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Marielle Franco: eu sou porque nós somos



De Outras Palavras, 20 de Março, 2018
Por Inês Castilho


A sociedade estava paralisada, até que 9 tiros de pistola dispararam sua indignação. A execução de Marielle uniu vozes que lutam há dias e há décadas. Na linha de frente, mulheres negras

Marielle Franco, mulher negra e feminista, socióloga e mestre, quinta vereadora mais votada no Rio em 2016, ativista pelos direitos humanose e LGBT, mãe, filha da Maré, foi covardemente assassinada na noite de 14 de março ao sair de uma reunião com feministas negras na Casa das Pretas, rua dos Inválidos, Centro do Rio.

Na chamada do evento de seu mandato de vereadora pelo PSOL, uma declaração e um convite.

“Nós, mulheres negras, estamos inseridas em todos os espaços da sociedade. Somos a maioria da população enquanto negras e enquanto mulheres, ainda assim estamos constantemente tendo que mover as estruturas para ter os mesmos direitos. No dia 14 de março reuniremos as mulheres jovens negras que têm movido as estruturas por uma sociedade mais igualitária. Iremos nos reunir para compartilhar as nossas ferramentas de ação cotidiana, e trocar experiências com as nossas mais velhas que sempre nos trouxeram uma perspectiva de resistência, afeto, luta e esperança em tempos melhores. Convocamos a todas! Aquelas que vieram antes de nós e aquelas que lutam lado a lado no dia a dia.”



Marielle na Casa das Pretas

Uma das fundadoras da Bancada Feminista do PSOL, que lançou um manifesto.

Morreram a preta da Maré e o motorista que a acompanhava, Anderson Gomes, mas a tentativa de calar as suas vozes só fez amplificar tantas outras. Somos centenas, milhares, milhões. Estamos nas ruas, nas favelas, nos centros, nos campos e nas instituições. Estamos amparadas umas nas outras para garantir que esse projeto de sociedade avance, uma sociedade que assegure os direitos das mulheres, de negras e negros, da população LGBT, dos povos indígenas, das pessoas presas, das periferias, da classe trabalhadora. Estamos e seguiremos juntas com nossos corpos, nossas cores, nossas lutas, nossos desejos. Lutaremos incansavelmente pela apuração desse crime brutal que matou nossa companheira e amiga. A dor e a tristeza não são maiores que a nossa capacidade de seguir resistindo e de honrar o nome da Marielle e de todas as lutas que ela simboliza. Eu sou porque nós somos!”



Bancada Feminista do PSOL: Áurea Carolina (Belo Horizonte-MG), Cida Falabella (Belo Horizonte-MG), Fernanda Garcia (Sorocaba-SP, Fernanda Melchionna (Porto Alegre-RS), Fernanda Miranda (Pelotas-RS), Mariana Conti (Campinas-SP), Marinor Britto (Belém-PA), Rose de Paula (Tanabi-SP), Sâmia Bonfim (São Paulo-SP), Talíria Petrone (Niterói-RJ)

A execução de Marielle causou um abalo sísmico no território nacional – e fora dele. Nos dias que se sucederam à sua execução, o nome de Marielle foi invocado pedindo justiça em atos sucessivos no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Brasília e muitas outras cidades brasileiras, além das estrangeiras Toronto, Nova York, Berlim, Paris, Lisboa, Porto, universidades de Harvard e Brown (EUA) etc.

Maior acontecimento político-digital do Brasil, o brutal assassinato de Marielle mobilizou mais gente do que o impeachment de Dilma Roussef, maior até então. Deflagrou 3,573 milhões de tuites dia 14 de março, e nas 42 horas seguintes mobilizou 400 mil usuários do Twitter em 54 países e 34 idiomas. Com a liderança de três mulheres negras, de três gerações diferentes.

No centro Marielle, 38 anos. A seu lado outra preta, Elza Soares, 80, a voz mais repercutida nas redes.


