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Somos uma sociedade absolutamente abandonada

O Brasil é um dos quatro países do mundo onde mais se assassinam militantes sociais, ativistas sociais. Os outros são Filipinas, Colômbia e México. Sendo que mais da metade das execuções na América Latina são no Brasil e na Colômbia
Da Carta Maior, 24 de Março, 2018
Por Eric Nepomuceno, nocauteblog.br 


Daqui a pouco, com uma imprecisão não muito característica dos militares, o Exército vai sair de um conglomerado de favelas aqui no Rio, chamado Vila Kennedy. Que era considerada a comunidade vitrine das ações da intervenção militar decretada pelo Michel Temer aqui no Rio de Janeiro. E realmente o nome é justificado, foi uma vitrine do que está acontecendo, ou seja, não mudou nada.

No começo eram 1.400 homens do exército cuja maior função era de fotografar trabalhador que mora na Vila Kennedy, revistar mochila de garotos de 9 anos que moram na Vila Kennedy. A farsa inventada pelo indigno Michel Temer foi e está sendo e vai continuar sendo uma armadilha para as Forças Armadas e especialmente para o Exército. Recusado pela população, inócuo, inútil.

No começo eram 1.400 homens. Agora varia entre 50 e 200, mas só de dia. À noite o assunto fica na mão da Polícia Militar. Quer dizer, não muda nada, não mudou nada, não aconteceu nada.

Tem um dado interessante nessa intervenção, nessa farsa inventada pelo Michel Temer: o Exército está em regiões controladas pelo tráfico de drogas. Agora, onde tem milícias, eles não chegam perto. E o que são as milícias aqui no Rio de Janeiro? São forças paramilitares integradas por ex-PM, ex-Polícia Civil, ex-Polícia Federal, ex-soldado das Forças Armadas e até por bombeiro. Imagina, Corpo de Bombeiro.

Agora, muitos dos integrantes dessas milícias não são ex. Continuam sendo polícia, continuam sendo Polícia Civil. É uma força terrível. Eles fizeram um pacto com os traficantes, já não disputam território. Eles atuam em comum acordo. Do que vive a milícia? De vender o gato NET, que eles chamam, ou seja, roubar televisão a cabo, vender botijão de gás com sobre preço, controlar moto-taxi, controlar van.

E quando eu digo que é uma força política é porque eles elegem vereadores, deputados estaduais, com essa tropa ninguém mexe. A farsa não chega a tanto. Um dado que aconteceu durante a intervenção militar, mostra o poder dessa força marginal. A morte da Marielle Franco, vereadora do PSOL e do motorista dela Anderson Gomes foi um trabalho de mestre, uma execução perfeita. Bárbara e perfeita.

Quem atirou, atirou com o carro em movimento e errou um tiro. Foram quatro na cabeça dela, três nas costas do motorista e uma bala ficou na lataria do carro, só uma se perdeu.

Um claro desafio à intervenção militar, como quem diz: olha, não se mete aqui não, porque aqui é comigo. Ela era o alvo perfeito. Uma moça jovem, batalhadora, íntegra, um início de carreia bastante promissora.

É terrível.

Somos uma sociedade abandonada. Absolutamente abandonada.

E quando alguém quer fazer alguma coisa, esse alguém é ilegítimo e inventa uma farsa. E o que mais me chocou, além evidente da execução brutal, é a impunidade.

O Brasil é um dos quatro países do mundo onde mais se assassinam militantes sociais, ativistas sociais. Os outros são Filipinas, Colômbia e México. Sendo que mais da metade das execuções na América Latina são no Brasil e na Colômbia.

Essa é a realidade. Não há farsa possível. As milícias que eu mencionei agora, controlam 160 favelas no Rio de Janeiro. Na grande área metropolitana da cidade do Rio de Janeiro, 2 milhões de pessoas. Controladas pelas milícias. E o Estado é inerte e ausente.

Não queria e nem posso terminar a coluna de hoje, sem mencionar uma barbaridade: um boçal deputado federal pelo DEM, ex-Arena, um boçal, coronel da Polícia Militar, reformado, mas coronel da polícia chamado Alberto Fraga, teve a ousadia de falar mal da morta, da executada.

Covarde. Covarde. Imundo. É a bancada da bala, aliado de Bolsonaro.

E uma energúmena chamada Marília Castro Neves, desembargadora da Justiça também acusou a Marielle de ser vinculada ao Comando Vermelho e outras estupidezes iguais. E esta energúmena argumentou que fez o comentário não na condição de desembargadora, mas de cidadã. Por favor, quem tem o dever de julgar os outros não tem o direito de falar estupidezes como cidadã. Desembargadora fala nos autos ou então volta pra casa, se é que tem casa. Volta para aquele teu covil.

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