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Será que o domínio é dos administradores e não dos capitalistas? Uma crítica a Gerard Dumenil e Dominique Levy


Uma crítica a Gerard Dumenil e Dominique Levy



Da Carta Maior, 09 de Maio, 2018
Por Michael Roberts, Diário Liberdade


O modo de produção capitalista está a chegar ao fim. Mas não está a ser substituído pelo socialismo. Ao invés disso, há um novo modo de produção, baseado numa classe de gestores (managerial class) que tem estado a formar-se na última centena de anos. Esta classe de gestores não explora a classe trabalhadora para a obtenção de valor excedente (surplus value) e a sua acumulação de capital. Os gerentes, ao invés, utilizam poder e controle o qual exercem através da gestão de transnacionais e da finança. A classe trabalhadora não será a "coveira" do capitalismo, como Marx esperava. A "classes populares", ao invés, devem pressionar a classe gerencial a ser progressista e moderna; e eliminar os vestígios da classe capitalista a fim de desenvolver uma nova sociedade meritocrática. Esta é a tese de um novo livro, Managerial Capitalism , de Gerard Dumenil e Dominique Levy (D-L), dois antigos e eminentes economistas marxistas franceses.

Participei no lançamento do livro em Londres, esta semana. No lançamento, Gerard Dumenil argumentou que a classe capitalista (isto é, quem possui os meios de produção) foi substituída pelos gestores que controlam as grandes companhias e tomam todas as decisões que importam. A classe capitalista agora é como a moribunda velha classe feudal no início do século XIX quando Marx entrou em cena. A classe capitalista assumiu então o comando e a classe feudal finalmente converteu-se em capitalista. Agora a classe dos gestores assumiu o comando e os capitalistas tradicionais estão cada vez mais a converterem-se na nova classe dos gestores.

Marx estava bem consciente da separação de funções no capitalismo entre o possuidor do capital e os gestores do capital corporativo. Como ele afirma no volume 3 do Capital: "Companhias por acções em geral (desenvolvidas com o sistema de crédito) têm a tendência para separar esta função de trabalho de gestão cada vez mais da posse de capital, seja ele possuído ou emprestado ... Mas desde que por um lado o funcionamento capitalista confronta o mero possuidor de capital, o capitalista do dinheiro, e com o desenvolvimento do crédito este capital dinheiro assume ele próprio um carácter social, sendo concentrado em bancos e emprestado por estes, não mais os seus proprietários directos; e desde que por outro lado o mero gestor, o qual não possui capital sob qualquer título, nem por empréstimo nem de outra forma, cuida de todas as funções reais que são precisas para o funcionamento capitalista como tal, ali permanece só o funcionário e o capitalista desaparece do processo de produção como alguém supérfluo". (ibid, p. 512).

D-L dedicam algum espaço no seu livro a recordar-nos que Marx estava consciente desta divisão. Mas Marx não via isto como conduzindo a uma nova classe de gestores. A divisão era simplesmente de aparência. O sistema não se havia alterado: "produzir valor excedente, isto é, trabalho não pago, e nas condições mais económicas para isto, é completamente esquecido face à antítese de que os juros acumulam-se para o capitalista mesmo se não desempenha qualquer função enquanto capitalista, mas é simplesmente o possuidor do capital; ao passo que o lucro da empresa, por outro lado, acumula-se para o capitalista em funções mesmo se ele não for o possuidor do capital com o qual ele funciona. Face à forma antitética das duas partes em que o valor excedente se divide, esquece-se que ambos são simplesmente partes do valor excedente e que uma tal divisão não pode de modo algum mudar a sua natureza, a sua origem e as suas condições de existência" (p. 504).

D-L consideram que esta visão da relação entre famílias puramente capitalistas e seus administradores está ultrapassada. Administradores, não famílias capitalistas, dominam agora. No livro, D-L apoia a sua tese com evidências empíricas sobre o aumento da desigualdade de rendimento nos EUA e outras economias principais. Os 1% do topo de receptores de rendimento nos EUA, que habitualmente seriam encarados como parte da classe capitalista, agora obtêm 80% do seu rendimento como salários por trabalharem como administradores e executivos de topo, não do rendimento do capital (dividendos, juros e lucros). Assim estas pessoas de topo são administradoras, não capitalistas. É por esta razão, argumentam D-L, que devemos rever a visão marxista tradicional de que administradores de topo são meramente funcionários da classe capitalista.

