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“Até setenta milhões de pessoas participam de rituais do candomblé”.

Entrevista com José Luis Vázquez Borau


Do IHU, 06 Junho 2018Por Enrique Chuvieco, publicada por Religión Digital, A tradução é do Cepat.


O doutor em Filosofia e em Teologia José Luis Vázquez Borau é professor e escritor especializado em ciências da religião e espiritualidade. O também membro da RIES (Rede Ibero-americana de Estudo das Seitas) acaba de publicar o livro Cultos afroamericanos y cristianismo (Digital Reasons).

Eis a entrevista.

Acaba de publicar pela editora Digital Reasons “Cultos afroamericanos y cristianismo”. O que lhe chamou a atenção para se interessar por estas questões?

O fato de encontrar pela cidade convites, em forma de publicidade, de videntes que se oferecem para adivinhar o futuro acerca de casamento, filhos, trabalho, etc. E, por outro lado, notícias de restos de “sacrifícios” em matas e jardins, o que suscitou a curiosidade de saber o que há por trás de tudo isto.

Entre os cultos africanos, aborda a umbanda e o candomblé. Quais são suas marcas mais características?

Uma das características fundamentais do candomblé é o longo processo de iniciação, que pode durar até sete anos. Seus ritos são muito atrativos, pois as divindades não vêm para pregar ou distribuir conselhos; vem para expressar sua energia vital dançando. Fazem isto de uma maneira solene, seguindo uma rigorosa lógica ritual, dirigida pelo som dos tambores e dos cantos. Vestem-se com pompa e produzem uma gesticulação codificada, identificadora de cada orixá. Todas as cerimônias terminam com um jantar aberto ao público, feito com comida sagrada, em relação ao acontecimento da noite.
De acordo com o orixá (emissário de Olodumare, o Deus Onipresente, em distintos cultos africanos), são sacrificados pequenos animais, como um frango ou um cabrito, que lhe são oferecidos e que, segundo seus praticantes, podem impedir influências negativas ou perturbações durante a cerimônia.

A umbanda é um culto brasileiro que funde o candomblé, as tradições xamânicas dos índios nativos, o espiritismo e, ultimamente, em algumas congregações, elementos hindus. Enquanto a santeria e o candomblé se centram no culto das divindades africanas, a umbanda acentua também o culto aos “caboclos”, espíritos dos índios que viveram nas matas do país e que praticavam rituais de tipo xamânico, sobretudo aqueles relacionados ao culto da planta jurema, com a qual se prepara uma bebida que induz a estados de vidência.

Também apresenta a prática do espiritismo nos povos africanos. Que significado este cotidiano com os espíritos possui para eles?

Na África estão presentes as crenças e ritos religiosos mais ancestrais. Para os africanos tudo está impregnado pelo âmbito religioso e o sagrado; inclusive, a vida política está marcada pelo fato religioso. Acreditam na vida após a morte e na relação vital entre vivos e mortos, que convivem com os viventes, podem intervir em seus assuntos e juntos formam uma família. Acreditam em um Deus distante e que na natureza há outras forças espirituais encarnadas em diferentes divindades, que são próximas aos humanos e que podem resultar benéficas.

O vodu é outro dos cultos que ocupa suas reflexões e parece o mais perigoso em sua prática, às vezes, utilizado para subjugar mulheres enganadas e traídas para exercer a prostituição na Europa. Neste sentido, são encontradas línguas pregadas em árvores e em algumas regiões como a Casa de Campo de Madri. O que você pode nos dizer a esse respeito?

Estamos falando de magia negra, proveniente de uma religião originada na área cultural da África Ocidental (Benim) em tempos pré-históricos. O poder desta magia está fortemente arraigado nas populações destas crenças, de tal maneira que se o bruxo faz um malefício, mediante as bonecas de vodu, as temíveis wanga, à distância que seja, cravando as agulhas em lugares vitais, acredita-se que podem ocasionar a morte.

Você valoriza as religiões afro-americanas e destaca que algumas delas servem para favorecer a irmandade das pessoas. Poderia expor alguns destes aspectos?

Os valores comunitários de suas celebrações, sua liturgia, etc., são muito destacáveis. A beleza de suas celebrações, sua música marcando o ritmo das mesmas e os laços de irmandade que criam suas cerimônias, é preciso valorizá-los.

Considera também que não é possível ser cristão e praticar estes cultos. Quais os pontos que os tornam inviáveis?

É necessário levar em conta, por exemplo, que na cultura brasileira as religiões não são vistas como exclusivas e segundo algumas organizações culturais afro-brasileiras até setenta milhões de pessoas participam de rituais do candomblé, regular ou ocasionalmente. Mas, basicamente, estes cultos se preocupam em encaminhar bem suas vidas pedindo às divindades ajuda em assuntos concretos, nada a ver com um encontro pessoal com Jesus Cristo e uma transformação de suas pessoas, uma vivência comunitária da fé e um compromisso em instaurar, em ir instaurando o reino de Deus.

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