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Diferentes países, um mesmo grito contra a desigualdade

Do IHU, 08 Março 2018Por  María R. Sahuquillo, publicada por El País, 07-03-2018.



Motivos para a mobilização não faltam. No ritmo atual, levará cem anos para acabar com a disparidade entre homens e mulheres, de acordo com dados do Fórum Econômico Mundial. Um século para alcançar a igualdade de gênero no trabalho, na política, no acesso à educação, na distribuição das tarefas domésticas. Dados que, junto com a pandemia de violência contra as mulheres, estimulam um movimento mundial contra a discriminação e o machismo que nesta quinta-feira, 8 de março, às ruas. É o ano da ressaca do #Metoo, que mostrou a muitos o flagelo do machismo, mas que também revigorou os movimentos das mulheres.

Mais de 170 países convocaram mobilizações no Dia Internacional da Mulher. Alguns, como Croácia e Turquia, planejam manifestações de massa. Na Espanha, as organizações de mulheres e alguns sindicatos convocaram legalmente uma inédita greve geral de 24 horas, que o movimento feminista pede que apenas as mulheres cruzem os braços para que sua ausência seja visível. Em outros países, como a Argentina, haverá paralisações totais ou parciais em alguns setores. Até as organizações iranianas convocaram uma manifestação, apesar das proibições.

Na Polônia, onde há algum tempo paira a ameaça de que o Governo reforme a lei do abortopara torná-la ainda mais restritiva, foi convocada uma greve simbólica às seis da tarde. Nessa hora, todas as polonesas estão chamadas a sair às ruas. Também em Budapeste haverá marchas. Embora as organizações feministas não sejam tão majoritárias como em outros países, suas reivindicações são comuns a outros países europeus, com um exemplo talvez mais extremo: o Parlamento húngaro só tem 10% dos assentos ocupados por mulheres (dados do Banco Mundial), uma das porcentagens mais baixas do mundo, algo que pode mudar no próximo mês, quando as eleições forem realizadas.

A cada 10 minutos uma mulher é assassinada pelo parceiro ou ex-parceiro no mundo. Uma realidade aterradora que na América Latina, com uma taxa altíssima de feminicídios, é ainda mais grave. O movimento feminista está ganhando cada vez mais força na região; greves e manifestações foram convocadas — mais ou menos maciças — em quase todos os países.

No México, onde mais de sete mulheres são assassinadas diariamente e 23.800 perderam a vida na última década, a violência machista também dificulta o avanço do país. Por essa razão, mas também para exigir mais representação na política, o fim do assédio sexual e medidas contra as diferenças salariais, manifestações acontecerão em várias cidades.

Na Argentina, em pleno debate também sobre a reforma da lei do aborto, as organizações feministas chamaram uma paralisação do trabalho, dos cuidados e do consumo. E embora as centrais sindicais a tenham apoiado, não a convocaram oficialmente, deixando a decisão a cargo de cada sindicato. Assim, a radiografia é diversificada: o maior sindicato de funcionários públicos do país convocou uma greve de 24 horas; o de juristas chamou para paralisações parciais. No entanto, a expectativa em torno da manifestação da tarde é que atraia multidões. O slogan “nem uma a menos” voltará a ser entoado e se gritará contra os assassinatos de mulheres: foram 295 no ano passado, de acordo com a contagem feita por ONGs.

Em El Salvador, onde o aborto é proibido em todas as circunstâncias — inclusive para salvar a vida da mulher ou em caso de estupro — as mulheres sairão às ruas para exigir a descriminalização. Também o fim da violência. Estima-se que aconteçam dez agressões sexuais por dia no país.

Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, de acordo com as estatísticas. A desigualdade está muito enraizada no país, pois apesar de as mulheres terem um nível educacional mais alto, elas ganham, em média, 76,5% do salário masculino, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para erradicar essa disparidade, as organizações chamaram manifestações em mais de 50 cidades e, embora o lema da mobilização seja “Greve em 8 de março”, não são esperadas paralisações importantes, pelo menos nos serviços públicos e nos principais setores produtivos. Gritarão pela igualdade no trabalho, mas acima de tudo “pela vida das mulheres”, em homenagem às de milhares de mulheres que morrem a cada ano em consequência de abortos clandestinos — a defesa da despenalização total do aborto é uma das bandeiras — e do feminicídio, informa Marina Rossi.

No entanto, não é em todos os países que o 8 de março é uma jornada de reivindicação; embora algumas marchas específicas tenham sido previstas. Na Rússia, onde uma mulher é assassinada a cada 40 minutos e a violência machista é um grande problema, o 8 de março — dia em que tradicionalmente não se trabalha — tornou-se uma festa bastante comercial. Um padrão que se repete em outros países ex-comunistas, como a Eslováquia.

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