Mas os dados poderiam ser interpretados de outra maneira. Simon Mohum efectuou um trabalho empírico semelhante ( ClassStructure1918to2011wmf ) sobre de onde vem o rendimento das camadas do topo. Ele descobriu que a classe trabalhadores – aqueles que dependem unicamente de salários para viver – ainda constitui 84% da população trabalhadora. Os administradores constituem o resto, mas só 2% (Qc no gráfico abaixo) pode realmente viver só de rendas, juros, ganhos de capital e dividendos. Eles são a classe capitalista real. E esse rácio pouco mudou em 100 anos, ainda que a sua fonte directa de rendimento tenha mudado.

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Além disso, este foi o grupo que mais ganhou durante os últimos 30 anos de aumento da desigualdade. O rendimento desta classe capitalista (Qc) aumentou de cerca de 9 vezes o rendimento médio da classe trabalhadora para 22 vezes enquanto os rendimentos dos administradores (Lpd na tabela) aumentou de 2,5 vezes para 3,5 vezes o rendimento dos trabalhadores. Assim, o aumento da desigualdade é primariamente o resultado da exploração acrescida (uma ascensão da taxa do valor excedente) em termos marxistas.

Sim, para os 1% do topo, a partir de 1980, a sua fonte de rendimento do "trabalho" tem flutuado em torno dos 60% do rendimento médio total (cerca do dobro do que era na década de 1920). Mas este topo de 1% dos administradores inclui banqueiros de investimento, juristas corporativos, administradores de hedge funds e de fundos de acções, executivos corporativos. Além disso, dois terços dos 1% do topo são administradores só de nome, pois uma proporção crescente destas ocupações executivas é de negócios de capital fechado (closely held business). Isso significa que possuem seu próprio negócio mas pagam-se salários a si próprios como a fonte de rendimento principal. Isto borra a distinção entre rendimento do trabalho e não-trabalho. Assim, os -3% do topo, de acordo com Mohum, ainda são capitalistas tais como Marx entendia isto, mesmo que se paguem a si próprios enormes salários e bónus.

Além disso, como mostra um estudo : "Os rendimentos de executivos, administradores, profissionais financeiros e profissionais da tecnologia que estão nos 0,1% do topo da distribuição de rendimento são muito sensíveis às flutuações do mercado de acções. A maior parte das nossas evidências apontam a um papel particularmente dos preços de activos no mercado financeiro, comutação de rendimento entre a base fiscal corporativa e pessoal, bem como possivelmente governança corporativa e empresarial, como explicação desta ascensão dramática nas fatias de topo do rendimento". Assim, o rendimento do seu trabalho depende dos mercados capitalista de acções e de activos financeiros.

Quanto aos administradores em geral, pela maior parte das definições eles constituem cerca de 17-20% da força de trabalho, mas parece um salto excessivo sugerir que eles constituem uma nova classe de gerentes, pois podem variar deste Jeff Bezos da Amazon até um supervisor da Walmarts. "Se bem que administradores supervisionem, a maior parte deles também são supervisionados e dividir a distribuição em classe trabalhadora e classe não trabalhadora não trata da questão de quem tem de vender a sua força de trabalho e quem não o faz. Ou seja, de modo algum os administradores podem ser considerados como um grupo homogéneo porque eles estão fundamentalmente divididos entre aqueles que podem vender sua força de trabalho mas não têm de fazer isso e aqueles que vendem a sua força de trabalho porque assim têm de fazer". Mohun.

Erik Olin Wright examinou a estrutura de classe de seis economias capitalistas avançadas e mostrou que os "administradores" fazem parte de um grupo misto num capitalismo moderno. Ao decompor os factores de qualificação de administradores, ele considerou que a maior deles é realmente de trabalhadores com qualificações. A classe trabalhadora propriamente dita ainda constituia mais de 70% da força de trabalho. O método de cálculo de Mohun descobre que a classe trabalhadora está mais próxima dos 80-85%.

