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A Escola Comum

Imagem por Acervo Escola Comum
Do Le Monde DIplomatique, Abril 2, 2018

Os estudantes da Comum são incentivados a ser sujeitos cosmopolitas no sentido amplo do termo: a pensar para além de agendas partidárias e a buscar entender como diferentes países têm enfrentado seus problemas sociais.

A Escola Comum é uma escola de governo gratuita que visa formar novas lideranças entre jovens de baixa renda das periferias de São Paulo. Trata-se de um projeto sem fins lucrativos, voluntário e desenvolvido por uma rede autônoma de acadêmicos, ativistas e profissionais que, em 2017, juntaram suas diferentes bagagens para elaborar um plano pedagógico que fosse de excelência global, mas com os pés fincados nas raízes populares e nos valores coletivos.

O projeto

O projeto é alicerçado em três pilares.

Excelência e conhecimento global. Por um ano, nós pesquisamos os currículos de Escolas de Governo, departamentos de desenvolvimento e fundações sociais de ponta, como a Kennedy School, da Universidade Harvard, o Departamento de Desenvolvimento Internacional, da Universidade de Oxford, e a ONG OpenAir, da África do Sul, que desenvolve inovação popular. Para escolher nossos docentes – que também são voluntários –, optamos por profissionais reconhecidos nacionalmente em suas áreas de atuação e/ou professores doutores não seniores que passaram pelas melhores universidades do país e do mundo e sonham aplicar e retribuir para a sociedade o conhecimento que acumularam aqui ou lá fora. Privilegiamos convidar docentes que pensam a sala de aula como um espaço democrático permeado de afetos.

Além disso, os estudantes da Comum são incentivados a ser sujeitos cosmopolitas no sentido amplo do termo: a pensar para além de agendas partidárias e a buscar entender como diferentes países têm enfrentado seus problemas sociais. Como apoio a esse empreendimento, a escola estimula que os estudantes façam aulas extras de inglês, espanhol e francês, também oferecidas por uma rede altamente qualificada de professores voluntários de línguas.

Raízes populares e valores coletivos. Entendemos que inovação social e tecnológica não pode e não deve ser restrita a centros de pesquisa de elite. Queremos explorar a criatividade e a sabedoria popular como energia de transformação social, bem como toda a potência que existe nos coletivos das “quebradas” de São Paulo. Ao olharem para o que existe de vanguarda no mundo, os estudantes são estimulados a pensar em projetos comunitários que possam ser replicados em suas localidades. Eles também desenvolverão células em suas regiões, por meio das quais o conhecimento aprendido possa ser multiplicado. Afinal, temos como princípio a ideia de que o conhecimento é coletivo e que, portanto, quando falamos em formação de lideranças, não temos em mente o desenvolvimento de agentes individuais que rompem com sua própria trajetória de exclusão, mas o fomento de sujeitos que vejam a coletividade como um meio e um fim. Nessa lógica, o nome “Comum” se refere a muitas coisas ao mesmo tempo: ao princípio ecumênico espiritual da comunhão, às teorias contemporâneas sobre o bem comum e aos valores de compartilhamento e comunidade – tudo em conjunto para romper com a lógica do individualismo competitivo e pensar o mundo do ponto de vista da solidariedade social.

Realizado aos sábados, o curso tem duração de um ano, totalizando 28 encontros de aulas teóricas, práticas e visitas externas. Na parte da manhã, os professores convidados falam sobre grandes temas que consideramos essencial para a formação de uma liderança política: funcionamento dos poderes e das instituições, grandes desafios do Brasil, noções de economia, desenvolvimento, política e história. Terminamos o ano letivo com os laboratórios do futuro comum, cujos temas são definidos pelos próprios estudantes.

À tarde, temos uma agenda mais flexível, em que os estudantes realizam rodas de conversa sobre temas atuais, resolvem estudos de caso em grupo e/ou assistem a bate-papos com convidados. Entre as aulas da manhã e as dinâmicas da tarde, há o almoço comum, que visa desenvolver o sentido de turma, atentar para a pluralidade religiosa no Brasil (contando com lideranças religiosas progressistas almoçando conosco) e ampliar as redes sociais dos estudantes (contando com a presença de pessoas de trajetórias inspiradoras). Há também aulas práticas sobre oratória, debates, redes sociais e protocolo político, bem como visitas externas a museus, cinemas, teatros e instituições públicas.

