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SEBASTIÃO SALGADO NA AMAZÔNIA


Da Folha de São Paulo, 17.dez.2017
LEÃO SERVA


A reportagem da Folha acompanha expedição do fotógrafo brasileiro ao Território Indígena Vale do Javari, na Amazônia, onde vivem os korubos, que têm pouco contato com a “cultura branca”. É a primeira vez que uma equipe de documentação se hospeda com os “índios caceteiros”, assim chamados por usarem bordunas

Da esq. para a dir., em pé, Ayax Punu, Pinu, Txitxopi, Mëlanvo, Tsamavó Vakwë, Malevo e Wanka; sentados atrás, Takvan Vakwë, Pinu Vakwë, Pëxken, Tsamavó, Xamalekit, Txixpa Vakwë e Pëkwin; sentados no meio, Lëyu e Xuxu; deitado na rede, Xikxuvo; deitado atrás, Kunu; deitado na frente, Ixovo
MEDO

Eles estão com medo

O fotógrafo brasileiro mais importante e reconhecido do mundo transforma a maior floresta da Terra em estúdio para produzir o que talvez seja seu último grande projeto: “Amazônia”. Seu olhar está voltado aos povos autóctones do país, indígenas classificados como de pouco contato com a “cultura branca”, caso dos korubos.

Convidada pelo artista e pelos índios, a reportagem da Folha acompanhou parte da expedição à terra desse grupo, no oeste do Amazonas. É a primeira vez que uma equipe de documentação se hospeda com os korubos, conhecidos como violentos e chamados de “caceteiros”, em razão de usarem bordunas, em vez de arco e flecha.

Ameaçados hoje pela exploração clandestina das riquezas do seu território, os korubos estão tensos, temem pelo futuro de sua etnia e querem falar

Os korubos querem falar

No fundo da floresta que habitam desde sempre, os korubos, conhecidos como os “violentos índios caceteiros”, correm armados com suas bordunas em direção ao forasteiro que se aproxima. Cercam-no e iniciam uma intensa gritaria, enquanto miram o fundo dos olhos do homem branco. O susto inicial logo é substituído por um estranhamento diante do enigmático som gutural que todos emitem infinitas vezes: ”Hei, hei, hei, hei, hei…”.

Os korubos recebem assim Sebastião Salgado, fotógrafo mais famoso do planeta, que ficou em sua aldeia no vale do Javari por 20 dias entre setembro e outubro para produzir o novo projeto, “Amazônia”.

Os korubos são cerca de 80 índios que mantêm contato regular com funcionários do Estado brasileiro e outros tantos que ainda vivem na floresta, sem convívio com outros grupos, indígenas ou não. Os contatados estão divididos em duas aldeias às margens do rio Ituí, na Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas, junto à fronteira com o Peru, a 3,5 mil km de São Paulo e 1,2 mil km de Manaus.



Koburos vão à caça em acampamento na margem esquerda do rio Ituí; da esq. para a dir.: Pinu Vakwë, Pëxken, Ayax Punu, Xuxu, Ixovo, Tsamavó Vakwë, Kunu, Tsamavó, Lëyu, Sini e Luni

Classificados como “índios de recente contato”, ou pouca relação com os não índios, vivem de forma tradicional, poucos falam português e têm grande fragilidade diante das doenças comuns entre não índios. Por isso, a presença de brancos é evitada em sua comunidade.

A expedição de Salgado marca a primeira vez que uma equipe de documentação e jornalistas se hospeda com os korubos. O colunista da Folha acompanha a visita a convite de Salgado e dos índios.

Esse grupo ficou conhecido no século 20 pela violência com que atacava invasores de seus territórios, usando bordunas (cacetes), arma que gerou seu apelido. Os ataques dos índios foram seguidos de represálias de não índios, que resultaram em diversos massacres.



O rio Ituí, na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas

Foi para evitar essas incursões de vingança que o indigenista Sydney Possuelo organizou a expedição aos korubos, em 1996. A iniciativa durou meses. Na época, foram contatados 21 índios. Outros dois grupos se juntaram a eles em 2014 e 2015.

A área foi palco de duas denúncias recentes de supostos ataques a índios isolados. Expedições da Funai encontraram garimpeiros atuando ilegalmente, mas não detectaram sinais de massacre. Os índios temem que seus parentes isolados sejam vítimas desses ou outros ataques. Eles querem falar.



Primeiro contato do jornalista Leão Serva com os korubos

O CAMINHO

As duas aldeias dos korubos, às margens do Ituí, ficam a meio caminho entre o rio Solimões e a divisa do Amazonas com o Acre. É a segunda maior reserva indígena do país (atrás da Terra Ianomâmi, em Roraima e no norte do AM), com 8,5 milhões de hectares, ao menos sete etnias e o maior número de grupos isolados (há indicação de 14).

Olhando o mapa mais ao norte, no local em que o rio Amazonas, vindo do Peru, entra em terras brasileiras, ganhando o nome de Solimões, forma-se a tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil.

Nesse cruzamento ficam: Leticia, capital do Estado colombiano de Amazonas, separada da brasileira Tabatinga só pelo asfalto de uma rua e uns cones de trânsito; e apartada das duas, do lado peruano, a pequena Santa Rosa de Yavari, em uma ilha no meio do grande rio.

Tabatinga é a maior cidade brasileira da região, concentra um grande destacamento do Exército, Polícia Federal, Ministério Público, Funai e outros órgãos públicos. De lá para a área dos korubos a viagem é feita de barco, rumo ao sul, serpenteando pelo rio Javari até a foz de seu afluente Itaquaí, na cidade de Benjamin Constant. Depois, pelo Itaquaí até o encontro com o Ituí, onde há a Frente de Proteção Etnoambiental, órgão da Funai para índios isolados ou de pouco contato.



