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Com elogios de Lula, Boulos confirma pré-candidatura à presidência

Da carta Capital, 4 de Março, 2018
por Ana Luiza Basilio



Boulos anuncia pré-candidatura pelo PSOL em chapa que terá como vice a líder indígena Sonia Guajajara

A chapa terá como vice a líder indígena Sonia Guajajara. A filiação do candidato ao PSOL é esperada para o dia 10 de março

O líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, confirmou pré-candidatura à presidência nas eleições 2018 pelo PSOL. O candidato terá como vice em sua chapa a líder indígena e coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Sonia Guajajara. A filiação oficial de Boulos ao partido é esperada para esta semana.


O anúncio foi feito no sábado 3 durante a Conferência Cidadã, em São Paulo, evento dedicado à apresentação da proposta do candidato que reuniu diversas lideranças sociais e simpatizantes à pré-candidatura. De mãos dadas com Sonia, Boulos afirmou “topar o desafio de se candidatar à Presidência”.

“Esse encontro é um retrato do que queremos, dar voz a indígenas, negros e negras, aos sem teto, artistas, mulheres, à comunidade LGBT, a toda essa gente que resiste e me inspira”, declarou. Ao falar em ousadia e coragem para tirar o País da crise e apresentar um projeto novo, o líder dos sem teto criticou duramente o governo de Michel Temer(PMDB).

“Hoje, o governo entrega e negocia nossos direitos no balcão falido do presidencialismo de coalizão. Nosso estado é voltado para o um por cento dos que detém a riqueza, é sequestrado pelas corporações. É urgente a necessidade de enfrentarmos os privilégios que fazem do Brasil um dos países mais desiguais do mundo, de resgatar a democracia com participação efetiva das pessoas”, declarou, reconhecendo que sua proposta terá como base a participação social e o diálogo com os movimentos sociais.

O pré-candidato assumiu diferenças políticas com o ex-presidente Lula, mas validou seu direito à disputa eleitoral. “As diferenças políticas não podem significar conivência com injustiça. O judiciário retirou no tapetão o candidato mais popular. Não podemos naturalizar uma condenação imposta injustamente quando os reais ladrões estão no Congresso”, condenou.

Boulos considerou grave o cenário de avanço das pautas conservadoras no País. “É grave ver ‘Bolsonaros’ sendo aclamados por defenderem pautas de tortura e extermínio, bem como o aumento da intolerância e o militarismo colocado em prática”, disse mencionando a intervenção federal proposta pelo governo Temer no Rio de Janeiro. “Ordem e paz se dá com garantia de direitos e combate às desigualdades”, defendeu.

Sonia Guajajara falou em “momento histórico” e defendeu o projeto encabeçado por ela e Boulos como uma possibilidade de reconstrução do País. “Vamos a partir da maioria, que somos nós, lutar contra as políticas de exclusão e extermínio, contra o modelo econômico depredador que temos em prática”. A pré-candidata à vice-presidência reafirmou o compromisso do projeto em dialogar com as comunidades indígenas e tradicionais, bem como com a população negra, moradores dos centros e periferias, mulheres, crianças e juventude e a comunidade LGBT.

A pré-candidatura de Boulos e Guajajara contou com o aval do ex-presidente Lula, que enviou um vídeo para a conferência. “Você sabe o quanto eu te respeito, o quanto gosto de você pessoalmente e quanto acho você uma pessoa de muito futuro na política. Jamais vou pedir para não ser candidato”, afirmou o petista na gravação.


Caetano Veloso marcou presença na apresentação da proposta A noite da apresentação da proposta de governo contou com a participação de Caetano Veloso e Maria Gadu. O cantor, que não fez nenhuma referência política em sua apresentação, já tinha declarado seu apoio ao pré-candidato Ciro Gomes (PDT). Ao tocar a música “Um Índio”, Caetano recebeu um cocar de Guajajara e, em outro momento, a bandeira do MTST de Boulos.

Também presente entre os encorajadores da pré-candidatura, o deputado estadual do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, falou sobre o “nascimento de uma nova esquerda”. “Não vamos fazer aliança para ter mais tempo de TV, vamos trazer para dentro da política quem estava fora”, colocou. Freixo também comentou sobre o possível cenário de disputa entre Boulos e Lula. “Quero o Lula candidato. Nós não temos o direito de brigar dentro da esquerda. Precisamos fazer o debate olho no olho e apresentar as contradições, até porque sabemos bem quem precisamos derrotar nesse momento”, declarou.

O escritor Frei Betto citou a importância de apoiar um novo projeto para o país, mais do que propriamente uma candidatura. “Não precisamos mais de projetos de poder. A esquerda fala ao povo, pelo povo e não com o povo. O direito do povo acaba quando se escolhe os representantes, já que não interferimos na política, que se dá descolada de sua base”, refletiu.

Ao lado da ativista Leandrinha Du Art, o deputado federal Jean Wyllys falou sobre a necessidade de resgatar “a pouca democracia que nos resta” e sobre as reparações históricas que o País tem que enfrentar, “como a herança da escravidão e a promoção do respeito e igualdade às mulheres e comunidade LGBT”.

Os arquitetos e urbanistas Raquel Rolnik e Nabil Bonduki abordaram os desafios dos pré-candidatos a partir de reflexões sobre o direito à cidade. Para Rolnik, é preciso superar a lógica das cidades como negócio, que atende a interesses de incorporadoras e empreiteiras, e reverter também a lógica da política, hoje a favor dessa dinâmica. “É preciso começar a pensar a política a partir de cada comunidade, bairro, território e favela”, declarou a especialista. Bonduki reforçou a prioridade de agendas como moradia, transporte e saneamento básico para que se efetive o real direito às cidades.

Com um diagnóstico sobre a educação, o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, elencou os desafios que recaem sobre os presidenciáveis. Cara falou sobre o descumprimento do Plano Nacional de Educação (PNE) e de alguns desafios brasileiros, como o de criar 7 milhões de matrículas nas universidades e lidar com 14 milhões de adultos analfabetos. Para o especialista, o Brasil não avançou na qualidade da educação. “E isso passa por inverter a lógica que temos, é preciso colocar a economia a serviço dos direitos sociais e não o contrário”.

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