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Pouco antes de morrer, Marielle manifestou preocupação com a segurança no Rio



Por Joaquim de Carvalho
Do DCM, 15 de março de 2018



Pouco antes de ser assassinada, a vereadora Marielle Franco expressou num encontro com mulheres negras, na Casa das Pretas, centro do Rio de Janeiro, preocupação com a falta de segurança no Rio de Janeiro.

O evento, Roda de Conversa Mulheres Negras Movendo Estruturas!, já durava mais de uma hora, quando olhou para o celular, provavelmente para ver que horas eram, e disse:

— Nosso papel é de fiscalizar e de resistir. Eu sempre falo: com nosso corpo, com nossas coisas, com nosso lugar, mas também incidindo diretamente. Então, a partir daí que a gente lá em Vila Kennedy, esse laboratório, que é lá esse laboratório da intervenção. Mas é a cidade toda que precisa ser cuidada e a gente sabe que não está sendo. Então, os nossos corpos, o nosso transitar, sempre ficam ameaçados. Por isso, nossos eventos, a nossa atividade, a gente nunca passa das 9 horas, para que a Central, a Zona Oeste, a Baixada, a gente consiga chegar.

Vestida de vestido longo com estampa florida, blusinha de alça azul marinho, sandália de salto baixo, unhas da mão grandes e bem cuidadas, cabelo solto e descolorido, Marielle queria encerrar o encontro, mais preocupada com a segurança das convidadas do que com a dela própria, já que estava ali com motorista e uma assessora.

Foi a última atividade pública da vereadora.

Pouco depois, por volta das 21h30, ela seria assassinada, na rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio, alvo de uma ação com caraterísticas de execução.

Um carro se postou ao lado daquele em que ela estava, e houve nove disparos de arma de fogo. Marielle, que estava no banco de trás, morreu, assim como o motorista, Anderson Pedro Gomes. A assessora foi ferida pelos estilhaços.

Em sua última atividade como ativista pelos direitos dos pobres, Marielle revela muito do que pensava, sua história, o que queria.

Está tudo registrado na transmissão ao vivo que fez através de sua página no Facebook.

O objetivo era o de envolver seu público com as atividades que realizava, uma estratégia de comunicação e prestação de contas. Mas agora se tornou um documento histórico.

— O mandato de uma mulher negra, favelada, periférica, precisa estar pautado junto aos movimentos sociais, junto à sociedade civil organizada, junto a quem está fazendo para nos fortalecer, naquele local onde, objetivamente, a gente não se reconheça, não se encontra, não se vê. A negação é o que eles apresentam como nosso perfil. É nessa casa, o nosso lugar, foi nosso período, foi o nosso lugar de resistência. Daí fazer esse evento no bojo das atividades dos 21 dias de ativismo, porque a gente sabe que a gente tá ativa, tá militando, tá resistindo o tempo todo. Mas com alguns períodos onde a gente se fortalece na luta — diz ela, ao abrir a reunião, da qual participaram também uma jornalista, uma rapper, líderes de movimentos sociais e uma americana, que elogiou a força das mulheres presentes, todas negras.

Uma pessoa que acompanhava a transmissão fez a pergunta que permitiu a Marielle falar sobre o lugar onde ela guarda sua ancestralidade. É na Maré, cidade que rica na baía de Guanabara, no lado oposto ao da cidade do Rio, mas que parece muito mais distante, pela falta de uma ligação direta. “Ali está a minha memória da palafita. É onde guardo minha ancestralidade”, afirmou. O avô paterno veio da Paraíba e foi um dos primeiros moradores da Maré, segundo contou.

A condução do encontro é uma demonstração de por que Marielle se tornou em 2016 uma das maiores surpresas da eleição do Rio de Janeiro. Candidata pelo PSOL, teve mais de 46 mil votos e foi a quinta mais votada. Além de muito bonita, era radiante, com um sorriso que chamava a atenção.

— Eu sou professora. Não esquece, não. Professora chata que olha assim e aponta o dedo lá atrás — disse ela, brincando, como indicando que, diante da timidez das presentes, convocaria alguém para falar.

Não precisou. Logo uma mulher que se apresenta como Denise começa a falar.

Entre uma e outra fala, Marielle fala um pouco sobre o trabalho que realiza e sobre a própria vida. Entrou na PUC em 2002, depois de fazer um curso preparatório comunitário e passar no vestibular de Ciências Sociais.

Era vista como favelada e, em sua classe, só havia outra aluna negra — nenhum homem negro — e arrumou “briga” logo nos primeiros dias, quando questionou o professor sobre a razão de indicar livros em inglês, idioma que não dominava e considerava estranho num curso de língua portuguesa.

Mais tarde, reconheceu que era mesmo necessário ter acesso a publicações em outras línguas, para ocupar outros espaços.

Contou que estava fazendo um curso de inglês e brincou com algumas expressões no idioma estrangeiro.

No final do encontro, Marielle citou uma frase cujo original é em inglês, para sintetizar uma de suas bandeiras.

— Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.

Ela contou que era casada com uma mulher e, no seu ideário, estava a luta pelo empoderamento das mulheres de diferentes representações. “Tenho uma filha de 19 anos”, contou a vereadora, que tinha 38 anos.

Depois de ler a frase que resume o conceito de sororidade, se levantou e encerrou o encontro, com um sorriso e a frase:

— Vamos que vamos. Vamos juntos ocupar tudo.

Não deu para ela. Mas o convite está feito.

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