No alto sentadas: Manisvo e Kulutxia com a criança, Maya Koluvo, no colo; em pé, Tsamavó; e acima Ayax Punu e seu macaco zogue-zogue ( masoko, na língua korubo)

A base está estrategicamente instalada no encontro dos rios, que marca o limite norte da terra indígena, de onde é possível vigiar quem passa por essas águas e impedir o trânsito de invasores. Após 11 horas de “voadeira” desde Tabatinga até a comunidade, chegamos ao acampamento de caça onde Sebastião Salgado já está com os índios.

Tão logo entro na clareira em torno da qual estão montadas as barracas (”tapiris”), eles iniciam a dança ritual com que recebem os forasteiros. Formam uma roda. De mãos dadas, os homens seguram suas bordunas com a mão esquerda.

UMA DANÇA INEBRIANTE

O alienígena é o centro das atenções. As pessoas olham profundamente em seus olhos e fazem o som percussivo e gutural, repetitivo e inebriante: ”Hei, hei, hei…”, por um longo período, batendo a sola do pé no chão no mesmo ritmo, por mais de 30, 40 minutos, que ficam parecendo uma eternidade e criam um estado alterado de mente.

Enquanto a roda canta a sílaba repetitivamente, uma pessoa narra uma história, depois outra. Mesmo que o convidado falasse a língua korubo, em meio ao ”hei, hei” contínuo seria impossível entender.

Um indigenista brinca que, no passado, esse mesmo rito já foi usado para envolver uma possível vítima. Os índios estão todos com suas bordunas. Se a violência explodisse, não sobraria nada.

Mas, naquele momento, a repetição apenas cria uma distração, uma espécie de viagem. Ao final da qual sou conduzido para meu abrigo, a tenda onde vou pendurar minha rede. Tão logo me instalo, os korubosme chamam, volto à praça onde vários deles estão sentados em troncos de madeira como se fossem sofás. Eles querem muito falar.



À extrema esquerda, Malevo; à direita,Tsamavo, próximo à árvore, e Ixovo

Sebastião Salgado produz uma série de reportagens fotográficas sobre a Amazônia, com destaque para grupos indígenas de pouco contato com a cultura “branca”. É uma continuidade de seu trabalho anterior, “Gênesis”, que inclui fotos dos índios zo’és, do Pará, e de outras etnias. Ele busca retratar os povos autóctones do Brasil, moradores da maior floresta do mundo, ameaçados pela destruição provocada pela exploração insustentável.

Ele diz que “Amazônia” é possivelmente seu “último projeto”, porque quer se concentrar em algo que considera fundamental: voltar-se para negativos antigos, revisitar e reeditar projetos anteriores. E esse processo de olhar milhares de fotogramas, escolher entre os que foram descartados antes e bolar páginas para outros livros consome um tempo que as constantes longas viagens não permitem.

Por fim, o que talvez esteja mais próximo de ser o “verdadeiro motivo” de o fotógrafo querer ficar mais tempo em casa é o nascimento de sua primeira neta, filha de Juliano Salgado, o cineasta que codirigiu “O Sal da Terra”, que depois de um filho único, já na universidade, agora está para ter uma menina.

Salgado e a mulher, Lélia, acabam de se mudar temporariamente para São Paulo para acompanhar o nascimento da menina e suas primeiras semanas de vida.

Para “Amazônia”, Salgado visitou vários grupos além dos korubos e fará outras expedições até 2019, quando deve divulgar publicações e mostras que são parte do projeto.



Xikxuvo Vakwë, na Terra Indígena Vale do Javari, no Estado do Amazonas

GLOSSÁRIO

Korubos Índios de língua pano. A palavra não corresponde à forma como os índios se autodenominam; é um termo usado pelos matis, que quer dizer “enlameado” (“koru” quer dizer lama). Isso se explica porque os korubos usavam lama para cobrir a pele e evitar picadas de mosquitos

Kulina Povo indígena de língua arawá. Eles se autodenominam madija (pronuncia-se madirrá, o que quer dizer “gente” em seu idioma). Homens e mulheres falam a língua de forma bem diferente

Marubos Índios cuja língua pertence à família pano (como matis, matsés e korubos). Acredita-se que o povo tenha se formado a partir do encontro de sobreviventes de diferentes grupos atacados por seringueiros nos séculos 19 e 20

Matis Índios de língua pano

Nomes indígenas As culturas indígenas não atribuem sobrenomes às pessoas. No caso dos korubos, Leium, Pëxkn e Mayá são exemplos de nomes de pessoas. Para efeito de seus registros no Estado brasileiro, o nome da etnia é acrescentado aos prenomes pelos quais são conhecidos, como um sobrenome, com registros oficiais como Leium Korubo, Pëxkn Korubo e Mayá Korubo

Terra Indígena Vale do Javari Homologada em 2001, é a segunda maior do país, com 85 mil km², e concentra a maior quantidade de grupos isolados

Tracajá Espécie de tartaruga (Podocnemis unifilis) frequente na América do Sul e particularmente na bacia Amazônica



Pinu Vakwë dispara a zarabatana, à frente de Pinu e de Omon , que está com a criança, Patsinlut , no colo; Vali também solta dardo, ao lado de Wanka Vakwë , que está na frente de Kanikit e Vali, ao fundo

“Alguém aí mata com zarabatana?”

“Alguém aí mata bicho com zarabatana? Alguém aí cozinha macaco no fogo?”

