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E nossa bandeira ficou sim vermelha



Do GGN, 16 de Março, 2018
Por Fernando Horta



E nossa bandeira ficou sim vermelha, por Fernando Horta

Nem bem digerimos a notícia da morte de Marielle e a esquerda já está brigando pelo seu sangue. O identitarismo liberal fala da mulher Marielle e sua luta. Os movimentos negros afirmam a morte de uma “favelada negra”, que denunciava a violência contra o seu povo. Os grupos LGBT falam em mais uma morte de pessoa que viveu sob o signo da intolerância e incompreensão por sua natureza. Os ativistas de direitos humanos aprenderam a escrever Marielle e colocaram em um sem número de artigos pelo mundo afora, em várias línguas. Até a Rede Globo fez do seu Jornal Nacional uma tentativa de sequestrar Marielle, de pautar o debate e leva-lo para onde a Globo quer: a favorecer seus interesses. A tentativa da Globo só não é mais asquerosa que as milhares de postagens da direita, com palavras como “puta”, “vagabunda” e “amante e defensora de bandidos”. Gente que, no meu entendimento, merecia cadeia pelo que defende. Liberdade de expressão tem sido usada como escudo pela escória fascista do mundo.

Penso que todos estes rótulos diminuem Marielle. A pessoa que ela era e o vazio que vai deixar não serão preenchidos pela formação do mito. Quem conheceu Marielle, nos mais diversos papéis que desempenhamos (mãe, filha, irmã, amiga, amante, militante e etc), jamais vai se acostumar com a sua falta, e isto implica em dizer que a luta pelo sentido que “Marielle” hoje representa me parece algo muito próximo da imoralidade.


A verdade é que a política foi sempre feita de sangue. Desde o primeiro ancestral humano que rachou a cabeça do outro com uma pedra na luta por espaço, por comida ou pelo direito de reproduzir. Durante séculos, a direita aprendeu a extrair o sangue das pessoas e transformá-lo em dinheiro, e assim sua política parecia – aos olhos de quem não compreende este mecanismo – mais limpa. A esquerda? A esquerda sempre precisou de sangue para fazer política. Quando o sangue é dado de bom grado chamamos de “revolucionário”. Quando é tirado de forma abrupta chamamos de “mártir”. A transformação (ou não) de Marielle em mártir brasileira é a luta atual. O governo Temer, sordidamente, já tenta colocar a morte da vereadora nas costas do “crime organizado”. Como uma grande conspiração para desacreditar a “intervenção” e o governo. Esta linha de interpretação já começa errada. Primeiro, porque Temer não precisa de nada para ser “desacreditado”. Temer e seu governo não são mais do que impostores que vão para o lixo da história. E as memórias a respeito do sobrenome “Temer” vão sobreviver décadas, pelo quê sinto pelos familiares de todos os golpistas. O segundo motivo é que o crime organizado das favelas tem tantos motivos para matar Marielle quanto o crime organizado que veste farda cinza e ganha para espancar negros e pobres. Daí não sai nenhuma hipótese superior à outra. Mas, matar durante o dia? Sem medo nem receio de câmeras ou testemunhas não é coisa do tráfico, mas de quem acha que é “autoridade”, e assim sempre exigiu ser tratado.

Enquanto há a luta encarniçada pelos sentidos que Marielle adquiriu, é preciso lembrar uma coisa: Marielle só poderia existir em um país com instituições funcionando e com a democracia plena. Desde o século XVII se tenta aperfeiçoar a democracia para que a política use votos – e não sangue – como seu motor. Quando golpearam Dilma ... quando subtraíram milhões de votos, o que os golpistas fizeram foi tornar – de novo – o sangue como a moeda mais importante do Brasil. A democracia só existe para evitar mortes. A morte de Marielle, portanto, mostra que não somente as instituições não estão funcionando, como neste país não existe mais um pingo de democracia.

E para acabar com a imoral luta pelo sentido de Marielle deixo abaixo uma lista de outros 26 nomes de ativistas brancos, pretos, pardos, vermelhos, homens, mulheres, e em todos os cantos do Brasil, mortos desde o início do golpe. A única coisa que une estes assassinatos é que todas as vítimas lutavam por um Brasil mais justo, mais igual e com mais oportunidades. De alguma forma mágica, Marielle hoje simboliza a todos, mas eu – como historiador – gostaria de lembrar o nome de cada um. E se você puder, ao ler as linhas que seguem, diga “presente!” após cada nome. A vida não se apaga enquanto há memória.

Quando a democracia é destruída, o sangue corre nas ruas. E é quase sempre o sangue de quem sempre defendeu igualdade e quem sempre defendeu a vida.

Paulo Sérgio Santos, 08/07/2014 – líder quilombola na Bahia – Assassinado

Simeão Vilhalva Cristiano Navarro, 01/09/2015 – líder indígena Mato Grosso – Assassinado.

Edmilson Alves da Silva, 16/02/2016 – Líder comunitário alagoas - Assassinado

José Conceição Pereira, 14/04/2016 – Líder comunitário Maranhão – Assassinado

José Bernardo da Silva, 27/04/2016 – líder do MST Pernambuco – Assassinado

Almir Silva dos Santos, 08/07/2016 – líder comunitário no Maranhão – assassinado

João Natalício Xukuru-Kariri, 19/10/2016 – líder indígena Alagoas – Assassinado

Waldomiro costa Pereira, 20/03/2017 – Líder MST Pará – Assassinado

Luís César Santiago da Silva (“cabeça do povo”), 15/04/2017 – líder sindical Ceará – assassinado

Valdenir Juventino Izidoro, (lobo), 04/06/2017 – líder camponês Rondônia – Assassinado

Eraldo Lima Costa e Silva, 20/06/2017 – líder MST Recife – assassinado

Rosenildo Pereira de Almeida (Negão), 08/07/2017 – líder comunitário/MST – Assassinato

José Raimundo da Mota de Souza Júnior 13/07/2017 – líder quilombola/MST bahia – assassinado

Fabio Gabriel Pacifico dos Santos (binho dos palmares), 19/09/2017 – líder quilombola Bahia – Assassinado

Jair Cleber dos Santos, 24/09/2017 – líder movimento agrário Pará – Assassinado

Clodoaldo dos Santos, 15/12/2017 – líder sindicalista sindipetro RJ – assassinado

Jefferson Marcelo, 04/01/2018, Líder comunitário no RJ – assassinado

Valdemir Resplandes, 09/01/2018 – líder MST Pará – Assassinado

Leandro altenir Ribeiro Ribas, 19/01/2018 – Líder Comunitário no RS – assassinado

Márcio Oliveira Matos, 26/01/2018 – líder do MST na Bahia – assassinado

Carlos Antonio dos Santos (carlão), 08/02/2018 – líder movimento agrário Mato Grosso – assassinado

George de Andrade Lima Rodrigues, 23/02/2018 – líder comunitário Recife – assassinado

Paulo Sérgio Almeida Nascimento 13/03/2018 – líder comunitário no Pará – assassinado

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