Certamente, a questão real é: no interesse de que classe os administradores executam o seu trabalho administrativo? A própria natureza da economia capitalista obriga os administradores a administrarem no interesse dos 1%. Seus empregos dependem das decisões dos accionistas, do preço da acção da companhia e do desempenho dos seus ganhos, por mais altamente pagos que sejam.

Além disso, como previu Marx, a principal característica do capitalismo moderno é uma crescente concentração e centralização da riqueza (não do rendimento). E isso significa que a riqueza possuída nos meios de produção e não apenas riqueza familiar. Em 2016, os 1% de topo da população dos EUA possuíam 40% da riqueza líquida total, ao passo que os 80% da base possuíam apenas 10%. Na base da análise da estrutura de classe de Wright, isto sugere que os 1% do topo são uma combinação de capitalistas e peritos em administração . Os 20% seguintes em riqueza consistem dos capitalistas remanescentes e os dois terços dos administradores de topo. Os 80% da base em termos de riqueza são constituídos por um terço dos administradores e toda a classe trabalhadora (trabalhadores assalariados e supervisores).

O capitalismo moderno desenvolveu-se numa enorme rede de companhias interconectadas com participações accionistas cruzadas. Três teóricos de sistemas do Swiss Federal Institute of Technology, de Zurique, desenvolveram uma base de dados listando 37 milhões de companhias e investidores de todo o mundo e analisaram todas as 43.060 corporações transnacionais e as partilhas de propriedade que as ligam. Eles descobriram que um núcleo dominante de 147 firmas através de posições interconectadas com outras controla em conjunto 40% da riqueza existente na rede. Um total de 737 companhias controla 80% delas todas. Isto é o poder concentrado do capital. (147 controlam)

No lançamento do livro, Gerard Dumenil argumentou que esta concentração de propriedade entre um pequeno número de companhias globais, particularmente bancos, realmente demonstrou a tese de D-L. Eram administradores e directores financeiros que dirigiam estas companhias e tomavam decisões sobre fusões, etc ao passo que os accionistas seguiam-nos como carneiros. Isto seria a prova do "capitalismo dos administradores". Ao invés disso, eu argumentaria que é a prova de que, desde que Marx escreveu acerca de companhias por acções 150 anos atrás, o modo de produção capital tem dominando ainda mais globalmente o investimento, o emprego e a produção.

Uma das características inerentes do modo de produção capitalista é que ele gera crises de produção, investimento e emprego em intervalos regulares e recorrentes. Isto é a consequência da produção para o lucro por parte de proprietários privados individuais num mercado que funciona em contradição com as necessidades da sociedade. Isto é uma característica exclusiva do capitalismo. Terá ela desaparecido? Será que Marx não se demonstrou correcto ao prever que as crises se tornariam mais globais e danosas?

Dumenil parecia estar a sugerir que Marx estava errado acerca do crescimento das crises. No lançamento ele afirmou que a recente Grande Recessão tinha evitado uma grande depressão devido ao "managerialism". A crise foi administrada. Bem, a evidência é certamente ao contrário – como tenho argumentado extensamente neste blog e no meu livro, The Long Depression .

Contudo, Dumenil foi insistente em que aqueles de nós que se apegam às antigas análises e previsões de Marx precisam romper com o dogma e reconhecer o novo modo de produção que está diante de nós. A estratégia política que decorria disto para as "classes populares" (classes trabalhadoras) seria revigorar a luta de classe – mas não para a substituição do capitalismo pelo socialismo. Isso não iria acontecer. Mas o objectivo ao invés devetia ser pressionar a classe dominantes dos administradores (progressista?) para a esquerda a fim de introduzir reformas pró trabalho e isolar a pequena e enfraquecida classe capitalista. Bem, se a classe trabalhadora ainda é 80% da população adulta nas economias mais avançadas (quem dirá alhures) e o capital está ainda mais concentrado e centralizado do que nunca, por que não derrubar também o "managerial capitalism"?
*Publicado originalmente no Diário Liberdade

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