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Ainda escravizados pela pobreza, por Mário Lima Jr.

Do GGN, 12 de Maio, 2018


O Brasil tem um projeto iniciado no século 19 que continua inacabado: respeitar a dignidade de cada habitante do território nacional. Até o dia 13 de maio de 1888, a Escravidão negou a cidadania e o reconhecimento do valor dos homens e mulheres que constroem o país. Nos dias atuais, a pobreza castiga os brasileiros e marca nossa história com injustiça e vergonha.

Em 2017 a pobreza extrema aumentou 11%. Quase 15 milhões de pessoas sobrevivem com menos de R$ 136 por mês. O problema não para por aí. Há tanta miséria no mundo que foi preciso criar níveis de pobreza. Pobres comuns, que têm renda familiar equivalente a R$ 387,07 mensais, chegam a 50 milhões de almas (Agência Brasil).

Alguém poderia ignorar o sofrimento de 50 milhões e concluir que mais de 150 milhões de pessoas vivem confortavelmente no Brasil. Seria um engano causado por esses níveis de pobreza. Metade da população de 207 milhões ganha menos de um salário mínimo por mês. E sabemos que o salário mínimo brasileiro é insuficiente para atender às necessidades básicas.

O movimento abolicionista, que teve Joaquim Nabuco como um dos seus expoentes, defendia que um país é tão livre quanto sua classe trabalhadora. Pregava o fim da submissão do escravo ao senhor tendo em vista os valores de uma sociedade civilizada, entre eles a liberdade. Liberdade dos grilhões, do chicote, mas principalmente liberdade da exclusão social. Que a relação entre senhor e escravo não se transformasse em outra igualmente abominável: ricos e pobres.

Seis brasileiros possuem a mesma riqueza que a metade da população mais pobre (El País). Embora a escravidão tenha sido abolida há 130 anos, o poder ainda se concentra em poucas mãos. Que liberdade tem uma família que ganha menos de um salário mínimo por mês para se alimentar com dignidade, se vestir e educar seus filhos? A base da pirâmide social brasileira são miseráveis, pobres e gente incapaz de ler e interpretar seus direitos e deveres escritos na Constituição Federal. Somos desde o princípio um país de excluídos.

Discutir o direito à liberdade parece ridículo nos dias de hoje, desde a afirmação dos direitos humanos. No passado, boa parte do Senado ridicularizou o projeto abolicionista de por fim à escravidão como algo utópico e até prejudicial à saúde mental do negro, escravizado por mais de três séculos. Em um futuro próximo, veremos pessoas morando em barracos de madeira nas periferias, suportando o esgoto a céu aberto na porta de casa, com a mesma revolta que olhamos imagens antigas de seres humanos amontoados nas senzalas.

Joaquim Nabuco e o movimento abolicionista acreditavam na capacidade humana de perceber o que é melhor para todos. Diziam que não se constrói uma nação baseada na escravidão e destacavam que a vergonha não estava no escravo, mas no senhor. Também não se constrói uma nação baseada na pobreza. Vergonhosa não é a falta de recursos, infame e vil é a acumulação de capital. Os ideais abolicionistas nos convidam a não admitir, por mais um dia sequer, alguém vivendo na pobreza.

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