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Lá vamos nós de novo



Do GGN, 29 de Março, 2018
por Christian Edward Cyril Lynch



O mais triste de tudo é saber que esse processo de degradação generalizada do ambiente político e de esgarçamento das instituições constitucionais, escorregando para a violência generalizada, só vai piorar conforme o ano eleitoral avançar.

Os extremos têm interesse na violência, no cadáver na rua. Ameaças à vida do Fachin pelos prejudicados por suas decisões, devidamente publicizadas, servem para aqueles que querem constranger os juízes da segunda turma do STF que querem liberar prisão para depois da segunda instância. Os tiros na caravana do Lula, que levam os moderados de esquerda ao horror, serve à mobilização da extrema esquerda, porque confirma o discurso do fascismo emergente. A morte da Marielle serve para denunciar a opressão da PM, mas também reforça o discurso favorável às medidas excepcionais, confirmado a necessidade da intervenção. Essa é a fórmula da catástrofe política: quando todos, vítimas e algozes, acreditam que vão faturar no jogo da radicalização.

Vamos assim entrando numa espiral de acontecimentos que nos estão levando para fora de todas as rotinas da Nova República (Deus a tenha). Um cenário em que o horizonte de expectativas se dilata e o que era impossível passa a ser cogitado. Depois da intervenção federal, por que não um estado de sítio? Um estado de sítio serviria para a extrema direita se valer de mecanismos excepcionais e faturar com o público atemorizado com a escalada da violência, dando-lhes sensação de segurança. Mas serviria também para a extrema esquerda, que veria confirmados seus vaticínios de que caminhamos ou já estamos em ditadura.

Essa seria a hora de os moderados se darem as mãos para evitarem o pior para garantir um quadro de normalidade mínima para a realização das eleições. Mas ninguém o faz, porque todo mundo acha nada tem a perder e no fim vai lucrar com o desmoronamento da ordem constitucional. Desde gente perigosa como Bolsonaro até nulos como Temer e Meireles. Mas o comentário do candidato tucano de que, com os tiros no ônibus, o PT estava colhendo o que plantou, também é típico dessa orientação. Mas aqueles que acham que a esquerda também só “revidando”ou exercendo uma espécie de “legítima defesa”também podem estar dando munição para a política do esgarçamento. Especialmente se esposarem uma concepção voluntarista ou heróica, antiinstitucional, da política.

Isso já aconteceu outras vezes na história e o resultado foi sempre o mesmo: a esquerda se esborrachando. Na Alemanha de Weimar (1933), na guerra civil espanhola (1936), no Brasil de 1964, no golpe chileno de 1973, no golpe argentino de 76, etc. Na radicalização, a esquerda SEMPRE se esborracha. Mas que adianta dizer isso, como tentou fazer o Santiago Dantas na véspera do golpe contra o Jango?

A verdade é que nós nos comportamos como numa tragédia grega: todo mundo sabe o final mas ninguém consegue ou deseja mudar suas ações. Mais não digo.

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