“Das poucas vezes que me falta a voz. Chocada. Horrorizada… Toda morte me mata um pouco. Dessa forma me mata mais. Mulher, negra, ativista, defensora dos direitos humanos. Marielle Franco, sua voz ecoará em nós. Gritemos!”

Junto a Elza a fala certeira de outra preta, a jovem Mia, Milena Martins, militante de 17 anos da Baixada Fluminense.

“Marielle morreu dps de denunciar abuso dos militares e a galera tá falando ‘morreu pelas mãos dos bandidos que ela defende’. acho que ela morreu pelas mãos dos bandidos que você defende, amigo”.

A energia de luta de Marielle explodiu e seus estilhaços encarnam em nós. Em São Paulo, o Ilu Obá de Min, com seus espíritos ancestrais, entoou o réquiem por Marielle. Mulheres negras.

“Para que sua luta não tenha sido em vão, tocaremos nossos tambores. Ecoaremos nossos gritos contra a violência e a barbárie. Vidas negras importam e continuaremos o seu legado por um Estado justo e digno. Que não extermine o nosso povo preto. E com extremo pesar pela morte desta ativista e medo do que está porvir o Ilú Obá De Min se junta a todas as organizações e entidades para pedir JUSTIÇA. Seguiremos em luta com as forças das nossas ancestrais e de Xangô. Por Marielle, Lélias, Luizas, Akotirenes e todas as mulheres que este Estado calou.”



Bloco afro Ilú Obá de Min dança em ato por justiça a Marielle domingo em SP

Quem são as mulheres negras?

São mais de 50 milhões as mulheres negras e pardas, maioria entre as mulheres brasileiras.
São 80% das 5 milhões de empregadas domésticas, ocupação com maior concentração de mulheres no país.
Estão no piso da pirâmide salarial: no topo o homem branco, seguido da mulher branca e do homem negro. Têm menor escolaridade que as brancas, mas maior presen ça no mercado de trabalho, especialmente o informal. São mais da metade dos 48% que ganham até dois salários mínimos mensais.
São 62% das mulheres encarceradas nas penitenciárias e delegacias do Brasil.

São as que mais sofrem violência sexual. As que mais sofrem violência no parto e gestação. As que mais são assassinadas.


Preta e favelada. O assassinato de Marielle coloca na linha de frente as favelas, por quem lutou e morreu.

Não à intervenção. Por Marielle, eu digo não.
Não acabou, tem que acabar. Eu quero o fim da Polícia Militar.

São esses os gritos de guerra que ecoam nas manifestações: contra o genocídio do povo preto, que a intervenção militar só fez agravar.


“Convocamos todas as favelas, moradores da nossa comunidade, amigos e familiares e toda cidade do Rio de Janeiro a participarem de um ato pela memória de Marielle Franco. Geral tá convidado! Brota“– convocavam moradores e coletivos da Maré ao ato deste domingo (18), de que participaram 5 mil pessoas.

Preta, favelada e estudada, como a professora Anielle Silva, sua irmã, que ao declarar que irá agir judicialmente contra os caluniadores de Marielle convoca suas antepassadas, a sororidade feminista e demonstra compaixão por seus inimigos. Eu sou porque nós somos, Marielle repetia.

“Se eu fosse de outra família, talvez eu me calasse e me afastasse da internet. Mas eu sou neta de Filó, filha de Marinete, e Irmã com muito orgulho de Marielle! Sim, eu sou Anielle, e vcs não irão me calar ou me impedir de defender minha família, e a minha irmã e sua linda história. A vocês que espalham informações mentirosas, eu desejo luz e informação. Se informem! A vocês que nos mandam amor, apoio e carinho, vamos juntxs, pois sozinha eu ando bem, mas com vocês ando melhor!”.

Soou alto também a voz de uma mulher branca, a jornalista Hildegard Angel, filha de Zuzu Angel e irmã de Stuart Edgar, assassinados pela ditadura militar (1964-1985).