Essas foram as primeiras frases ouvidas pelo índio Malevó, logo depois de uma saudação, o tradicional grito ”E-hê” com o qual os korubos avisam que estão chegando.

Era o ano de 1996, e a equipe da Funai liderada pelo indigenista Sydney Possuelo, após meses de aproximação, chegava a poucos metros de uma aldeia dos “índios caceteiros”, até então isolados, arredios e conhecidos por ataques violentos a invasores, quando usavam bordunas para destroçar as vítimas.

O intérprete falava uma língua parecida com a sua —o jovem Malevópodia compreender— e fazia perguntas que sugeriam familiaridade com os costumes dos korubos. Mais jovem entre os guerreiros do grupo, ele decidiu chegar perto.




No alto, Xikxuvo, Këtsi, Maya Koluvo, Luni com macaco-da-noite sobre sua cabeça, Këtsi Vakwë, Wanka, Pëxken, Lëyu, Xamalekit e Mëlanvo (da esq. para a dir.); Acima, Ayax Punu carrega cabeça de anta (após caçada de um grande exemplar desse que é o maior animal silvestre do Brasil), atrás de Nanë, que carrega seu filho, Tumi Muxxavo; a menina que puxa a fila é Këtsi

As frases diziam algo como: “Somos gente como vocês, caçamos do mesmo jeito, nós também cozinhamos as presas e comemos carne de macaco. Temos hábitos parecidos”. Com isso, sugeriam uma aproximação amigável.

Sentado no acampamento de caça onde os korubos recebem o repórter, 21 anos depois daquele contato, Malevó é hoje um dos principais líderes do grupo. Ele conta que o intérprete da etnia matisque gritava as saudações mencionou logo a presença do homem branco e disse que ele oferecia presentes.

Acostumados a serem massacrados por não índios, os korubosaceitaram o aceno. Foi feito o contato com o primeiro grupo “caceteiro”, cuja principal referência, apesar do patriarcalismo de sua cultura, era uma mulher chamada Mayá. Por isso, os contatados de 1996 são conhecidos como “Grupo da Mayá”.

Eram poucos e estavam desestruturados por um ataque de invasores brancos, ocorrido um ano antes.



Quem segura o peixe de frente é o menino Wanka Vakwë; Kanikit, de costas, leva o seu

Sentado junto a um fogareiro preparado para assar peixes, o índio Pëxkn, 65, se destaca pelo sorriso largo. Ele anda nu, como viveu sempre, até dois anos atrás isolado na floresta, fugindo do contato com brancos e outros indígenas. É do “Grupo Coari” (referência ao rio onde ocorreu o encontro com os brancos), ou “Grupo de 2015”, o que se nota por hábitos peculiares, como não usar roupas dos brancos, enquanto outros, contatados antes, já vestem calções e camisetas.

Também seu jeito de falar é diferente: expressa-se de forma mais pura se comparado aos korubos cuja linguagem foi influenciada pelos vizinhos matis e os não índios.

O grupo de Pëxkn fez contato com os brancos após um massacre de índios de outra etnia. Eles viviam isolados. Índios matis, acostumados a falar com outros korubos, achavam que poderiam fazer roças perto da área do grupo isolado, saberiam se entender se houvesse um encontro.

Não foi o que ocorreu. Os korubos foram ao local e mataram dois matis a cacetadas. Desacostumados ao contato com não índios, pensavam estar expulsando brancos.



Pinu Vakwë sobe em maçaranduba de até 50 m de altura para coletar fruto, que os korubos chamam de kose

O ataque gerou retaliação dos matis, que caçam com armas de fogo. Guerreiros dessa etnia foram ao local e mataram nove pessoas de um grupo de 30. O uso de espingardas reforçou a convicção de que tinham sido atacados por brancos. Desestruturados por tantas mortes, os korubos fugiram e se aproximaram de outra comunidade de índios, que chamou a Funai. Foi feito, então, o contato de 2015.

Há entre os korubos desse grupo um sentimento de revolta, por terem sido agredidos por outros índios com tiros de chumbo, o que eles consideram desproporcional.

Sentado ao lado de Pëxkn, Tsamavó usa calção. Ele é membro do “Grupo da Mayá”. Ele me convida a passar a mão em seu ombro. Sob cicatrizes, há algo como se fossem pedrinhas. “É chumbo”, explica. É o sinal que guarda do massacre que seu grupo enfrentou antes do primeiro contato com a Funai.

Em 1995, alguns brancos tinham se instalado em terras próximas de onde ficavam os korubos. Os pais de Tsamavó e outros decidiram ir roubar banana de suas roças. Pouco depois de sair do local, foram emboscados. Os pais deles morreram, vários índios se feriram.

Os sobreviventes fugiram sem nem mesmo enterrar seus mortos. Fixaram-se em um esconderijo,local onde ocorreu o contato com a equipe de Possuelo em 1996.

Mayá, que subitamente se tornou a mais velha do grupo, conta que passaram a ter muito medo dos não índios. Mas deixaram de ter medo quando o indigenista ofereceu presentes ao grupo e eles confiaram no homem, como contou Malevó.



Coleta de frutos de árvores gigantes na área das aldeias dos korubos; de perfil, o homem sentado à esquerda é Tsamavó Vakwë, e a mulher, de frente, é Omon

AS INVASÕES ESTÃO VOLTANDO

Ao lembrar dos conflitos de duas décadas atrás, Txitxopi, guerreiro do “Grupo da Mayá”, diz que o medo voltou: “Faz pouco tempo, vimos pescadores muito perto da aldeia. Aumentou o número de pescadores pegando nossos peixes e tracajás. Eles entram quando querem. Se um pescador atira no meu filho, ninguém vai ver, ninguém vai saber”.

