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Torquato Neto – Todas as Horas do Fim: um poeta não se faz com versos

No documentário, os diretores partem de um material escasso para preencher lacunas e redimensionar seu personagem para além da sina do menino infeliz



Da Catya Capital, 25 de Março, 2018


Os diretores partem de um material audiovisual escasso para redimensionar seu personagem

Torquato Neto – Todas as Horas do Fim, de Eduardo Ade e Marcus Fernando, é um filme construído sobre uma lacuna. Uma não: muitas.

Até então, boa parte do público não conhecia a dimensão artística do piauiense de Teresina que se matou aos 28 anos, em 1972. Ou a resumia como a sina “do menino infeliz” da Cajuína, música de Caetano Veloso em homenagem ao amigo, uma das peças-chave do Tropicalismo.

No documentário, os diretores partem de um material audiovisual escasso para preencher essas lacunas e redimensionar seu personagem. Dele existe um único registro de voz, que se soma e se multiplica em raras aparições como em Nosferatu no Brasil, de Ivan Cardoso, em que encarna um vampiro torto e libertino em filme mudo rodado em Super 8.

Uma das saídas foi emprestar a ele a voz do ator Jesuíta Barbosa. A outra, provocar uma imersão na cabeça do artista a partir das obras e filmes que a povoavam. As imagens do cinema novo e do cinema marginal cobrem até mesmo a fala de amigos e parceiros da obra, em depoimentos exibidos de maneira pouco convencional. Caretice, afinal, não combinaria com o protagonista.

É sobre a obra, e não exatamente sobre a vida – ou pelo menos até onde é possível aparar as intersecções entre elas – que o documentário se dedica.

Aos poucos, e nas horas e dias seguintes após a sessão, passamos a tropeçar em Torquato Neto nas lacunas até então despercebidas: na música que cantamos sem atentar para a autoria, no esforço de tirar a poesia do registro em papel e dar a ela uma outra dimensão, ou por finalmente encontrar nele um lugar de destaque de uma cena artística que se desenhava e ainda se desenha.

Como resumiu o amigo Victor Costa ao fim da sessão, em 28 anos Torquato se projetou não apenas como um artista, mas como um agitador cultural que compreendeu e foi absorvido pelo que, muito em breve, seria hoje o que conhecemos como cena audiovisual, na qual cabe muito daquilo que ele já demonstrava.

Letras e palavras flutuando na tela, escrita transformada em música e artes visuais, o corpo como expressão de linguagem e até em artigo de jornal diário para recorte. Algo nele e em seus contemporâneos contrastava com a imagem que guardamos dos poetas que o antecederam, como Drummond, João Cabral e Manoel Bandeira, burocratas bem comportados que se libertava do terno e da gravata usando tinta e papel.

A poesia de Torquato, ainda a ser descoberta pelo grande público, é a poesia libertada deste formato. Uma contradição, portanto, que ele não pôde cantá-la – um talento que, dizem, jamais alcançou.

Nessa poesia o artista parece dar sentido ao próprio corpo, esgotado precocemente. O que sabemos? Que, para ele, a exemplo de muitos artistas mortos precocemente, não há o que se fazer por aqui quando a obra está acabada.

Mais do que não poder dizer, a angústia do artista é não ter mais o que dizer, ou fabular, ou inventar, ou reinventar. Mas quando a obra se esgota? Como identificar seu epílogo? Sabemos?

De todas as lacunas, esta é a única que não podemos alcançar.

O que faria agora, já avô (soube que seu neto assistiu ao filme diversas vezes), se tivesse acompanhado os colegas Gil, Caetano, Edu Lobo, Gal, Jards e pudesse resumir em poesia o país que nasceu e morreu com ele em 1972. Um país que, como ele, parece agora viver tranquilamente todas as horas do fim.

Em tempo. Já me estendi demais, mas a ressaca pós-cerimônia do Oscar me levou a assistir A Livraria, filme de Isabel Coixet que estreou na quinta-feira 22. O filme é uma declaração de amor aos livros e aos valentes vendedores de livros que precisam transformar em produto o que não têm preço de mercado.

Quem vem do interior (na cidade onde nasci sobram-nos shoppings, farmácias e barbearias, mas as livrarias ou desapareceram ou flertam com a falência diariamente) provavelmente vai se identificar com a protagonista que, leitora que gosta de andar para absorver o que leu, é confrontada o tempo pela brutalidade do entorno que a todo momento questiona: para que isso me serve?

A referência recorrente a Ray Bradbury não é sem propósito.

“Não preciso de livros, me basta a realidade”, diz o pescador.

“Livros me dão sono”, diz o banqueiro.

“Como vai prosperar com a sua loja?”, diz o manager da TV que repele a literatura.

E assim, sucessivamente, os encontros com os personagens daquela cidade revelam uma força gravitacional em direção a um mundo de experiências empobrecidas, onde tudo é resumido a empreendimentos, perspectiva de lucro, ultrapassagens desonestas, artificialidades, pequenos ganhos, imediatismo.



Tudo o que o livro pode implodir ao imaginar um outro senso da realidade, menos crua, menos cínica e, já que falamos de poesia acima, mais interessante e menos cinza; menos óbvia enfim. “Um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo, sem medo. É inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades, pelo menos maiores. É destruir a linguagem e explodir com ela, sabendo-se perigoso, divino, maravilhoso”, escreveu certa vez Torquato.

Baseado no romance homônimo de Penelope Fitzgerald, A Livraria é a história de quem decidiu correr esse risco, e guarda para o espectador diálogos que fatalmente podem servir de escudo toda vez que associar (ou tentarem associar) o exercício da leitura como um atestado da misantropia. O maior deles, “ninguém é sozinho em uma livraria”.

Leia mais no meu site www.oqueverhoje.com.br

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