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A decisão de Trump sobre o acordo com o Irã é um desastre para o Oriente Médio

Créditos da foto: Flickr/The U.S. Army
Nas últimas décadas, as relações entre os EUA e o Irã e entre o Irã e o Ocidente estiveram envoltas em equívocos e preconceitos. Nada foi feito para chegar a um relacionamento pacífico com aquele país


Da Carta Maior, 10 de Maio, 2018
Por Cesar Chelala, CounterPunch

A decisão do presidente Donald Trump de retirar os EUA do acordo com o Irã cria, desnecessariamente, uma nova fonte de tensão em uma região sitiada por conflitos. Dada a variedade de empecilhos legais que o presidente Trump enfrenta hoje, sua decisão poderia ser, até certo ponto, cortina de fumaça para seu drama pessoal.

A decisão do presidente Trump foi entusiasmadamente apoiada pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e rechaçada por todos os outros governos que fazem parte do acordo. Em março de 2015, diante frente das duas casas parlamentares dos EUA, Netanyahu disse: “Disseram-nos que nenhum acordo é melhor que um mau acordo. Bem, esse é um mau acordo. É um acordo muito ruim. Estaremos melhor sem ele”.

Nas últimas décadas, as relações entre os EUA e o Irã e entre o Irã e o Ocidente estiveram envoltas em equívocos e preconceitos. Nada foi feito para chegar a um relacionamento pacífico com aquele país, e o permanente estado de desconfiança construído nos últimos anos pode levar a uma guerra a qualquer momento.

O início das relações conflitantes com o Irã pode ser identificado como sendo 19 de agosto de 1953, quando tanto o Reino Unido quanto os EUA orquestraram um golpe que derrubou o primeiro-ministro democraticamente eleito do Irã, Mohammad Mossadegh. O motivo: Mossadegh estava tentando auditar as contas da Companhia anglo-iraniana de petróleo (Anglo-Iranian Oil Company - AIOC), de capital britânico, para mudar os termos de acesso daquela empresa ao petróleo iraniano.

Após a recusa da AIOC em cooperar com o governo iraniano, o parlamento iraniano votou quase em unanimidade para nacionalizar a AIOC e expulsar seus representantes do Irã. O golpe contra o governo que se seguiu levou à formação de um governo militar sob o comando do general Fazlollah Zahedi, que permitiu o retorno de Mohammad Reza Pahlavi para governar o país como um monarca absoluto e implacável.

60 anos após o golpe, a CIA finalmente admitiu envolvimento tanto no planejamento quanto na execução do golpe que causou uma maioria de vítimas civis. Esse golpe e o comportamento dos EUA em relação aos governos árabes em toda a região estão por trás do sentimento antiamericano não só no Irã, mas em todo o Oriente Médio.

Pergunto-me como nós, nos Estados Unidos, teríamos reagido se a China e a Rússia, por exemplo, tivessem planejado derrubar um governo americano democrático, deixando no lugar uma situação caótica. Vale também lembrar que, enquanto o Irã não invadiu nenhum outro país em séculos, tanto os EUA quanto Israel, inimigos do Irã, estiveram (e ainda estão) à frente de guerras brutais contra outros países e povos.

A interferência dos EUA na política iraniana não terminou por aí. Em setembro de 1980, Saddam Hussein iniciou uma guerra contra o Irã que teve consequências devastadoras para os dois países. A guerra foi caracterizada pelos ataques indiscriminados de mísseis do Iraque e pelo uso extensivo de armas químicas.

A guerra resultou em pelo menos meio milhão de mortos em ambos os lados, e quase o mesmo número de homens permanentemente incapacitados por ferimentos. Os EUA apoiaram ativamente Saddam Hussein em seus esforços de guerra, com bilhões de dólares em créditos, tecnologia avançada, armamento, inteligência militar e treinamento em Operações Especiais.

Apesar deste histórico, no entanto, ao invés de seguir uma política de apaziguamento, o presidente Donald Trump rejeitou o acordo nuclear com o Irã, contra os interesses políticos e econômicos de longo prazo dos EUA na região. E tem um fiel aliado no primeiro-ministro de Israel, Netanyahu.

Nem todos os militares e oficiais de inteligência israelenses compartilham a visão negativa de Netanyahu sobre o acordo nuclear. O general Gadi Eisenkot, atual chefe de gabinete das Forças de Defesa de Israel (IDF), disse em uma entrevista para marcar o 70º aniversário do país: “Neste momento, o acordo, apesar de todas as suas falhas, está funcionando e adia a realização do plano nuclear iraniano entre 10 e 15 anos. Com o acordo em vigor, a janela de oportunidade estratégica ainda está aberta a nosso favor”.

Uma opinião semelhante foi expressa por Amos Gilad, ex-chefe de pesquisa da Inteligência Militar e ex-diretor da divisão de políticas e assuntos militares do Ministério da Defesa. Ele chegou a dizer que a retirada dos EUA do acordo de 2015 provavelmente beneficiaria mais o Irã do que Israel, e acrescentou: “Se os americanos abandonarem o acordo, terão que se preparar para as alternativas, e não vejo isso sendo feito”.

A reimposição de sanções certamente afetará a capacidade do Irã de realizar acordos econômicos com outros países e, como resultado, agravará a já delicada situação econômica do país. Mas também aumentaria as tensões no Oriente Médio, aprofundaria o conflito entre Israel e o Irã e até mesmo afetaria um possível acordo com a Coreia do Norte, que pode considerar que os EUA não são confiáveis, sendo incapazes de manter sua palavra.


Tradução Clarisse Meireles


*Publicado originalmente no Counter Punch

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