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Mulheres africanas na liderança



Do GGN, 20 de Março, 2018

por Shona Bezanson e Peter Materu,
Tradução de Caiubi Miranda


no Project Syndicate
Mulheres africanas na liderança

TORONTO – África tem uma longa história de liderança feminina. Contudo, a liderança pode ser uma aspiração desafiante para as mulheres jovens do continente, devido às persistentes barreiras ao sucesso. Se os países africanos - e as mulheres da África - quiserem explorar o seu potencial, isso tem de mudar.

As mulheres foram líderes na linha de frente da luta pela descolonização de África. A rainha Anna Nzinga, a monarca dos reinos Ndongo e Matamba, onde hoje é Angola, passou décadas lutando para proteger o seu povo dos portugueses e do seu comércio de escravos em expansão. Em 1900, Yaa Asantewaa, a rainha mãe do Império Ashanti (parte do atual Gana), liderou uma rebelião contra o colonialismo britânico. Quase três décadas mais tarde, as mulheres no sudeste da Nigéria organizaram uma revolta, conhecida como a Revolta das Mulheres de Aba, contra as políticas coloniais britânicas.

Mais recentemente, a presidente Ellen Johnson Sirleaf – vencedora do Prémio Nobel da Paz – conduziu o seu país à reconciliação e à recuperação após uma longa década de guerra civil, gerindo em simultâneo uma epidemia devastadora do vírus Ébola. A antiga ministra da Saúde ruandesa, Agnes Binagwaho dedicou a sua carreira a conseguir um acesso equitativo aos cuidados de saúde dentro e fora do seu país. Quando era adolescente, Kakenya Ntaiya concordou em se submeter a uma circuncisão feminina (um tradicional ritual de passagem Maasai) em troca da oportunidade de ter educação. Após conseguir tirar um doutorado em educação, ela fundou a Kakenya’s Dream, que se foca na educação de jovens, em acabar com as práticas tradicionais nocivas e edificar as comunidades rurais no Quênia.

No entanto, as barreiras à liderança das mulheres em África continuam atualmente sistêmicas, difundidas e iniciam-se cedo. Começam em casa, onde se espera que as jovens assumam mais responsabilidades, incluindo tarefas como tomar conta das crianças, cozinhar e tratar da roupa. Isto, e outros fatores, prejudica o sucesso escolar das jovens africanas: 47% não completam o percurso escolar ou nem sequer frequentam a escola.

O trajeto das jovens não fica mais fácil quando crescem. Desde direitos limitados às terras até à expectativa duradoura de que elas desempenhem a maioria das tarefas domésticas não remuneradas, as mulheres na África enfrentam enormes barreiras econômicas, jurídicas e culturais ao progresso. Segundo o relatório sobre a disparidade entre os gêneros, do Fórum Econômico Mundial, a África Subsariana reduziu a disparidade no empoderamento econômico em apenas cerca de 68%, tendo as mulheres maiores probabilidades de pertencer à classe dos desempregados, subempregados ou detentores de empregos precários no setor informal.

Mas, embora as barreiras à liderança feminina sejam tremendas, elas não são intransponíveis. Quer seja na política ou na saúde, direito ou engenharia, as mulheres africanas estão mostrando ao mundo como libertar o potencial de liderança das suas conterrâneas.

Na Uganda, a jovem Favourite Regina mantém as jovens refugiadas longe dos casamentos e gravidezes precoces, como parte de uma iniciativa liderada pela CIYOTA, uma organização de voluntários, dirigida por jovens e criada no campo de refugiados de Kyangwali. Na Nigéria, a jovem Blooming Soyinka emprega meia dúzia de artesãos desfavorecidos economicamente e com deficiência na Africa Blooms, criando condições para esses funcionários e as suas famílias prosperarem e educarem as suas crianças. No Quênia, a jovem Fanice Nyatigo está desenvolvendo a MammaTips, uma aplicação que irá fornecer informações oportunas sobre gravidez, amamentação, vacinação e outros assuntos importantes de saúde às novas mães. São jovens – todas provenientes do programa Mastercard Foundation Scholars – a quem devemos prestar atenção, uma vez que estão apenas começando a demonstrar a envergadura do seu potencial como líderes.

África precisa de mais mulheres líderes extraordinárias como estas. E, apesar da investigação sobre como promover a liderança feminina africana ser escassa, descobertas anteriores feitas através do programa de estudantes sugerem que há vários caminhos que as mulheres africanas podem seguir – e que nós podemos apoiar – para assumirem o seu devido lugar entre os líderes do continente.

Para começar, embora a educação desempenhe um papel importante, a experiência mostra que não é suficiente. O investimento deliberado em programas de liderança para mulheres jovens também é essencial. Elas precisam de oportunidades para praticar a liderança, seja na escola, no local de trabalho ou na comunidade. E precisam de espaços de apoio onde possam aperfeiçoar essas competências, criar redes e obter apoio.

Além disso, é necessário o reconhecimento do talento e do potencial das mulheres jovens para estimular a sua confiança e autoestima, e para reforçar a sua imagem fora da sua comunidade próxima. Mentores e modelos a seguir – principalmente mulheres – também são extremamente valiosos.

Este trabalho não é apenas para os governos africanos ou ONG locais. Todas as discussões de política a nível global sobre a educação, o ambiente, a ciência e a saúde devem abordar explicitamente como desenvolver mulheres líderes.

As mulheres jovens aspirantes da África são muitas vezes motivadas pelo desejo de devolver suas comunidades. Deveríamos capacitá-las para fazerem precisamente isso.

Se fornecermos o apoio correto às mulheres jovens, elas irão transformar as suas comunidades, o seu continente e o mundo. Elas irão proporcionar uma liderança ética inspirada nos valores partilhados, na paixão pela comunidade e no compromisso por um futuro mais brilhante. Para os que acreditam no potencial delas, é um privilégio acompanhá-las nesta jornada.

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