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Ouvidor 63: a arte como instrumento de inclusão social e luta por moradia

Criada há quatro anos, a ocupação no centro de São Paulo se destaca pela essência artística de seus moradores, proporcionando oficinas e laboratórios abertos à população



por Luciano Velleda
da RBA 05 de Maio, 2018 


O caráter artístico da ocupação Ouvidor 63 atrai pessoas do exterior e já foi objeto até de tese de doutorado

São Paulo – Embora pequena, a Rua do Ouvidor, no centro de São Paulo, é um lugar de grande fluxo de pedestres. A razão é a conexão da estreita rua – parte dela fechada para carros – com a passarela que leva os transeuntes ao Terminal Bandeira, um dos maiores terminais de ônibus no centro da capital paulista. Apesar da pressa que caracteriza a rotina dos habitantes de uma das maiores metrópoles do mundo, quem passa por ali dificilmente não volta o olhar em direção ao prédio de número 63. O colorido do edifício, os grafites na fachada, os habitantes com instrumentos musicais ou utensílios circenses chamam a atenção. Há quatro anos, completados no último 1º de maio, o local abriga a ocupação Ouvidor 63, com a característica peculiar de combinar atividades artísticas com a luta por moradia.

Na Ouvidor 63, todos os residentes são artistas. Há um pouco de tudo: dançarinas, cantoras, músicos, artistas plásticos e visuais, acrobatas, palhaços, pintores e escultores. Ao todo, cerca de 120 pessoas vivem no local, incluindo algumas crianças e idosos, número que aumenta um pouco com visitantes esporádicos e estrangeiros que vêm conhecer a ocupação.

“Somos uma ocupação artística e também de moradia. Temos essa característica de ser uma ocupação artístico-cultural, e a gente usa isto como ferramenta de transformação social”, explica D’julia Gangary, de 42 anos, gaúcho de Porto Alegre e que há 15 anos reside em São Paulo, sendo os últimos dois na ocupação. Artista visual, Gangary chegou na Ouvidor 63 convidado para montar o atelier de xilogravura, situado no 4º andar do prédio. “Muita gente aprendeu xilogravura comigo e hoje trabalha na rua e em feiras. É uma inclusão artística e social mesmo, um trabalho bem bacana.” Atualmente, o atelier é comandado por alguns de seus ex-alunos.

REPRODUÇÃO/FACEBOOK

Djulia Gangary chegou na Ouvidor 63 há dois anos para criar o atelier de xilogravura

Gangary explica que a ocupação tem uma intensa programação de oficinas de arte, laboratórios e shows, tudo sempre gratuito e aberto ao público. “Somos um centro cultural mesmo, mas somos uma ocupação de moradia também. Se ela acabar, muita gente vai ficar na rua.” Há dois anos, os moradores da Ouvidor 63 criaram sua própria bienal de artes, realizada paralelamente à famosa Bienal de São Paulo. Em setembro de 2018 o evento irá se repetir. Antes, porém, já estão sendo realizados 24 laboratórios, incluindo pintura, escultura, história da arte, entre outros. Os resultados dos laboratórios comporão a mostra da bienal. “É um projeto educativo que começa agora e dura o ano todo”, destaca D’julia Gangary, adiantando que a meta é transformá-lo, a partir de 2019, numa universidade livre. “A ideia é que após cada bienal nós continuemos com os laboratórios e que isso se transforme num centro de educação e arte.”

Resistência


O último 1º de maio, quando a ocupação completou quatro anos, coincidiu com a tragédia envolvendo outra ocupação da cidade, no Largo do Paisandu, cujo edifício incendiou e em seguida desmoronou. O que era para ser um dia de festa, se tornou um dia de apreensão quando, por volta das 13h, a Eletropaulo chegou para cortar a luz do prédio. Os moradores conseguiram contornar o problema, mas a ameaça sobre as consequências que as outras ocupações de São Paulo sofreriam após a tragédia do edifício que desabou, deixou todos em alerta.

