Pages

Keith Richards ou Keith Jarrett, by Rui Daher




Do GGN, 11 de Março, 2018
Por Rui Daher



Os repórteres Nestor e Pestana, ex-BRD (Blog do Rui Daher), hospedado neste GGN para a paz, o amor e, vez ou outra, a galhofa (nunca censurada), convidam-me a uma libação na velha Redação.

Hoje em dia, ocupam um espaço micro palpiteiro diário no Facebook, o N&P, que meu filho, Gabriel, e muitos outros acharam remontar ao ótimo “Notícias Populares” de antanho. Por que não?

Lendo minha última postagem aqui, acompanhando análise em CartaCapital sobre a situação hídrica no semiárido brasileiro, os amigos colaboradores me confessaram preocupação.

Pelo telefone, quais Donga, arremessaram:

- Sentimos no texto uma tentativa de volta à veia poética do passado, confessada por você mesmo esquecida por falta de talento. Septuagenário tentando recuperar a adolescência? Precisamos dar-lhe foco.

- Não concordo, mas vou. O que leva cada um?

- O trivial e diante de sua mediocridade atual, se você encontrar, poesias escritas por Alexandre Frota.

- Em pentâmetro lâmbico ou prótese peniana?

A gargalhada do outro lado mostrou que continuávamos os mesmos.

Sou o primeiro a chegar, só a mim a Lourdes confia as chaves. Nada destroçado. Sempre que não estou em andanças é aqui meu refúgio e onde me visitam Darcy, Ariano, Melodia e Dr. Walther, membros do Conselho Consultivo do esgotado (como eu) livro “Dominó de Botequim”. Transponho-me em arrumadeira e dou um tapa no local.

Nestor, o jornalista preto, deixou crescer uma enorme barba branca. Pretende, até o fim do ano, cavar uma viagem à África e empregar-se como Papai Noel. Pestana corretamente alinhado. Não trazem incenso, ouro e mirra, mas ao unir-me a eles, percebo estarmos com uma cachaça salineira, metade de uma mortadela, e um livro de poesias de Manoel de Barros (1916-2014).

Nos abraçamos, depois caímos no choro, chorinho, de chorões antigos, daqueles que no jornalismo não existem mais.

- E aí, Rui, na merda?

- Como todos nós, os brasileiros que imaginaram o futuro de um grande país, menos desigual, mais justo, íntegro, convicto das instituições, respeitador dos direitos de cidadania, acima de tudo respeitado no planeta.

- Você não deveria estar assim. Não é partidário da galhofa, como nós? Hoje em dia, todo o país é a galhofa do mundo. Conquistamos nosso mais apropriado título.

- Não era o que eu queria, que chegasse a tanto, Nestor. Aí, já é vexame, exposição de contundente burrice, bandidagem. Queria apenas que na era das redes sociais, do jornalismo digital, sobrevivesse o que se fez na autofagia alegre do passado de Millôr, Ivan, Ziraldo, Jaguar, Francis, Tarso, Maciel, Sérgio Augusto, o “Bondinho”.

- Tarefa inglória, passaram a vê-lo como passadista.

- E daí, Pestana? Era ruim? Viraram literatura. O que você lê hoje da galhofa que passará a literatura?

- Não tiro os olhos do Barão de Itararé, João do Rio, Lima Barreto. Remoo gravações da PRK-30, do “Balança, mas não cai”, das marchinhas de Carnaval mais machistas, politica e socialmente mais incorretas, dos breques de Kid Morangueira.

- Pois é, Nestor, somos ninguém. Até minha poética vale ... nada.

- Lembre-se que “toda a forma de amor valerá”.

Abro o compêndio de Manoel de Barros. Pestana forma pequenos cubos de mortadela, Nestor abre a segunda garrafa salineira:

- “É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário”.

- Mas, Rui, por que os Keith?

- Jarrett, pianista de jazz, tem a minha idade e me acalma; Richards (1943), me excita e desafia. Compõem a minha indiscrição, diante de vocês, leitoras e leitores, nesta finitude.


https://www.youtube.com/watch?v=_Kmlk5ll3oE



Nenhum comentário:

Postar um comentário