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Os últimos momentos de Marielle Franco antes de ser morta com quatro tiros na cabeça



Do GGN, 16 de Março, 2018
por Lígia Mesquita, da BBC Brasil


Image captionMarielle Franco foi morta logo depois de ter participado do evento 'Jovens Negras Movendo Estruturas', transmitido ao vivo nas redes sociais | Foto: Reprodução/Twitter/@mariellefranco

"Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas."

Foi assim, lendo em português e inglês a famosa citação da escritora americana negra, feminista e gay Audre Lorde, que a vereadora Marielle Franco encerrou sua participação no debate Jovens Negras Movendo as Estruturas, organizado pelo seu partido, o PSOL, e que acabara de mediar na noite desta quarta.

"Vamo que vamo, vamo junto ocupar tudo (sic)", se despediu. Minutos depois, seria assassinada com quatro tiros na cabeça após deixar a Casa das Pretas, espaço coletivo de mulheres negras na Lapa, no centro do Rio.

De caderninho e celular na mão, com o qual interagia com o público que assistia o evento via transmissão em sua página no Facebook, Marielle contou que havia escolhido essa frase de Lorde para um trabalho de uma aula de inglês – a tarefa pedia que ela citasse alguma mulher que tinha como referência.

Esse exercício a fez lembrar, disse, como a autoidentificação é fundamental. "O lugar de mulher, mulher negra, bissexual, agora estou casada com uma mulher, mas tenho uma filha. Dessas muitas representações a gente vai aprendendo, conhecendo e estudando mais."

Antes de deixar a Casa das Pretas, a vereadora, criada na favela da Maré, pensou até em ir tomar uma cerveja com suas companheiras de bate-papo. No entanto, o cansaço venceu, e ela desistiu do programa.

"Quando acabou o debate nos abraçamos muito, tiramos fotos, e a Marielle sugeriu que a gente fosse tomar uma cerveja, a gente estava na Lapa (bairro boêmio). Mas eu desisti, queria ir pra casa, ela desistiu também", conta a cineasta e produtora audiovisual Aline Lourena, sua colega de debate, à BBC Brasil.

"Ela havia tido um dia complicado na Câmara, comentou sobre algum veto do prefeito. Chegou mais de uma hora atrasada ao debate por causa disso e pediu desculpas", lembra a escritora Ana Paula Lisboa. No dia anterior, Marcello Crivella havia vetado um projeto que obrigaria a Prefeitura do Rio de Janeiro a divulgar o fluxo de caixa da cidade.



Image captionDa esq. para a dir.: Ana Paula Lisboa, Aline Lourena, Marielle Franco, Hellen N'Zinga e Mohara Valle no debate Jovens Negras Movendo as Estruturas | Foto: Aline Lourena/Arquivo pessoal

Marcado para as 18h, o debate começou pouco depois das 19h justamente para esperá-la, e durou cerca de duas horas.

Ana Paula , ao contrário das outras, não desistiu da cervejinha. Quando estava em um bar próximo dali, com outras pessoas que participaram do evento, recebeu pelo WhatsApp a notícia do crime, ocorrido às 21h30.

"Achei que era fake news. A gente tinha se despedido havia meia hora. Aí fui ligar para o pessoal do PSOL, e eles confirmaram."

Enquanto Marielle ia embora, um carro emparelhou o veículo onde estava. Ela e o motorista, Anderson Pedro Gomes, foram assassinados a tiros, e uma assessora teve ferimentos leves causados pelos estilhaços. Os criminosos fugiram sem levar nada.

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