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Existirmos: a que será que se destina?



Do GGN, 16 de Abril, 2018
por Mariana Nassif


Existirmos: a que será que se destina?, por Mariana Nassif

Cajuína é um tradicional vinho preparado à base de caju, uma das frutas mais saborosas e suculentas ao paladar e, também, uma música linda, de poucos versos e uma intensidade que, até que sentasse para escrever este texto, ressoava apenas musicalmente, o que já andava intenso. Tenho como hábito me apaixonar por cantigas e, então, inserir as sonoridades em diversos contextos: para pedalar, trabalhar, banhar, dormir, estudar, dançar... Cajuína está neste momento looping, em diversas versões – a original, com Caetano, uma com Gal e outra onde canta Marisa Monte. Todas especialmente mágicas, mas a preferida anda sendo a original que, acompanhada de um violoncelo, imprime belíssima pausa dramática. Deixo o vídeo abaixo.


Como costumo fazer com tudo o que me encanta, pesquisei a origem da canção e encontrei um texto que explica: um dos grandes amigos de Caetano havia se suicidado há tempos e ele, por estar num momento ímpar a vida, absorveu a notícia sem chorar. Tempos depois, em viagem para Teresina, cidade de origem da família do amigo, fez uma visita ao pai deste. Olhando as fotos expostas na parede, caiu num choro sensível, não de tristeza, mas de entendimento, especialmente por estar na presença daquele progenitor que lidava com sutileza e beleza com o ocorrido, tendo presenteado Caetano com uma pequena rosa de seu jardim para abrandar as dores do reencontro.

Meu peito expandiu e sorri ao compreender a intensidade da música, que trata nas entrelinhas de um acontecimento tão forte e ao mesmo tempo imprevisível, destas catástrofes da vida que a gente meio que tem a obrigação de transformar para que possamos continuar vivendo. Claro, meu próprio momento me faz atenta a este tipo de sensação, afinal renascer para o Orixá, processo que se aproxima na velocidade da luz por aqui, exige certa morte ou suicídio de uma Mariana para que exista a oportunidade do nascimento de outra e, confesso, têm sido noites longas e solitárias – e a Cajuína de Caetano e toda sua simplicidade e beleza me tem feito companhia agradabilíssima.

A letra, que é curta mas que toca, é preciosa:

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

Ando pensando muito nesta primeira linha – “existirmos: a que será que se destina?”. Nesta época de golpes e reconstruções, se movimentar em busca desta reposta, mesmo sabendo-a vaga e tão pessoal, é ouro. Entendo que a religião é, para mim, um dos caminhos de encontro às explanações possíveis e confortáveis para caminhar perante tal questionamento, e sinto também que o amor que ando sentindo pela existência em si, com toda sua problemática e dúvidas, é ferramenta potente para abrandar o sofrimento que, vez ou outra, pode abater – mas não derrubar.

O nascimento de um Orixá, a gravidez de um familiar, o desenvolvimento próspero e firme da filha e das irmãs, as ondas do mar que não param dequebrar nos ouvidos rotineiramente após a árdua escolha de viver numa cidade onde não tenho família – mas onde venho construindo uma - o ressignificar de minhas próprias mágoas e dores, enfim, estes movimentos todos rumo ao encontro da paz de espírito, de corpo e alma, creio que aí estão pistas sobre ao que se destina que, no final das contas, é a morte – pra mim e pra todo mundo, não é?

Cada qual é questionado rotineiramente, perceba ou não, com a profunda pergunta que inicia a música e, quero crer, quando a coisa aperta, é bom que tenhamos pelo menos um esboço de resposta. Não saber definir sequer nossos desejos, vontades, ou não sentir desejo ou vontade, é uma das piores sensações pelas quais já passei e, sim, que bom, existem caminhos e caminhadas para tantas e diferentes personalidades – mas é preciso, à princípio, querer existir. Aí é que são elas: cada pessoa tem o tempo, o cerne e até mesmo a curiosidade para explorar essa estrada até que reencontre o exercício de viver. Que saibamos, então, escolher nossos enfrentamentos e desfrutar das cajuínas e rosas pequeninas que o mundo nos dá, até que chegue o momento do inevitável fim e, enquanto este não chega, que enfrentemos nossas pequenas mortes como especiais oportunidades de renascimento.

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