“Foi bem difícil para nós, mas estamos num processo de negociação com a prefeitura”, disse Gangary, referindo-se às fiscalizações das ocupações anunciadas pelo executivo municipal. Nos últimos dias, junto com lideranças de outras ocupações, ele se reuniu com o secretário municipal da Habitação, Fernando Chucre, e membros da Defesa Civil, dos bombeiros e do Ministério Público (MP). Apesar do susto da ameaça de corte de luz, disse que a conversa foi boa e agora acredita que as vistorias podem ser uma iniciativa “bacana” e até trazerem melhorias em termos de segurança dos prédios.

Segundo ele, a discussão do momento se refere à definição dos critérios a serem utilizados nas vistorias, algo que avalia ser preciso incluir algumas exceções no rol de exigências das questões de segurança, caso contrário, todas as ocupações fecharão. Apesar da incerteza, acredita que ninguém quer a reintegração simultânea de várias ocupações, fato que deixaria muita gente na rua. “Depois da reunião ficamos mais otimistas.”

Ameaças vindo do poder público não são novidades para os residentes da Ouvidor 63, que está em processo de reintegração de posse – o imóvel pertence ao governo do estado. Em fevereiro, inclusive, a Justiça expediu um mandado de execução da reintegração, mas o fato ainda não foi concretizado. “Falamos com os promotores e disseram que isto vai ser travado, nos prometeram que vai ser revisto. Não é um cenário muito bacana agora para que aconteça essas reintegrações”, explica o artista gaúcho.

A tragédia da ocupação que desabou e as conversas iniciadas com a prefeitura e o Ministério Público, todavia, propiciaram aos moradores da Ouvidor 63 apresentarem às autoridades o que acontece na colorida e badalada ocupação. “O que a gente quer é que se façam as melhorias, e que a gente trabalhe junto com o estado e a prefeitura, ou nos deixem livres para que a gente possa fazer. Apesar de sermos uma ocupação nova, em comparação com outras, temos já um trabalho consolidado. Vários TCCs (trabalho acadêmico de conclusão de curso) e teses de doutorado foram feitas aqui, além de residências artísticas com o pessoal que vem de fora.”

ROSE STEINMETZOs 120 residentes da ocupação são artistas e promovem uma série de atrações no local
Futuro

D’julia Gangary explica que o prédio da Ouvidor 63 era originalmente comercial e que, segundo os bombeiros, nunca irá se encaixar nas regras de segurança de um edifício residencial. Por outro lado, por ter em seu interior espaços coletivos há, por exemplo, um andar onde apenas três pessoas moram. “Por ser uma ocupação artística, essa análise já é diferente. A gente não tem vinte botijões de gás num andar. É uma ocupação diferente e a gente espera que isso seja analisado sob esse ponto de vista, seja levado em conta.”

Após a tragédia no Largo Paissandu e a visibilidade em torno do tema da moradia na cidade, ele espera que a população possa conhecer e entender melhor a realidade das diferentes ocupação existentes em São Paulo. “A gente espera que cada ocupação possa explicar seu sonho, seu ideal. A gente trabalha tendo a arte como instrumento de transformação social, e cada movimento tem a sua ideia. Tem moradia, tem a luta por habitação, mas tem também sua parte cultural.”

Gangary pondera que os movimentos “responsáveis” vão em busca de políticas públicas, participam de debates e reuniões, enquanto outros não organizados até se aproveitam da situação de desespero das famílias que não têm onde morar. “Infelizmente há isso, mas acho que está havendo essa discussão e isso vai se reverter, vai ser positivo para os movimentos. Nós mesmos éramos uma ilha, mas agora, depois da bienal e dos laboratórios, estamos procurando nos relacionar melhor com os outros movimentos da cidade.”

A luta pelo futuro da Ouvidor 63 levou seus residentes a organizarem até este domingo (6) uma série de atividades em frente ao prédio. A programação inclui shows musicais, projeção de filmes e exibições artísticas, tudo para chamar a atenção da população sobre o problema da moradia na maior cidade do país. No caso da Ouvidor 63, a luta é feita com aquilo que seus moradores têm de melhor para oferecer: a arte.

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