Os índios foram muito impactados pelas notícias de possíveis massacres de dois grupos isolados na Terra Indígena Vale do Javari. Ninguém sabe que grupos são esses, podem ser os korubos que continuam afastados de todos, na floresta.

Como colaborador da Funai, Txitxopi participou de recente expedição à região do rio Jutaí para averiguar a informação de que garimpeiros teriam matado índios isolados. “Eles podem estar matando nossos irmãos que estão no mato”, diz, referindo-se aos parentes separados, estimados em 80 pessoas.

A expedição localizou dezenas de dragas de garimpeiros de ouro nas margens do rio. “Vimos 30 barcas muito perto dos parentes isolados. Tenho muito medo de que eles ataquem nossos irmãos”, diz.

Xikxu também é parte do grupo contatado em 1996. Ele expressa um sentimento de traição em relação à Funai devido à redução dos recursos de proteção, que, de alguma forma, eram parte do “contrato” que os korubos fizeram com Possuelo, deixando-se “pacificar” em troca da expulsão dos invasores.

“Antes, quando o Possuelo fez o contato, pescador não vinha aqui. Agora vem. Não tinha garimpeiro, agora tem. Tem gente matando nossas caças, nossas onças, nossos macacos. Tem que juntar pessoal para tirar os invasores da nossa área. A Funai está muito fraca, hoje só tem uma pessoa para cuidar da base. A Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena] também precisa melhorar, não dá conta de evitar as doenças, demora para vir quando chamamos”, diz Xikxu.

Sua tensão expressa o temor com o futuro: “Se os pescadores e caçadores entrarem e comerem tudo, o que meus netos vão comer? O que meus filhos vão comer? Fui caçar perto da aldeia e vi pegadas de pescadores. Eles estão invadindo, estão muito perto de nossa terra”.



A dupla de korubos Visa e Takvan com suas bordunas inseparáveis, armas que costumam ser carregadas na mão esquerda, na área do rio Ituí, dentro da Terra Indígena Vale do Javari, no Estado do Amazonas

Urucum, braceletes e fio peniano

“Os korubos são sóbrios”, diz o indigenista Bernardo Natividade da Silva, da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai. Sua cultura material é mais simples que a de outras etnias, o que é visível nos adereços corporais: quase não os têm.

O homem usa braçadeiras e um fio peniano; seu corpo é coberto de urucum de forma homogênea, o que o faz vermelho da cabeça aos pés.



Pinu, que teve sua primeira aproximação com não índios em 2014, e Xuxu, que faz parte do grupo contatado apenas dois anos atrás, em fundo infinito improvisado na floresta amazônica

O cabelo, cortado de maneira peculiar, tem duas variações possíveis: com um capim local, cuja folha é como lâmina, eles raspam toda a metade de trás da cabeça ou fazem um pedaço central raspado, como uma tiara larga, de orelha a orelha, passando bem no centro do cocuruto (deixando a frente da cabeça e a nuca cobertas de cabelo).

As mulheres vivem completamente nuas, usam apenas um colar e, quando têm filhos pequenos, uma faixa de fibra vegetal serve para amparar o bebê nas costas. Na pintura de seus corpos, o urucum é passado com as pontas dos dedos, formando grafismos (diferindo dos homens, que cobrem toda a pele).

Isso é tudo.

No célebre poema “Erro de Português” (“Quando o português chegou / Debaixo duma bruta chuva / Vestiu o índio…”), sobre a chegada de Cabral ao Brasil, Oswald de Andrade supõe que os índios estavam pelados. O modernista desconhecia o fato de que a nudez é subjetiva, varia conforme a cultura do povo. Se uma afegã se sente nua com as maçãs do rosto expostas, um korubo se sente pelado se a glande fica exposta. O fio amarra o prepúcio, isso esconde sua “vergonha” (como dizia a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal).

SOBRIEDADE BÉLICA

A sobriedade marca também as armas dos korubos. Caçam com zarabatanas, que disparam dardos de 30 cm, com ponta envenenada para abater as presas. Esse equipamento exige confecção delicada, mas eles não o enfeitam ou pintam. O mesmo acontece com a borduna, de madeira maciça, que parece uma extensão do corpo de seu dono.






No alto,Tananeloanpikit (à esq.) e Tsamavo Vakwë; acima, à esquerda, Pëxken e Xikxuvo e Luni com macaco-da- noite (vütikit, na língua korubo) sobre sua cabeça, ao lado de Ketsi e Wio (à dir.), que usam fibras para tecer

As lanças, com ponta esculpida em madeira, têm a marca da simplicidade. Servem para atacar um animal grande, como foi o caso da anta abatida durante a expedição de caça que Sebastião Salgado acompanhou. O animal era tão grande que, para levar a carne ao acampamento, foi preciso retalhá-lo.

Essas armas diferenciam os korubos de outros índios. Desde o contato, no entanto, os jovens aprenderam também a manejar o arco e flecha, que alguns já produzem e usam. Mas, em um grupo de cerca de 80 índios, nenhum dia vi alguém com esse equipamento.

MALÁRIA, ESCORPIÃO, COBRA

A malária é a principal chaga. É transmitida por mosquitos, presentes nas beiras de rio. Originalmente, os korubos viviam nas terras altas, longe dos grandes cursos. Agora ficam expostos, a incidência é alta e os órgãos de saúde não conseguem implantar um sistema preventivo. Tratam as vítimas, que voltam a contrair a doença. Há casos impressionantes, como o de Seatvó, 12, que já teve malária 25 vezes.



