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1968 com Chico Buarque, Albert Camus e o AI-5


"O ano de 1968 estava no fim. No dia 13 de dezembro (aniversário da minha avó...) Costa e Silva decretou o Ato Institucional número 5, que representou o recrudescimento da repressão militar, depois de um primeiro período (de 64 ao final de 68) em que ainda se podia respirar, criar, protestar"



Da Carta Maior, 03 de Maio, 2018
Por Maria Rita Kehl



Para resgatar minha memória pessoal a respeito do ano de 1968 preciso lutar contra a memória social daquele ano. Embora eu tenha reconstruído mais tarde o significado do ano de 1968 no Brasil e no mundo, (fui uma adolescente alienada), essa memória histórica é hoje muito, muito mais viva e presente do que a da ginasiana que eu fui.

1968 começou para mim em 1967. Minha família, amorosa e divertida, era na verdade meio de direita. Eu não me dava conta disso. Entendia vagamente as divergências entre meu pai e o cunhado dele, tio Chico, que conhecera o regime de Fidel com um grupo de arquitetos da FAU, em 1963. Chico era o "comunista" da família. Ele me mandou um postal de Havana, apenas porque eu, aos 11 anos, colecionava postais. Não me lembro do que ele escreveu, mas percebi que "ir a Cuba" era uma experiência importante para quem queria mudar o mundo. Isso, eu queria desde a infância, à maneira infantil: mudar o mundo.

1967 foi o melhor ano da minha adolescência. Estudei em um colégio de freiras, mas eram dominicanas ligadas à Teologia da Libertação. Fizemos trabalho voluntário em uma favela do Alto de Pinheiros. Oferecemos aulas particulares para recuperar crianças que iam mal na escola. E tive a imensa sorte de integrar o Teatro Adolescente Santa Cruz (TASC), dirigido por um "perigoso elemento" chamado Marinho.

O colégio Santa Cruz era só masculino e o meu, Rainha da Paz, só feminino. O grupo do TASC precisava de meninas e nos convocou, na escola vizinha. Fui. Adorei. Tudo, tudo era interessante. A começar pelos meninos (namorei dois deles, sem grande paixão). E os ensaios, que aconteciam num salão grande cedido pelas freiras do lindo colégio Des Oiseaux, perto do Baixo Augusta. Tomar o ônibus e descer na Consolação, para uma menina que saia sempre de carro com a mãe, era muito excitante. Em grupo fazíamos práticas de relaxamento e concentração. Vivíamos com uma sensação de boemia: tocar violão, torcer pelos nossos compositores prediletos nos maravilhosos festivais de Música Popular Brasileira da TV Record, sentar no chão (isso mesmo: atitude vanguardista, há 50 anos!), sair pelas ruas para colar cartazes da peça... Tudo era expectativa e excitação.

No final de 67 fizemos O presépio na vitrine de Roberto Freire. Como entrei no grupo com os ensaios avançados, fiz só figuração e coro.

Aí entrou o ano de 1968. Chico Buarque, que estudou no Santa Cruz, foi se apresentar lá. As "meninas do TASC" foram convocadas para fazer o coro em algumas canções! Hoje posso dizer que já cantei com o Chico.

No teatro, superamos a fase ingênua do Presépio na Vitrine e partimos para Camus: o Marinho resolveu encenar A Peste. Eu nem imaginava que era uma forma de criticar a ditadura! Além das novidades excitantes do ano anterior, agora fazíamos também exercícios de relaxamento e de improvisos, sempre divertidos. Meus talentos teatrais não eram grande coisa; então ganhei o papel de "secretária da Peste". Com um caderno na mão, cortava um por um os nomes das pessoas que a peste eliminava. A falta de talento não impedia que eu gostasse tanto dos ensaios e do ambiente "teatral", que hoje só consigo me lembrar da fase preparatória.

Não tenho memória dos acontecimentos da estreia, mas sei que foi no TUCA. Depois, não me lembro se levamos A Peste em outros colégios. O fato é que eu vivia como se que o tédio adolescente tivesse ficado pra trás. Para sempre.
Se dependesse de mim, teria continuado no TASC.

O ano de 1968 estava no fim. No dia 13 de dezembro (aniversário da minha avó...) Costa e Silva decretou o Ato Institucional número 5, que representou o recrudescimento da repressão militar, depois de um primeiro período (de 64 ao final de 68) em que ainda se podia respirar, criar, protestar. Pessoas começaram a desaparecer ou morrer na tortura, mas eu não sabia disso. O problema é que meu pai apoiava a ditadura. Achava importante "botar ordem na bagunça".

Uma noite, ele e minha mãe me chamaram para conversar. Não me lembro de uma palavra do que foi dito. Mas sei que meu pai fez uma preleção, enrolada, embebida de chantagem emocional... e me "convenceu" a sair do TASC. Comuniquei minha decisão ao grupo, com justificativas mais enroladas do que as do meu pai. Chorei o tempo todo, enquanto me justificava. Todos me acharam covarde de pular do barco naquele momento. Ninguém se comoveu com meu blá-blá-blá.

O ano de 68, que começara esperançoso, terminou melancolicamente - para o Brasil e, em escala diminuta, na minha vida pessoal. Fiquei triste e entediada. Engordei. Engordei quase dez quilos por causa do AI-5.

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