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A última interface da humanidade no filme "OtherLife"

Do GGN, 15 de Abril, 2018
por Wilson Ferreira




“OtherLife” (2017) é um filme australiano independente (disponível na Netflix) que aborda o tema da realidade virtual, mas não através da perspectiva da simulação através de um software. Mas a realidade virtual como uma ideia química e biológica. Mais precisamente, por meio de um “software biológico”: se a nossa memória é resultantes de complexas reações químicas, poderiam ser codificadas e transformadas na última interface da história da tecnologia: a bioquímica-digital. Uma droga na qual a realidade virtual comprime o tempo-espaço, lembrando a abordagem de “A Origem” de Nolan: um minuto do tempo real corresponderia a um ano de “férias” virtuais em praias paradisíacas ou nas montanhas nevadas de cartão postal. Para pessoas “sem tempo para ter tempo livre”, como anuncia a startup que promove o produto “OtherLife”. Mas conflitos corporativos, além do drama pessoal da cientista criadora da droga virtual, tornarão a interface “OtherLife” em um jogo perigoso.

Dizem que os olhos são as janelas da alma. Ou em termos dos tempos atuais sob o domínio das ciências computacionais e neurociências, uma interface entre o cérebro e os estímulos do mundo exterior. Mais uma interface tecnológica entre as diversas da história das tecnologias: bio-mecânica (ferramentas manuais, carruagens etc.), elétrico-mecânico (motores elétricos), bio-elétrica (marca-passo, p.ex.), elétrico-eletrônica (TV, computadores etc.) e assim por diante.

Restaria a última interface: a eletrônica-neuronal com as experiências de servomecanismos comandados pelos impulsos elétricos do cérebro. De William Gibson com seu livro “Neuromancer” (1984) até o filme Matrix (1999), o subgênero cyberpunk explorou esses mundos virtuais nos quais uma rede neuronal se conectaria diretamente com uma rede digital, imergindo o ego em ambiente digitais.

Mas o filme australiano OtherLife (2017) vai além ao imaginar as implicações da descoberta de uma nova interface: a digital-neuronal. Em outras palavras, um software biológico chamado “otherLife”, projetado por meio de códigos e “impresso” numa impressora 3D cujo resultado é um líquido escuro aplicado nos olhos (as janelas da alma) com um conta-gotas. O que faz o usuário imergir em uma realidade virtual dos sonhos: praias paradisíacas ou aventuras em snow-board em montanhas cobertas de neve.

Se as memórias e todos os estímulos do mundo externo (percepção do tempo-espaço) são processados de forma química pelo cérebro, então poderiam ser digitalizados e depurados em linhas de códigos por um programador.

Mas há algo mais: a compressão do tempo-espaço, assim como comprimimos arquivos grandes em computadores: um minuto no tempo-espaço real corresponderia a um ano nas férias imersivas em OtherLife. Algo parecido com as sucessivas camadas da mente em tempos diferentes do filme A Origem (Inception, 2010) de Christopher Nolan.



O filme OtherLife tem o mérito de revelar muitas facetas da nova cultura hypster-digital de startups e aplicativos: como a tecnologia está criando mundos cada vez mais solitários para os seres humanos habitarem – basta ver como os algoritmos atuais criam bolhas virtuais para cada usuário nas redes sociais e mecanismos de busca.

E também, como a tecnologia de realidade virtual reproduz formas de lazer ou de tempo livre inspiradas em fantasias escapistas e compensatórias. E sempre solitárias.

O Filme


Ren (Jessica De Gouw) é uma programadora e inventora dessa nova interface. Mas o gênio atrás de OtherLife vive um drama pessoal: seu irmão Danny (Thomas Coquerel) está em estado de coma no hospital após um acidente em uma praia – num mergulho bateu a cabeça em uma pedra. Ren está obcecada com a ideia de que o coma é uma prisão bioquímica na qual de alguma forma pode-se encontrar uma saída para a consciência ainda viva em seu interior.

Ren consegue codificar essa prisão em uma espécie de narrativa digital: se fizer o ego do seu irmão entrar nessa narrativa virtual de uma cela de prisão, no interior da mente poderia imaginar a própria fuga, despertando para o mundo real.

Mas o processo de desenvolvimento desse software biológico é caro. Por isso se associa à startup de Sam (T.J. Power) que vê na invenção de Ren uma oportunidade comercial: transformar em um aplicativo em realidade virtual para aqueles que “nunca têm bastante tempo livre”. Uma inédita forma de lazer para pessoas muito ocupadas: que tal velejar no Caribe por um ano, enquanto na realidade só se passou um minuto?



Problemas de overdose, sobrecarga neuronal e saturação do sistema nervoso começam a ocorrer. Mas a startup corre contra o tempo para o lançamento de OtherLife. Os custos crescentes para o desenvolvimento do software fazem buscar novos clientes, dessa vez o governo. Preocupado com o sistema prisional lotado, um ministro vê no OtherLife a chance de esvaziar as prisões: condenados poderão viver anos em uma prisão virtual, enquanto no mundo real terão passados apenas algumas semanas.

Por isso, as pretensões comerciais urgentes de Sam e a pesquisa de Ren entram em conflito. Principalmente porque Ren esconde do seu sócio a versão mais avançada do OtherLife: aquela que permite o usuário interagir com o ambiente virtual. E no caso do irmão em coma, permitiria a fuga da prisão virtual em sua mente.

Claro que Sam desconfiará do jogo de Ren, buscando de alguma forma roubar os códigos secretos da versão mais aprimorada do software. Nem que seja ao custo de aprisiona-la na versão da cela penitenciária a ponto de ser vendida ao Governo.

Deterioração do tempo livre


Certa vez perguntaram ao pensador Theodor Adorno qual era o seu hobby em seus momentos de lazer. Adorno estranhou a pergunta, afinal, para ele, dar aulas, fazer pesquisas e escrever livros já eram um “hobby”. Simplesmente, o pensador não conseguia entender essa divisão entre o tempo de trabalho e o tempo livre, no qual vivemos prazeres compensatórios para anestesiar a dor e alienação da rotina do trabalho.



Na cínica linha de diálogo de Sam (o OtherLife é para pessoas que não têm tempo para ter tempo livre) está aquilo que Adorno chamava de “deterioração do tempo livre” – a única alternativa para o tempo de trabalho monótono e entediante são os prazeres compensatórios e fantasias escapistas. Uma breve fuga da de um cotidiano opressivo.

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