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Uma lição que a execução de Marielle Franco nos força recordar: a verdade na política está na razão entre a vida e a morte

Seguiremos na luta até o fim, por que a morte de Marielle Franco e nem a de centenas de lutadores nos farão calar as nossas verdades e, tão pouco, nos desorientar.



Do Blog Da Boitempo, 19 de Março, 2018
Por Leandro Módolo.


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Eu estou convencido de que o marxismo e tantas outras “visões de mundo” radicalmente críticas a nossa forma de vida não se identifica – nem em termos seculares – com a “religião” ou qualquer “fundamentalismo(s)”. E por uma razão que me parece simples, a forma de conhecimento do marxismo não se fundamenta em “verdades absolutas”, em dogmas, ainda que uns ou outros erijam eles recorrentemente em nome desse ou aquele teórico. Por se pretender ciência a dúvida é seu veículo por excelência. Por isso um dos principais dramas do marxismo sempre foi conciliar verdade e ação.

A questão então que surge se configura assim: dado que as visões de mundo fundamentam ações, não podemos nos deixar orientar pelas suas verdades? Ou melhor, uma vez que essas verdades conduzem a ação política de vida e morte – metaforicamente ou não – estaremos as absolutizando? Em termos práticos sim, estaremos as absolutizando.

Mas se a questão finda assim a resposta é unilateral, logo, incompleta. Porque em termos práticos não há, necessariamente, ação política sem uma orientação, sem uma prévia ideação – indiferentemente do quão racional ela possa ser. Então a questão deve continuar: na ação política, sobretudo naquela de vida ou morte, como devo me orientar? Alguns preferem não respondê-la, ou melhor, não agir, o que, por consequência, coloca término à luta com a morte do inerte. Nesse sentido, o que a morte de Marielle Franco nos força recordar é que toda luta política carrega um grau de absoluto – nesse caso expresso justamente pela sua morte. Aos que insistem em desobedecer a inércia e lutam contra seus opressores e exploradores é necessário se orientar por essa ou aquela “visão de mundo”… caso contrário será derrotado, perecerá! Não há saída se se quer ganhar a luta sem escolher uma orientação, ou como disse Lênin, “não há revolução sem teoria revolucionária”. Por isso, com efeito, o marxismo carrega verdades que tendem ao absoluto, como o liberalismo carrega as suas, o anarquismo as suas, o fascismo as suas etc. Só a inércia é que delas não necessitam.

Agora, se essas verdades são de fato “verdades absolutas” nunca teremos a certeza “absoluta”, como nunca terão também os anarquistas, os liberais, os fascistas etc. No embate com estes, portanto, devemos convocar as nossas críticas teóricas, os nossos métodos, as nossas leituras dos fatos históricos, as nossas compreensões dos fenômenos econômicos, as nossas explicações da vida social, a defesa dos nossos valores e ideais, os princípios da nossa moral e da nossa ética… E todos com o objetivo de vencermos, sempre tendo a clareza que as armas das críticas não substituirão as críticas das armas!

No fim, recordamos que se o critério da verdade é a prática, a verdade da luta política se encontra no conflito ou, em outras palavras, a sua verdade é a razão entre a vida e a morte. É certo que há um bocado de tristeza nisso, mas, penso eu, é a forma mais razoável e segura de responder a tais problemas sem se abster da luta, e mais, é a forma de empreendê-la até o fim!

Não conhecia Marielle Franco pessoalmente, apenas pelas redes sociais, pelos feitos como militante e pelos comentários de camaradas lutadores que já estiveram ombro a ombro com ela. E tenho certeza que ela era uma das nossas, uma que fez das suas verdades marxistas, feministas, antirracistas e socialistas encontradas na caneta da ciência, a orientação de sua ação política. Então, por de longe acompanhar o ser humano que era, a socióloga desobediente que era, a militante dos direitos humanos que era, a guerreira negra feminista e socialista que era… Marielle tem todos meus sentimentos. Alguns comentários que correm pelas redes dizem que a vereadora foi “vítima” de sua “ideologia”, a intenção é clara: culpá-la sobre a sua própria execução. Amargo engano, ela foi atora de sua “ideologia” e foi morta – covardemente – pelos seus inimigos. E tenha a certeza que seguiremos na luta até o fim, por que a morte dela e nem a de centenas de lutadores nos farão calar as nossas verdades e, tão pouco, nos desorientar. 

Avante!

“Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram
Suas leis, para nos escravizarem.
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte […]”

em “Os dias da comuna”, de Bertold Brecht

* Agradeço ao camarada Celso Monteiro a lembrança desse poderoso poema. E lembrem-se que ele tem continuação!

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