“O sangue de minha mãe, em 1976. O sangue de Stuart, de Sônia, de Maria Helena, de Vlado, de Rubens Paiva e muitas centenas, nos Anos de Chumbo. O sangue de Marielle neste 2018. O sangue de Anderson Gomes, a vítima errada na hora inadequada. O sangue de muitos outros que precisarão ser emudecidos.”

Foram muitas as aproximações do assassinato de Marielle com o de Vladimir Herzog, o Vlado, em 1975, e com a do estudante Edson Luis, em 1968. Assassinatos que foram gota d’água e incendiaram as ruas, marcando a queda da ditadura, um; e o ascenso das lutas, o outro.



Protesto em frene à Câmara Municipal do Rio no dia 15 de março

E assim como brotaram no campo milhares de margaridas com o assassinato de Margarida Maria Alves, na Paraíba de 1983, a semente de Marielle brota no asfalto em milhares, milhões de marielles. Numa tacada só, detonaram a força de uma bomba H. Hora H.

Despolarização

Nunca vi nada igual”, declarou admirado Fabio Malini, coordenador do Labic, Laboratório de Estudos de Internet e Cultura, da UFES, responsável pela análise de dados de rede que apontou Marielle no centro de uma imensa teia de afetos pelo planeta.

“A polarização política aparece muito mais diluída agora”, observou Malini. “Em discussões ideologizadas, como foi no impeachment de Dilma, o mapa das relações entre os usuários costumava mostrar dois grandes grupos antagônicos tomando para si quase todo o espaço do debate digital. Não mais.”

Nem tanto. As pretas estiveram à frente no cortejo fúnebre na escadaria da Câmara de Vereadores do Rio, onde o corpo de Marielle e Anderson foram velados Foi decisão do coletivo de mulheres do PSOL, com grupos de feministas negras, formar um cordão de isolamento para que os corpos de Marielle Franco e de Anderson Pedro Gomes pudessem passar.

“Você vai se arrepender de levantar a mão para mim”, cantaram, com Elza Soares, os braços fortemente entrelaçados.


“Quisemos guardar, nós mesmas, esse corpo negro, que é o nosso corpo.”

Jamile Lopes, ativista do Movimento Negro Unificado, foi clara ao falar sobre o cordão de segurança formado por mulheres. A impaciência começou a crescer com a predominância de vozes masculinas no microfone: a de Lindbergh Farias (PT) foi soterrada por vaias.

A disputa entre PT e PSOL à flor da pele: “Ele acha que o povo negro esqueceu que o partido dele também colocou o exército nas favelas?”, falou alguém.

Marcelo Freixo e Chico Buarque sentiram o clima e se calaram rápido. Ontem (18), no ato do Ilú Obá de Min em São Paulo, o jornalista Xico Sá acompanhou discretamente a marcha, um dos filhos no colo, a companheira ao lado. Já o ex-senador e secretário dos Direitos Humanos Eduardo Suplicy tentou ser incluído no cordão de isolamento formado por uma maioria de mulheres para proteger as dançarinas do Ilú, à frente da bateria. Sem palavra, dois braços do cordão se levantaram e suavemente passaram sobre sua cabeça, colocando-o do lado de fora.

Porque ela era negra, pretas e pretos estão à frente. Porque era lésbica e feminista, as mulheres assumem o protagonismo. Porque foi uma candidatura feminista, eleita vereadora por quase 50 mil pessoas, sentimo-nos profundamente envolvidas. Por ser uma brasileira valente e lutadora pelos Direitos Humanos contra a injustiça, Marielle Franco representa todas as pessoas de bem deste país.





Inês Castilho
Jornalista, cineasta e pesquisadora, integra o corpo editorial de Outras Palavras, foi editora do jornal Mulherio, realizadora dos filmes de curta-metragem "Mulheres da Boca" e "Histerias" e cofundadora do Nós Mulheres, primeiro jornal feminista de São Paulo.

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