Esse conjunto de atividades tem um objetivo claro, que supera as escolas de governo convencionais que existem no mundo. Além de fornecer conteúdos em sala de aula, nosso objetivo é ampliar o que hoje, em diversos estudos sobre a pobreza, é chamado de capacidade de aspirar. Para além das aulas, é preciso expor os estudantes a novas realidades, novos espaços e novos contatos. Isso significa expandir o horizonte dos sonhos deles para que vejam que, apesar da violência estrutural, do racismo, da misoginia e da exclusão de classe no Brasil, existe um mundo amplo pelo qual eles podem se aventurar, do qual podem se apropriar e o qual podem transformar.

Os Comuns

Frequentemente, somos perguntados como a Escola Comum começou. Existe uma necessidade social de situar a origem dos projetos no tempo, no espaço e, muitas vezes, nos indivíduos. Mas a verdade é que somos, na essência, um projeto coletivo de uma rede de pessoas que atuavam em trabalhos sociais sobre diversidade, liderança, política, direitos humanos e periferia. Temos em comum uma visão progressista da política, com integrantes de centro e de esquerda.

Hoje somos sete cofundadores e coordenadores. Na área docente e pedagógica, estão Esther Solano, Rosana Pinheiro-Machado e Tulio Custódio. Fabio Bezerril assume a coordenação de comunidade e Elaine Lizeo atua no recrutamento e desenvolvimento de lideranças. Ana Paula Vargas Maia é responsável pela comunicação e, finalmente, Wil Schmaltz lidera a parte operacional. Vale mencionar que Wil integra um projeto social chamado Multiform, o qual tem parceria com o Clube de Mães do Brasil. Graças a esse vínculo, tivemos a alegria de ser generosamente acolhidos no belíssimo Castelinho da Rua da APA, patrimônio da cidade de São Paulo, bem como de poder contar com uma equipe de voluntários que ajudam na preparação das refeições dos estudantes.

Além da equipe coordenadora e dos docentes especialistas, a Escola Comum tem uma ampla rede de monitores voluntários, que hoje já chega a setenta nomes altamente qualificados, incluindo professores de língua estrangeira, artistas renomados, terapeutas de experiência e intelectuais das mais diversas áreas. Isso nos possibilitará oferecer uma ampla rede de apoio profissional e educacional aos nossos estudantes para além da sala de aula e para além do ano letivo.

Nessa “rede de esperança” (expressão que aparece em uma obra de Manuel Castells), temos pessoas das mais variadas posições políticas. Fomentamos o diálogo entre posições diferentes. Tivemos, por exemplo, uma aula sobre desenvolvimento com um economista liberal, o Humberto Laudares, e com a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que defende uma posição radical pós-desenvolvimentista. Os debates têm sido ricos e os estudantes apreciam olhar para um tema sob múltiplos prismas. Porém, é importante ressaltar que a Escola Comum tem três princípios políticos fundantes dos quais não abre mão: a democracia, os direitos humanos e o bem comum.

Por fim, nossos estudantes. A primeira turma é composta por 26 estudantes, de 16 a 19 anos, com histórias de vida muito impactantes. Eles foram selecionados por uma combinação de bom desempenho escolar e atuação comunitária ou estudantil. A maioria da turma é composta por meninas negras. Todos os estudantes demonstram uma capacidade crítica extremamente madura e não se envergonham em falar com assertividade. Eles são confiantes, ativistas, solidários entre si e com questões sociais. Andam de cabeça erguida e carregam um sorriso leve no rosto. Frequentemente, eles se abraçam e trocam conteúdos e mensagens carinhosas no grupo de WhatsApp.

São protagonistas na sala de aula e proativos. Quando pensamos em pedir alguma coisa a eles, eles já fizeram. No primeiro dia de aula, tínhamos planejado uma atividade em que eles se apresentariam uns aos outros, mas antes de começar a aula eles já tinham organizado uma roda em que diziam seu nome, bairro e signo! É uma geração pós-ocupações secundaristas, marcada pela emergência de subjetividades autonomistas e realizadoras.

Começar uma escola de governo com pretensões e sonhos tão amplos não é tarefa fácil. Exige horas diárias de conversas para alinhar todas as atividades. Tirar do papel a vontade de contribuir para uma política mais justa, radicalmente periférica e coletiva é algo que exige de nossa equipe um permanente cultivo do afeto e do cuidado. Ainda estamos em um ano-piloto e passaremos por muitos ajustes. Mas, todos os sábados, quando encontramos os jovens pontuais em sala de aula, ansiosos por conhecimento, temos a sensação de que tudo faz sentido e que nosso futuro será seguro e promissor.



*Rosana Pinheiro-Machado é cofundadora da Escola Comum e coordenadora docente. E-mail: rosana.pinheiromachado@escolacomum.org.

**Equipe Comum: Ana Paula Vargas Maia, Elaine Lizeo, Esther Solano, Fábio Bezerril, Tulio Custódio e Wil Schmaltz.

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