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“Quem não ouve o que o trabalhador pensa, não tem condições de versar sobre o mundo”



Do Le Monde DIplomatique, 17 de Abril, 2018
por Caio Paes


Como Arábia transforma uma vida de precariado em saga poética no interior de Minas Gerais

No audiovisual, visões conflituosas sobre o momento vivido pelo Brasil têm gerado grandes polêmicas. Filmes e séries como Polícia Federal – A lei é para todos ou O mecanismo, assinada por José Padilha, oferecem versões sistêmicas sobre a política e a sociedade que atenuam a polarização dos dias. Na contramão desses grandes tratados sobre o país, os mineiros Affonso Uchoa e João Dumans pedem passagem ao deslocar a perspectiva de seu filme, o recém-lançado Arábia, para o lado humano de um país em crise.

Arábia é um road movie engajado, que apresenta a vida de trabalhos intermitentes, amores, ilusões e rebeldias do protagonista, Cristiano – interpretado por Aristides de Sousa, um dos atores principais em Vizinhança do Tigre, obra anterior da dupla. Se em Vizinhança havia uma relação de amizade e proximidade retratada de modo documental, Arábia vai além e mergulha na ficção – sem alienar-se diante da dura realidade do interior de Minas Gerais, terra natal dos diretores. Mais que isso: o filme se posiciona pelo lado subjetivo, a face humana daqueles afetados pelo trabalho precário.

“Filmar Arábia nos ajudou a elaborar sobre os dejetos e os frutos do trabalho na nossa sociedade. Não partimos de uma teoria ou de um diagnóstico prévio – isso ia contra o nosso fazer ético, pois poderíamos acabar usando deliberadamente as pessoas para construir um discurso qualquer”, explica João. “Nossa ideia é oferecer um contraponto às grandes teses, nos aproximando do lado humano da desigualdade e da máquina de produção de precariedades que nos cerca e restringe as nossas vidas”, complementa Affonso.Os diretores Affonso Uchoa e João Dumans

Em busca da voz de um trabalhador ignorado

A narrativa de Arábia retrata o nomadismo e errância de Cristiano por Minas, desde Contagem (cidade-natal de Affonso) até Ouro Preto (lar de João), passando por cidades como Ipatinga e Itabira. A história é mostrada como uma teia de memórias de Cristiano, imortalizadas em um caderno encontrado pelo jovem André, adolescente que vive na Vila Operária de Ouro Preto – região, aliás, desconhecida na comparação com a parte colonial e histórica do município.

Os diretores relatam que houve uma confluência de temas e desejos para escolher qual a perspectiva do filme, por onde os personagens passariam, quais situações e grandes dilemas viveriam ao longo da obra. Para que a “voz” de Cristiano tivesse profundidade, eles inclusive pediram a Juninho – apelido de Aristides – que escrevesse um diário, contando suas experiências. “Com a vontade de buscar seus sentimentos, ganhamos confiança para fabular na escrita do roteiro como um todo, nos sentimos abrigados e protegidos para criar o filme”, conta João.

Já para Affonso, uma faceta muito relevante do trabalhador comum consolidou-se nesta proximidade com o ator: a coragem daqueles que pouco têm contra as adversidades de um mundo injusto. “O que acho incrível é que o Cristiano – e também o Juninho – partem de um ponto onde eles não possuem nada, e por isso precisam ter coragem, vontade de se lançar na vida. O princípio da posse – de quanto mais você tem, menos se lança – tem muito a ver com um esforço para manter tudo como está, desigual do jeito que esse mundo é. Buscar um tom que pudesse enaltecer a fibra do Cristiano foi importante para nós”, relata.

Das ambiguidades do trabalho: injustiças e sentidos para a vida

Se em cena vemos momentos nos quais Cristiano afronta chefes injustos, lida com a intermitência de vínculos frágeis e constantemente pega a estrada rumo a uma vida nova, também há momentos de cantorias inebriadas entre colegas de obra, o amor inesperado e determinação para questionar a ordem compartilhados com personagens coadjuvantes. A mistura mostra, afinal, que a obrigação do trabalho está mergulhada em contradições.

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“Para muitos, o trabalho dá sentido à vida, constrói a moral e motiva na construção de si próprio. O diferencial, para nós, é que o trabalho pode ser força vital e estímulo às pessoas, quando coletivo, quando partilhado em condições próximas”, afirma João. “O Cristiano é alguém que vive nesse Brasil que, de certo modo, impõe as grandes reformas. Essa exigência é algo essencial, não circunstancial, para o ordenamento do país. No fim, a ideia era mostrar os processos de solidão, de isolamento de si mesmo que acometem muitos trabalhadores por meio das exigências e durezas do trabalho nesse tempo atual”, complementa Affonso.

Da literatura moderna ao presente: a busca pelo outro

Para conceber o fio narrativo de Arábia, João e Affonso se voltaram a ícones da literatura brasileira e internacional da metade inicial do século XX. São Bernardo, de Graciliano Ramos; Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antonio; Jorge, um brasileiro, de Oswaldo França Júnior e a obra do norte-americano John Dos Passos foram centrais para a elaboração de uma história contada por esse personagem comum.

O ponto de partida era a possibilidade de captar a voz de alguém desfavorecido; era, afinal, uma aposta no poder das obras que possuem esse tom. E como elas ostentam uma capacidade de romper barreiras – como as bolhas que têm nos envolvido na esfera pública e privada.

“Tanto em Ouro Preto quanto em Contagem há uma mescla do rural e do urbano, e por isso buscamos inspiração nesses autores. Eles investigaram um modo de falar das pessoas que não tiveram uma formação elitista ou acadêmica. Se esforçaram para captar tais vozes e não apagaram o deslocamento que existe nesse gesto”, explica João. “Na prática, percebemos que é na elaboração que você se sensibiliza para as vozes do outro. Muitas das referências que temos derivam de uma abertura à alteridade”, complementa.

Assim, o que se vê é um flerte com um despertar de consciência – vivido a partir da aspereza dos acordos com patrões, das noites frias à beira da estrada, do encontro de pessoas desamparadas e que se escoram. Nos improvisos, os trabalhadores encontram modos de viver às margens da riqueza altamente concentrada do país. Dizem os diretores que atravessar tais complexidades só foi possível pela abertura ao outro, à diferença que atores e outros envolvidos trouxeram ao longo do processo.

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“O nosso processo criativo enxerga algo ético e essencial na intimidade entre nós, os atores e a equipe como um todo. Quem não quer ouvir ou se abrir para o que o trabalhador e as pessoas menos abastadas querem dizer, não tem condição de versar sobre o mundo”, afirma Affonso.

Muito da visão dos autores sobre nossas relações sociais se constitui na ação e no relato do filme. Porém, a crítica derradeira se consuma pelos sonhos dos personagens. Seja nas imagens inconscientes de crianças de rua tomando uma fábrica ou trabalhadores parando as máquinas – que enfraquecem corpo e alma –, interrompendo a engrenagem, uma dimensão onírica envolve a trajetória de Cristiano e dos que o cercam.

Talvez seja ali, no universo dos sonhos, que os silêncios dessas pessoas começam a materializar-se tanto em medos como em novas possibilidades: rompimentos com a bruteza que o mundo as impõe. Como se tudo não passasse, também, de um grande transe – e estivéssemos em vias de despertar para uma nova consciência.


*Caio Paes é jornalista e mestre em Comunicação.

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