Garoto Tepi deitado ao fundo, Maya corta cabelo com capim-navalha ( nëpa, na língua korubo) e Xikxuvo

Nos dez dias em que convivi com os korubos, três vezes a equipe da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena, lotada na base da Funai, a três horas de barco) foi chamada. Vários casos foram constatados e, na terceira visita, uma criança foi levada com a mãe para tratamento. “Índios com pouco contato ficam doentes e morrem”, diz Beto Marubo, ex-funcionário da Funai.

Exemplo dessa fragilidade é o grupo contatado em 2014. “Os velhos tinham morrido de malária”, conta Bernardo Natividade, um dos poucos brancos que falam korubo: “Deixaram suas roças em 2013, como se quisessem fugir da doença”.

CHORO COLETIVO

A calma da aldeia é quebrada por choro coletivo e gritos desesperados quando algo anormal ocorre. Os korubos são escandalosos na doença ou em caso de acidentes.

Certa tarde, uma mãe começou a gritar: o filho caiu na água quando brincava no barco da Funai ancorado na margem, quase se afogou. Os gritos são um alarme geral. Quando todos chegaram ao local, o menino parecia mais apavorado com tanta gente do que com o susto.

No dia seguinte, outro grito coletivo: um homem foi mordido por escorpião. E, no outro, uma criança foi picada por cobra quando nadava. Os pais viram a serpente, era verde. Bom sinal, segundo a sabedoria coletiva: não deve ser venenosa como a temida jararaca. Natividade fez curativo e avisou os agentes de saúde na base, usando o telefone por satélite de Salgado. No dia seguinte, o menino brincava com os amigos, orgulhoso do curativo.



Família Pinu, da esq. para a dir.: Naylo (mãe), Vali (filho), em pé atrás, Wanka Vakwë (filho), sentado à esquerda, Pinu (pai), sentado, e Kanikit (filho), em pé à direita

Depois de dias no acampamento de caça, todos voltam para suas casas, e a equipe do fotógrafo se muda para um local próximo a uma das aldeias korubos. As tendas são montadas, e o mato em volta é cortado pelo mateiro Bebé.

Andávamos por um caminho aberto que levava da nossa tenda ao meio do mato, eu seguia atrás de Salgado. Ele dizia que, ao limpar tão bem o local, o mateiro “evita que a gente pise em cobras…”. Quando acabava de dizer isso, uma pequena serpente atravessou entre nós dois. “Como essa aí”, eu disse. Salgado não entendeu. Repeti: “Como essa cobra que está ali”. A pequena jararaca foi golpeada sem clemência pelo índio Xikxu.

ADEUS AOS KORUBOS

O último dia de nossa expedição começa com Xikxu, logo cedo, gritando repetidamente: ” Jornalisti”. Ele tinha um certo sorriso no rosto que me indicava alguma brincadeira. Logo que me aproximo, Xikxu adota um semblante sério, começa a falar com o rito facial de quem vai fazer um discurso: “Você vai voltar para casa e vai escrever, contar as nossas histórias para os brasileiros da cidade. Então, o presidente do Brasil vai ler o que você escrever, e as fotos do Salgado vão mostrar. Você precisa então dizer para o presidente que precisa ter mais gente da Funai na base, que hoje só tem uma pessoa, e ela não dá conta de todas as coisas que precisa fazer”.



Txitxopi com a lança esculpida em madeira no estúdio instalado na selva amazônica

“E outra coisa: quando Possuelo estava aqui, ele vinha aqui sempre. Você vai escrever para presidente e depois você tem que voltar aqui para ver se as coisas melhoraram.”

Por fim, concluiu: “Eles precisam contratar o Bebé, mais gente como o Bebé!”, referindo-se ao assistente contratado por Sebastião Salgado, com anos de experiência em sobrevivência na selva.

Em sua aparente simplicidade, Xikxu resumiu a mensagem do grupo ao governo brasileiro: os korubos precisam que a infraestrutura de proteção do Estado funcione e, para isso, é necessário que líderes mantenham presença regular na área e que funcionários saibam cumprir as missões pertinentes. Curto e claro.



Kulutxia em ritual de cura comandado por Tsamavó
“Eles estão desesperados”

Sydney Possuelo, 77, responsável pelos primeiros contatos com os korubos, diz que os “índios estão desesperados” e teme a volta de conflitos e massacres caso o governo não devolva à Funai condições de monitorar a Terra Indígena Vale do Javari e evitar o acesso de invasores.

Ex-presidente da Funai (1991-93) e indigenista de carreira, agora aposentado, ele foi responsável pela mudança da estratégia de ação do Estado em relação aos grupos, que passou a ser de proteção aos isolados —para evitar relações com outros grupos e brancos— e aos índios de contato recente, para que mantenham pouco vínculo com a sociedade envolvente.

Assim nasceram as Frentes de Proteção Etnoambientais, como a do vale do Javari, que cuida dos korubos, para a qual Possuelo criou a principal base da Funai na região.

“Antes, entravam milhares de pescadores, que saíam com toneladas de peixes, e madeireiros, que roubavam de 15 mil a 20 mil toras de mogno por ano”, diz.



Em frente a macacos-barrigudos abatidos, Pinu Vakwë, com a ave cujubim (kuxu, na língua korubo), e Xuxu, com a aljava (vitinte) onde guarda os dardos

“Mas não adianta ter o posto. Precisa ter estrutura para fazer frente às ameaças, logística de comunicação e transporte. Sem comunicação, você não sabe o que está acontecendo, quando sabe já é tarde. Sem transporte, leva 14 dias para chegar às aldeias mais distantes”, diz.

