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Mostra em São Paulo celebra o centenário de Antônio Cândido

Da Carta Capital, 27 de Maio, 2018
por Jotabê Medeiros 

Guilherme Maranhão
É a primeira imersão no acervo construído desde a infância pelo professor e ensaísta. Por conta do tamanho da coleção, quase tudo em exposição é inédito

Da cultura caipira à sistemática da literatura brasileira, sua obra é fundacional

Nos últimos anos de vida, o crítico literário Antonio Candido fez um limpa em sua biblioteca colossal (estocava 1.858 títulos na sala, 1.277 no escritório, 300 no corredor, 451 no quarto, 2.200 no quarto dos fundos) e deixou ficar apenas o que queria de fato guardar para si: 145 autores.

Na seleta lista, estão Alcântara Machado, Augusto dos Anjos, Rimbaud, Carlos Drummond, Kafka, Ezra Pound, Diderot, Heródoto, Balzac, João Cabral, Oscar Wilde, Oswald de Andrade, Queneau, Verlaine e Shakespeare.
Para um homem que dedicou a vida à seleção e ao rigor, a lista em si transforma-se em um farol para literatos e leitores. O registro dessa biblioteca essencial está na primeira curva da Ocupação Antonio Candido, mostra que o Itaú Cultural abriu as portas nesta semana, na quarta-feira 23 em sua sede, na Avenida Paulista, celebrando o centenário de nascimento do crítico.

É a primeira imersão no acervo constituído desde os 10 anos de idade pelo professor e ensaísta, e que hoje se encontra sob a guarda do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo.

Por conta do tamanho do acervo, quase tudo que está na exposição é inédito: fotos, manuscritos (como o caderno O Revolucionário), cartas, discos de vinil e objetos de design. O visitante não terá sugestão de percurso na exposição, mas no início já se depara com um clássico do professor Candido, Parceiros do Rio Bonito.

O livro foi o resultado da tese de doutoramento do autor em ciências sociais, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, defendida em 1954 (a primeira edição saiu em 1964). O tema é o caipira e seus hábitos sociais, como festas, música, alimentação e moradia.

Uma playlist com duplas de cantadores caipiras cantando o cururu acompanha o visitante pela mostra: Nhô Serra, Pedro Chiquito, Narciso Correia e Zico Moreira, Parafuso e Horácio Netto. São canções selecionadas pela designer e editora Laura Escorel, neta do autor, entre os 800 discos de vinil da coleção do mestre.

A Ocupação Antonio Candido tem inspiração em um ensaio do professor, O Direito à Literatura, texto de 1988 feito sob encomenda para a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. “A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. Por isso é indispensável tanto a literatura sancionada quanto a literatura proscrita; a que os poderes sugerem e a que nasce dos movimentos de negação do estado de coisas”, escreveu o professor.

Com a mulher, Gilda de Mello e Souza, constituiu uma fecunda troca intelectual e dividiu o ofício de preparar intelectualmente as novas gerações

Esse O Direito à Literatura não é apenas o suporte de toda a mostra (haverá lâminas de tecidos expostas com trechos do artigo ao longo da ocupação), mas também do simpósio paralelo que ela abriga, que reunirá autores como o uruguaio Pablo Rocca, a checa Sárka Grauová e os brasileiros Walnice Nogueira Galvão, Luiz Rufatto, Antonio Prata e José Miguel Wisnik, entre outros.

Um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, Candido terá uma seção destinada à sua militância política. A consistência do pensamento e das preocupações sociais de Antonio Candido, diz Claudiney Ferreira, gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura do Itaú Cultural, são um importante reforço ao debate atual, “num momento em que a arte passa por um processo de criminalização”.

