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China inicia o longo caminho para montar o quebra-cabeça do petroyuan

Muitas peças precisam se encaixar até que o petrodólar seja ultrapassado


Da Carta Maior, 2 de Abril, 2018
Por Pepe Escobar, Asia Times


Poucos fatores geoeconômicos de mudanças são mais espetaculares do que os futuros contratos de petróleo bruto negociados em yuan – especialmente quando formulados pelo maior importador de petróleo bruto do planeta.

A estratégia de mídia de Pequim, no entanto, parece que consiste em minimizar substancialmente o lançamento oficial do yuan na Bolsa de Xangai.
Ainda assim, alguma euforia foi sentida. A cotação do petróleo bruto Brent atingiu 71 dólares/barril pela primeira vez desde 2015. O West Texas Intermediate (WTI) atingiu o maior nível em três anos, a 66,55 dólares/barril; recuando depois para 65,53 dólares/barril.

A série de "marcos" do petroyuan inclui a primeira vez que investidores estrangeiros podem acessar um mercado de commodities chinês. Importante salientar que dólares americanos serão aceitos como depósito e para quitação. Num futuro próximo, uma gama de moedas também serão aceitas como depósito.

O lançamento do petroyuan representaria o golpe final no petrodólar – e o nascimento de todo um novo conjunto de regras? Não imediatamente. Isso pode levar anos, e depende de muitas variáveis, a mais importante sendo a capacidade da China de se dobrar, de ajustar e, finalmente, de dominar o mercado global de petróleo.

Com o yuan se consolidando progressiva e integralmente nos acordos comerciais, a ameaça do petroyuan ao dólar, inscrita em um processo complexo e de longo prazo, irá disseminar o Santo Graal: contratos futuros de petróleo com preço fixado em yuan plenamente conversível em ouro.

Isso significa que a vasta gama de parceiros comerciais da China poderá converter yuan em ouro sem ter que manter fundos em ativos chineses ou transformá-los em dólares americanos. Os exportadores que enfrentam a ira de Washington, como Rússia, Irã ou Venezuela, poderiam então evitar as sanções dos Estados Unidos negociando petróleo em yuan conversível em ouro. Irã e Venezuela, por exemplo, não teriam problemas em redirecionar petroleiros para a China a fim de vender diretamente no mercado chinês – se fosse preciso.

Como contornar o dólar americano

Em curto e médio prazo, o petroyuan certamente impulsionará o apelo da Belt and Road Initiative (BRI), especialmente quando se trata da Casa de Saud.

Ainda não está claro de que forma Pequim fará parte do lançamento da Aramco na bolsa, mas este será um passo decisivo para o fatídico momento histórico em que Pequim dirá – ou obrigará – Riad a começar a aceitar o pagamento do petróleo em yuan.

Só então o petrodólar estará em sério risco – juntamente com o dólar americano como moeda de reserva global.

Já enfatizei antes como, na cúpula dos BRICS de 2017, o presidente russo, Vladimir Putin, não hesitou em apoiar o petroyuan, contestando especificamente a “injustiça” do domínio unipolar do dólar.

Como contornar o dólar americano, assim como o petrodólar, tem sido debatido nas cúpulas dos BRICS há anos. A Rússia é hoje a maior fornecedora de petróleo bruto da China (1,32 milhão de barris por dia no mês passado, um aumento de 17,8% em relação ao ano anterior). Moscou e Pequim têm contornado vigorosamente o dólar norte-americano no comércio bilateral. Em outubro do ano passado, a China lançou um sistema de pagamento em ambas as moedas – o yuan e o rublo. E tal sistema se aplicará ao petróleo russo comprado pela China.

Ainda assim, toda a estrutura do petrodólar se apoia no fato de a Opep – e a Casa de Saud – fixar o preço do petróleo em dólares americanos; como todo mundo precisa das verdinhas para comprar petróleo, todo mundo precisa comprar a (crescente) dívida americana. Pequim está pronta para quebrar o sistema – não importa o tempo que isso leve.

O petroyuan, hoje, não oferece acesso aos mercados chineses de petróleo. Começa como um grande negócio especialmente para as empresas chinesas que precisam comprar petróleo, mas preferem evitar as oscilações do câmbio. Nada muda para o resto do planeta e das commodities dominadas pelo dólar – pelo menos por enquanto.

O jogo vai começar a virar realmente quando outras nações perceberem que encontraram uma alternativa real e confiável ao petrodólar, e a mudança em massa para o yuan vai certamente provocar uma crise do dólar americano.

O que o petroyuan pode ser capaz de provocar no curto prazo é uma aceleração das próximas crises nos tesouros e mercados de títulos, que inevitavelmente se espalharão na forma de crise dos mercados monetários globais.

Cesta de recursos pan-eurasiáticos

O aspecto que muda o jogo, por enquanto, tem a ver principalmente com o timingextraordinário. Pequim elaborou um plano de ultralongo prazo e optou por lançar o petroyuan no meio de um período de forte deterioração nas relações comerciais com Washington.

A resposta para o enigma geoeconômico será necessariamente O Momento Dourado. Mais cedo ou mais tarde, o ouro subirá até um nível em que Pequim – então totalmente no controle dos mercados de ouro físico – se sentirá pronta para definir uma taxa de conversão.

O lado "petro" – e árabe – da equação dos petrodólares deveria ter sido substituído há muito por uma cesta de recursos pan-eurasiáticos de valor inestimável. Este era o sonho de Dick Cheney – sonho centrado na riqueza energética da Ásia Central e da Rússia.

Isso não aconteceu. O que temos em seu lugar é uma russofobia maníaca e histérica – que serve mais como indicação gráfica de quão precária é a posição das elites bancárias ocidentais. Além disso, com o petroyuan, a China lança mão da principal arma, incorporada ao BRI, capaz de acelerar o fim deste momento unipolar.

Este é, no entanto, apenas o passo inicial de um jogo de apostas extremamente altas. Os olhos devem se manter firmemente focados nas interpolações entre conectividade comercial e avanços tecnológicos. O petrodólar pode estar em perigo, mas está longe de superado.

Tradução de Clarisse Meireles

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