Segundo o indigenista, as reduções orçamentárias dos últimos anos tiraram da Funai a capacidade de fiscalização: “Nunca vi um corte tão grande. A base já não está servindo para nada. Está tudo caindo aos pedaços, não tem gente, não tem dinheiro”, afirma.

A decorrência é o aumento de invasões e dos contatos entre invasores e índios, o que dá origem aos conflitos, como ele disse à Folha de sua casa em Brasília.

Sobre os supostos massacres de índios isolados na área, noticiados em setembro, Possuelo acusa a Funai de ter agido com lentidão: “Foi omissa porque deveria ter feito uma investigação imediatamente. Um massacre como esse, se aconteceu, teria que ter saído uma expedição. Se fosse uma fazenda de brancos, teria saído um grupo imediatamente. Como são índios, não vão”.

Ele diz temer uma retomada de ações violentas dos korubos contra invasores. “Os índios estão desesperados, brigam, gritam e não são atendidos. Vão fazer o que pode ser ruim, reagir com agressividade. ”
O ex-coordenador da Funai em Tabatinga Bruno Pereira, hoje na Frente de Proteção Vale do Javari, coordenou viagem a um dos locais onde teriam ocorrido massacres.



Tsamavó com a jovem Sini

A expedição ao rio Jandiatuba partiu em 10 de novembro e chegou a Tabatinga em 3 de dezembro. Não foram achados indícios de ataques aos isolados, mas Funai e Exército encontraram garimpeiros ilegais, como a Folha noticiou em 5/12.

BARRIL DE PÓLVORA

Pereira classifica a região como um “barril de pólvora”. A redução dos serviços públicos abriu espaço a invasões de não índios, que podem descambar para conflitos violentos. As denúncias de setembro diziam respeito a locais onde a Funai fechou bases por falta de gente.

“As bases fragilizadas travam a presença da Funai, o resultado é esse: madeireiros entram, garimpeiros já estão dentro, narcotráfico passa dentro da terra indígena… O vale do Javari é a primeira ou segunda porta de entrada da cocaína. O rio é uma avenida. Recentemente apreenderam 800 quilos”, afirma.

O aumento das invasões deixa os índios assustados: “Os korubosnunca tinham visto garimpo, agora veem pescadores, caçadores que eles atacavam e que os atacavam antes. Há líderes korubos que viram a Funai chegar há 20 anos e agora veem ela ir embora”.



Os garotos Makwëx (à dir.) e Vali com suas zarabatanas

Além de redução de orçamento, em razão da crise, Pereira atribui parte da falta de pessoal a uma inadequação entre os concursos realizados pela Funai para contratação e o trabalho na floresta. “Os editais não descrevem a função, parecem chamar para emprego em um escritório de Brasília. Quando a pessoa passa, descobre que vai trabalhar na selva. O concursado, quando entra na Funai, não é um indigenista. A maior parte dos contratados no concurso mais recente, em 2010, saiu por essa incompatibilidade.”

Vitor Roger David é um exemplo da inadequação desses editais. Foi contratado por concurso em 2010, quando trabalhava na área de finanças de uma empresa no Rio. “Tomei um susto quando fui aprovado e vi qual era a natureza específica do trabalho”. Ele se tornou coordenador da base da Frente de Proteção Etnoambiental, onde falou à Folha, dedicado ao monitoramento de índios isolados ou de contato recente, dentro da terra indígena.

“O edital não dizia qual era a missão. Como jornada de trabalho, mencionava 40 horas semanais. Na vida real, na terra indígena, são 60 dias de trabalho contínuo por 30 de descanso. Fora que o trabalho exige habilidades e conhecimentos de floresta e de lidar com os índios que não eram mencionados. E, depois de aprovado, não houve qualquer treinamento. Então, saí do Rio de Janeiro e caí direto no trabalho com índios isolados. Evidentemente pensei em sair, mas me encantei com o desafio e decidi ficar.”



Tupa (à esq.) abraça Tumi Muxavo

A falta de quadros na base que coordena tira a capacidade de vigilância, como conta: “Antes, fazíamos uma fiscalização mais minuciosa. Hoje, precisa ser um pescador azarado para ser pego. Recentemente apreendemos um barco com 230 tracajás, por acaso. Cada tracajá é vendido por R$ 100 ou R$ 150 em Atalaia do Norte. O pescador estava transportando mais de R$ 30 mil. Como o boletim de ocorrência é só por entrarem em terra da União, o que não resulta em punição, o crime compensa”, diz.

FUNAI RESPONDE

O presidente da Funai, Franklinberg Ribeiro de Freitas, diz que a Frente de Proteção do Rio de Jandiatuba já está em fase de reativação. ”À medida que o orçamento for ampliado, reativaremos outras bases”.

Sobre a demora para investigar possíveis massacres, ele afirma que “não é descaso, é um problema de fisiografia da região, que dificulta muito a nossa logística”.

Em relação à contratação de funcionários especializados, informa:

“É uma dificuldade, em um concurso, estabelecer que todos os aprovados tenham a expertise necessária para o trabalho específico que existe nas diversas áreas da Funai. Mas é muito importante que conste no edital mais especificidades para o preenchimento desse tipo de vagas”.



A lona de caminhão instalada por Salgado na floresta
Um estúdio na selva

Na mais recente viagem à Amazônia, Sebastião Salgado passou 60 dias na floresta, 20 deles com os korubos. Seu ritmo se parece com o trabalho de cientistas, como antropólogos e linguistas. Toma mais tempo do que os repórteres costumam dedicar a seus objetos.