Antonio Candido, pondera Ferreira, viu a literatura como ferramenta de emancipação, e sua atitude sempre se sobrepôs às tendências mais egoísticas da sociedade moderna. Por exemplo, cultivava a autocrítica com rigor. Voltava, anos depois, aos próprios textos críticos e os revisava com rigor. “Como fui escrever uma coisa dessas?” ou “Onde eu estava com a cabeça?” eram frases frequentes do ensaísta.

Por isso, uma das seções da exposição tem justamente esse nome: Autocrítica. Apresenta cinco artigos publicados nos rodapés dos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, durante a década de 1940, e revistos pelo crítico posteriormente. Destacam-se Perto do Coração Selvagem, sobre a estreia de Clarice Lispector; Sagarana, o primeiro livro de João Guimarães Rosa; e Poesia ao Norte, que trata de Pedra do Sono, coletânea de poemas de João Cabral de Melo Neto. Antonio Candido enxergou primeiro o futuro da literatura brasileira.

Claudiney Ferreira acredita que o acervo de Antonio Candido e sua mulher, Gilda de Mello e Souza, leve muitas décadas ainda sendo estudado e catalogado. Formado por um conjunto de, aproximadamente, 5 mil fotografias, 45 mil itens de acervo textual e uma quantidade ainda não contabilizada de itens museológicos, o material examina o próprio desenvolvimento da literatura.

Quanto às pistas biográficas sobre os métodos e o processo de Antonio Candido, há diversas frentes de elucidação. Há até vídeos de dois de seus mais constantes interlocutores: a empregada doméstica Maria, e Moacir, um chofer de táxi que o levava e trazia da USP, dando depoimentos sobre o professor.

A chave do trabalho de Candido, avaliam os especialistas, está em sua tendência a anotar exaustivamente e a fazer diagramas e gráficos (como o que acompanha a Dialética da Malandragem).

Também é destaque na exposição a obra fundamental do autor, Formação da Literatura Brasileira, escrita entre 1945 e 1951 e editada em 1959, em dois volumes. Em 2007, o livro foi reeditado pela editora Ouro Sobre Azul em um único volume.

As publicações Clima e Argumento formam outro núcleo. A revista Clima, que circulou de 1941 a 1944, foi idealizada por Alfredo de Mesquita, e os articulistas eram, além de Antonio Candido, Décio Almeida Prado (teatro), Paulo Emílio Salles Gomes (cinema), Lourival Gomes Machado (artes plásticas) e Antonio Branco Lefèvre (música). Gilda de Mello e Souza foi colaboradora.

O mesmo grupo trabalhou na edição da revista Argumento, publicada nos anos 1973 e 1974, até o número 4. Censurados pelo regime militar, decidiram interromper a publicação.

Já a parte reservada ao lendário Suplemento Literário, projeto elaborado por Antonio Candido para o jornal O Estado de S. Paulo, editado entre 1956 e 1974, terá uma preciosidade: o projeto original do professor Candido, que continha indicações do conteúdo a ser tratado e da lista de colaboradores necessários com sua respectiva remuneração.

O objeto mais antigo é um caderno de infância com anotações feitas por Antonio Candido menino, aos 10 anos de idade. Ele não foi à escola inicialmente, tendo como professora a própria mãe, Clarisse. Ela ensinou-o a tratar com critério, e fazer anotações sobre todos os autores que tratava, método que levou adiante por toda a vida.

Também há fotos com os irmãos Roberto e Miguel, e com os pais Clarisse e Aristides, além de imagens do ambiente que fez parte de sua infância, as cidades de Poços de Caldas e Santa Rita de Cássia, ambas em Minas Gerais.

Candido lecionou literatura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis do Instituto Isolado de Ensino Superior do Governo do Estado de São Paulo (atualmente integrado à Unesp), entre os anos 1958 e 1960. Em seguida, tornou-se professor de Teoria Literária da Universidade de São Paulo. Em 1978, ele se aposentou, seguindo na orientação de teses e dissertações até 1992.

Na exposição, também estarão presentes roteiros de leitura, planos de aula e fotografias do período em que lecionou.

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