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“Precisamos de cada vez mais mulheres na ciência”


A pesquisadora brasileira Carolina Motter Catarino ganhou destaque internacional pelo seu trabalho com modelos de pele humana reconstituída



Da Carta Capital, 25 de Março, 2018
por Tatiana Merlino 


Carolina foi uma das cinco estudantes das Américas a ganhar o prêmio, a única mulher em sua categoria

Em novembro de 2018, a cientista Carolina Motter Catarino virou destaque internacional. Ela venceu o The 2017 Lush Prize, prêmio da Lush, empresa britânica de cosméticos, para promover cientistas que trabalhem em prol do fim do uso de animais na pesquisa. “Fui uma das cinco estudantes da América a ganhar o prêmio, e na minha categoria, era a única mulher”, relata Catarino. “Foi um reconhecimento do meu trabalho, da minha dedicação e da pesquisa no Brasil”. O valor que recebeu, 45 mil reais, serão investidos na sua formação como cientista.

Catarino é doutoranda no Instituto Politécnico Rensselaer, em Troy, no estado de Nova Iorque (EUA) e sua pesquisa é uma chance de acabar com o uso de animais em testes de laboratórios para a indústria cosmética.

O amor pelas ciências começou na escola. Estudiosa, apaixonou-se por biologia no ensino fundamental, e por matemática e física no ensino médio. Na hora do vestibular, optou pelo curso de Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde começou a estudar em 2008. “Entrei com a ideia de que queria ser pesquisadora”, conta a pesquisadora, que trabalha no desenvolvimento de modelos de pele humana reconstituída usando a tecnologia e impressão 3D.

Foi durante um intercâmbio financiado pela Capes, vinculada ao Ministério da Educação do Brasil, que ela conseguiu uma bolsa e foi para a França estudar na Universidade de Tecnologia de Compiègne e fez um estágio de seis meses na L´oréal, em Paris. “Foi quando comecei a achar meu caminho. Foi fantástico”. Lá, conheceu e trabalhou com os modelos de pele que são usados para testar produtos cosméticos. “A primeira vez que vi um modelo de pele reconstituído foi mágico, pois era o equivalente à estrutura da pele humana”.

De volta ao Brasil, iniciou um mestrado no Laboratório de de Biologia da Pele, na Universidade de São Paulo, sob orientação da professora Silvya Stuchi. “O objetivo do meu mestrado era desenvolver esse modelo de epiderme para os testes em laboratório in vitro”, explica. Depois do mestrado, a pesquisadora mudou-se para os Estados Unidos, com bolsa do programa Ciência sem Fronteiras.

Campo historicamente dominado por homens, a presença de mulheres na ciência ainda enfrenta muitos desafios. De acordo com dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), um órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, 76% dos cientistas de nível sênior que recebem bolsas de pesquisa no país são homens.

Entre os pesquisadores jovens, em início de carreira, a divisão é equitativa. Metade das bolsas financia mulheres. Ou seja, mulheres conseguem chegar ao início da carreira científica, mas tem dificuldade de dar continuidade à ela.

Ainda de acordo com o CNPq, hoje, no Brasil, há 63.349 doutores bolsistas de mestrado do sexo masculino — 7.075 a mais que do sexo feminino. A maioria delas concentra os estudos em áreas das ciências humanas (10.856) e da saúde (10.088), enquanto eles dedicam-se às ciências sociais aplicadas (7.236), exatas e da terra (6.258).

Além da dificuldade de dar sequência à carreira, as mulheres cientistas também têm que lidar com machismo de seus pares: “Sempre fui muito forte no trabalho, nunca me senti inferior. Mas a gente sempre ouve comentários infelizes, a respeito dos motivos pelos quais uma mulher conseguiu uma posição, um prêmio, sempre questionando a nossa capacidade. Ainda a ser superado”, afirma a pesquisadora.

Ela acredita, no entanto, que as mulheres cientistas estão conquistando cada vez mais espaço. “Estamos vindo com tudo, mostrando que nosso lugar é na bancada de pesquisa, de igual para igual”.

Fora do Brasil, relata, há ainda um fator adicional no machismo, que é o de ser mulher e brasileira. “Já passei por isso no mundo acadêmico, e tenho colegas que ouviram coisas semelhantes por serem estrangeiras, brasileiras”. No entanto, na universidade onde faz doutorado, pondera, há muita preocupação com equidade de gênero.

Durante a carreira acadêmica de Catarino, muitas mulheres a inspiraram, como suas colegas de mestrado. Porém, a cientista que mais a inspira é a professora Silvya Stuchi. “Um exemplo a ser seguido, uma mulher incrível, que tem uma carreira muito respeitada. Ás vezes, para uma mulher, é muito difícil ter que lidar com casa, família e ser bem sucedida. Ela consegue. Quero ter tanto sucesso quanto ela”.

Como o Programa Ciências sem Fronteira prevê que o pesquisador vá para fora do país e volte para aplicar o conhecimento no Brasil, após o final de seu doutorado, em 2019, Catarino pretende voltar ao Brasil e continuar trabalhando no aprimoramento dos modelos.

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