Quando pergunto qual é o seu “instante decisivo”, usando a expressão consagrada por Henri Cartier-Bresson, ele diz que seu método é totalmente diferente do que caracterizava o famoso francês, seu amigo, criador da agência Magnum.

Formado em economia, Salgado usa um gráfico em “curva de sino” para definir seu método: “Faço uma imersão na cultura dos locais que documento, fico um período longo, em que a qualidade das imagens cresce com a convivência; até que, em certo momento, começa a ser ocioso, a curva começa a baixar. Meu trabalho se desenvolve ao longo de todo esse processo, não em um ‘instante decisivo’”.

Em suas viagens a campo, Salgado leva uma estrutura de apoio milimetricamente calculada. Entre os que o auxiliam, há um assistente, quase sempre o premiado guia Jacques Barthelemy, que o acompanha há 12 anos, desde o projeto “Gênesis”, com poucas interrupções; um conhecedor do povo visitado, que faz também as traduções; um “mateiro” e eventualmente outras pessoas que se revelem necessárias.

Na viagem aos korubos, como sua língua ainda não é dominada por outra gente, Salgado levou o índio Beto Marubo, 41, nascido na região, que, além de seu idioma nativo (marubo), fala matis, parecido com o korubo e dominado por eles.

Também viajava com Salgado o indigenista Bernardo Natividade Silva, como representante da Funai. Ele é um raro branco com algum domínio da língua korubo e fazia parte das traduções nos diálogos que Beto Marubo não conseguia resolver usando o matis.

A equipe de Salgado incluiu também o indigenista Carlos Travassos, ex-chefe da Coordenação de Índios Isolados da Funai, que atualmente trabalha para uma ONG dedicada à área dos awa-guajás (Maranhão). Por fim, uma figura fundamental foi a do mateiro Francisco da Silva Lima, nativo da região, que passou oito anos no Exército e tem treinamento de sobrevivência na selva. Bebé, como é chamado, foi responsável pela montagem e manutenção do acampamento, entre outras tarefas.

EQUIPAMENTOS HIGH TEC

A infraestrutura inclui produtos que purificam até a água mais imprópria, um telefone satelital que permite conexão com o mundo mesmo em locais muito isolados e um estúdio portátil, que inclui uma lona encerada de quase 60 m², montada em posição estratégica para sessões de foto com fundo infinito.

Em um mundo de equipamentos eletrônicos e baterias a recarregar, Salgado leva duas fontes de energia solar de tecido, enroláveis, capazes de manter carregados todos os dias o equipamento fotográfico (quatro câmeras), o celular, os computadores e o que mais for necessário.



Kulutxia (à esq.) e Pëxken, no rio Ituí, dentro Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas

Barthelemy carrega uma farmácia cheia de medicamentos, como soros para mordidas de cobra, material para sutura, curativos e remédios para vários tipos de mal-estar, assim como toda uma gama de repelentes para evitar picadas de mosquito e produtos contra a malária, tão comum na região do Javari.

Na logística do trabalho, cabe também a ele arquivar diariamente uma cópia de todas as fotos que Salgado produz, que guarda em embalagens separadas das do fotógrafo. “Eu produzo o `backup’ junto com o original. Ao voltar a Paris, Jacques vai com um e eu vou com o outro”, explica Salgado. Eles viajam em aviões diferentes, cada um com um conjunto completo das fotografias.

PROTEÇÃO

Barthelemy é um renomado guia de viagens a áreas difíceis. Aos 71 anos, é tarimbado em levar cientistas para observarem crateras de vulcões. Sua capacidade de prever riscos e produzir soluções é notável. Nos últimos dias da viagem, Salgado dizia: “Você notou que numa viagem de quase dois meses, comendo de tudo e tomando água de rio, ninguém teve qualquer problema?º. Uma parte importante do sucesso, certamente, se deve a Barthelemy.

Salgado passou a viajar com o assistente pouco depois de iniciar o projeto “Gênesis”, em que fotografaria os lugares e povos mais isolados do planeta, buscando a vida mais tradicional possível.

Uma das primeiras viagens foi à Antártida. Hospedado em uma base inglesa, ele seguia viajando sozinho com seu equipamento, como havia feito por décadas.

No verão do continente mais ao sul do mundo, formam-se grandes fendas no gelo, com muitos metros de profundidade. O olhar desacostumado por vezes nem vê diferença entre os tons de branco, e uma pessoa pode cair dentro de uma greta dessas e estraçalhar-se lá embaixo. Por isso, os grupos andam amarrados uns aos outros, se um cair, os demais o seguram.

Um dia, aproximou-se da missão um grande iate com um grupo. Eles saíram para andar. Algum tempo depois, veio correndo uma das pessoas do grupo, desesperada, contando que o líder havia caído em uma fenda. “No verão da Antártida, a temperatura vai de -6º a -10º. Mas, no fundo de uma dessas fendas, pode ser muito mais gelado. O homem morreu não pelas fraturas, mas de hipotermia”, explica Salgado.

O fotógrafo percebeu que nas aventuras que enfrentaria no projeto “Gênesis” se veria exposto a inúmeras situações em que o desconhecimento do ambiente poderia causar um acidente desagradável. Nasceu assim a aliança entre o fotógrafo e seu mais constante produtor.

FUNDO INFINITO

Talvez um dos elementos mais surpreendentes da infraestrutura de Salgado seja seu estúdio portátil, que cria um fundo infinito na selva. Dito assim, parece uma estrutura pesada. Mas não é: trata-se de um “ovo de Colombo”, solução simples e muitas vezes fundamental para a criação de alguns dos retratos que compõem seus documentários.

