os riscos dos regimes autoritários, com pouquíssimo respeito pela democracia e que não se importa em jogar fora, nos momentos mais agudos, instituições como o voto.

DW: Tanto o Brasil quanto a Argentina viveram em um passado recente períodos autoritários de ditaduras militares. Você vê diferenças em como cada país lida com esse passado?

JF: É uma diferença abismal entre a Argentina e o Brasil, quase dois polos opostos na questão de lidar com a própria memória. A Argentina fez um exercício denso, contínuo, repetitivo até, de reflexão sobre o passado.

Com idas e vindas também no campo jurídico: primeiro responsabilizando e prendendo militares responsáveis pelos crimes da ditadura. Depois, quando havia uma virada política, soltando esses mesmos presos e vivendo uma fase de tentativa de esquecimento. Mas, na prática, o tempo todo com um olhar lúcido, realista, voltado para o passado, em uma tentativa de contemplar em várias instâncias: do ponto de vista jurídico, cinematográfico, historiográfico, literário, tudo isso se conjugando para lidar com esse passado traumático.

No Brasil, pelo contrário, há a figura psicanalítica do recalque. O Brasil recalca o seu passado e tenta não pensar nele. Pela saída da anistia ampla, geral e irrestrita – mecanismo para o fim da ditadura que teve sua importância naquele exato momento – criou-se esquecimento e uma falsa conciliação histórica.

Esse esquecimento fez muito mal para o país. E chegamos, em 2018, ao retorno do recalcado. Aquilo que as pessoas deixaram silenciado volta à tona em um contexto de crise como uma reflexão contínua, às vezes histérica, sobre a situação do país. E, de repente, temos de volta o grito pelos militares em um contexto absolutamente injustificável.

DW: Na sua opinião, o que leva ao desejo de retorno de um governo autoritário?

Julián Fuks: Majoritariamente estamos falando de desconhecimento e ignorância política. Prefiro acreditar no Brasil como um país que não compreende claramente a gravidade de uma figura como o [deputado federal e pré-candidato a presidente] Jair Bolsonaro, por exemplo, e não como um país com uma quantidade grande de pessoas de extrema direita.

A extrema direita me parece um fenômeno menor, estranho e deslocado nesse país, que não fala muito sobre a nossa identidade. Só que, nesse processo massivo de uma política muito mais fundada em factoides e fake news, acabamos caindo em situações assim.

DW: Após o sucesso de 'A Resistência', você está trabalhando em novos projetos?

JF: Estou escrevendo A Ocupação, que cria com A Resistência uma espécie de díptico, em que o apelo fundamental "ocupar é resistir" ganha proeminência. Os dois livros são formas de pensar como a política acaba por interferir na vida dos indivíduos.

Mas, se antes havia uma trajetória mais familiar, agora a ocupação em si é de sem-teto no centro de São Paulo, em um movimento de luta por moradia. A noção de ocupação se converte em múltiplas, assim como as resistências eram múltiplas no livro anterior. É a ocupação de moradores sem-teto, mas é também a escrita como ocupação, como ofício, e também é o corpo ocupado de uma mulher grávida e uma noção de literatura ocupada pelas questões do presente, pela política e pelas preocupações sociais.

Assim como uma das formas de luta mais efetivas é ocupar espaços, nesse caso me parece que a literatura pode se deixar ocupar por alguma coisa que não é tão semelhante a ela, mas que nesse momento tem uma potência muito grande.

Nenhum comentário:

Postar um comentário