Salgado leva em suas viagens um encerado, lona grossa usada para cobrir caminhões, marrom, de 9m x 6m (54 m²), que dobrada cabe em uma mochila grande. Para instalá-la, usa uma estrutura semelhante a um gol de futebol, em que as traves podem ser árvores ou duas madeiras cortadas para esse fim. No “travessão” fica enrolado o encerado, coberto por uma lona plástica impermeável, para evitar a umidade.

Quando vai usar o estúdio, a lona é desenrolada. Uma ponta fica presa ao travessão e o resto é esticado pelo chão, criando um fundo infinito, que, na fotografia em branco e preto usada pelo fotógrafo, fica com uma cor semelhante ao verde da floresta. A iluminação é feita com a luz natural, às vezes filtrada pela copa das árvores, criando um curioso cenário zebrado.



O fotógrafo Sebastião Salgado junto com índios korubos em estúdio instalado dentro da selva

Condição humana é o foco do artista

DAIGO OLIVA
EDITOR-ADJUNTO DE IMAGEM

Estender uma lona em meio à Amazônia e transformar a floresta em um estúdio fotográfico é só um detalhe dentro da carreira superlativa de Sebastião Salgado.

Aos 73, o mineiro de Aimorés é, há algumas décadas, o fotógrafo nacional mais conhecido e importante do mundo, admirado pela grandiosidade dos projetos que realiza e pelos dramáticos registros em preto e branco. No início do mês, tornou-se o primeiro brasileiro a fazer parte da Academia de Belas Artes francesa.

Salgado é o ponto de partida para gerações de fotojornalistas e ativistas, porque materializa a figura romantizada do fotógrafo que vai a lugares aonde poucos foram e que testemunha os conflitos e as transformações da sociedade.

“Trabalhadores” (1993) e ”Êxodos” (2000), realizados durante seis anos cada um, são marcos em sua carreira. Reúnem imagens que tratam da precarização dos modos de produção e da crise migratória —Salgado documenta, afinal, a condição humana, tema de toda a sua obra.



O fotógrafo Sebastião Salgado (Fabio Braga - 17.nov.2015/Folhapress)

Nos últimos anos, porém, mudou o foco ligeiramente. Após ficar doente —o corpo respondeu à exaustão do que os olhos testemunharam, diz ele, deixou tragédias como o genocídio em Ruanda de lado para se dedicar à natureza.

Em “Gênesis”, fotografou povos e lugares quase intocados. A obra foi realizada em parceria com a Vale, o que gerou protestos de ecologistas devido à participação da empresa na construção de Belo Monte e da barragem em Mariana. As críticas se somam aos que o veem como um fotógrafo que estetiza o sofrimento dos outros.

Assim como todo artista cuja figura se torna maior do que o homem, Salgado é contestado, mas, sobretudo, adorado.



O indígena Kulutxia no rio Ituí, dentro da Terra Indígena Vale do Javari, no Estado do Amazonas
Funai diz que vai reativar bases de monitoramento no vale do Javari

O presidente da Funai, Franklinberg Ribeiro de Freitas, rebateu as críticas feitas pelo indigenista Sydney Possuelo, que chefiou o órgão entre 1991 e 1993, e pelo ex-coordenador da fundação Bruno Pereira.

Em resposta à declaração de Possuelo de que a Funai perdeu a capacidade de fiscalização, Freitas afirma que a Frente de Proteção do Rio de Jandiatuba já está em fase de reativação. “Agora no final do ano, com recursos recebidos do descontingenciamento do governo federal, já iniciamos esse processo. E, claro, à medida que o orçamento da Funai for ampliado, nós também vamos reativar outras bases que foram desativadas por falta de recursos”, diz o presidente do órgão.

Sobre a afirmação de que a Funai demorou para mandar uma expedição aos locais de supostos massacres de índios isolados, noticiados em setembro, Freitas argumenta que a logística na região amazônica é diferente da do restante do Brasil.

“A fisiografia da região amazônica, particularmente a do vale do Javari, resulta numa logística difícil e onerosa. São necessários recursos, meios e pessoal adequados para realizarmos essas ações de fiscalização e proteção dentro da terra indígena. Quem conhece a região amazônica sabe que, para se deslocar particularmente de Tabatinga, Atalaia do Norte ou Benjamin Constant para qualquer uma das aldeias da Terra Indígena do Vale do Javari, demora alguns dias para chegar.”

Segundo ele, em uma base de proteção em Envira são quase 30 dias de expedição. “As distâncias são realmente consideráveis. Não é descaso, é um problema de fisiografia da região, que dificulta muito a nossa logística. Por isso, aproveitamos o Exército, com o apoio de helicópteros, de embarcações e da sua logística para somar às nossas equipes e auxiliar nessa realização de vigilância e de proteção à Terra Indígena do Vale do Javari.”

O presidente da Funai também respondeu às críticas de Bruno Pereira, ex-coordenador do órgão, de que há uma inadequação entre os concursos realizados pela Funai para contratação e o trabalho na floresta. “É uma dificuldade em um concurso estabelecer que todos os aprovados tenham a expertise necessária para o trabalho específico que existe nas diversas áreas da Funai. Mas é muito importante que conste no edital mais especificidades para o preenchimento desse tipo de vagas.”

Edição: Heloísa Helvécia / Textos: Leão Serva / Fotos: Sebastião Salgado / Edição de fotos: Thea Severino e Daigo Oliva / Coordenação de Arte:Thea Severino / Infografia: Marcelo Pliger / Design e desenvolvimento: Thiago Almeida, Pilker, Rubens Alencar, Angelo Dias e Lucas Golino


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