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Boaventura Santos defende união das esquerdas como solução política para o Brasil

www.ufba,br, 15 de Março, 2018
Enviado por imprensa em 14 de Março, 2018



"É na comunicação popular que se conduz essa luta"

Para vencer o fenômeno do fortalecimento da hegemonia neoliberal em detrimento da democracia em diversos países da América Latina, entre eles, o Brasil, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, mundialmente conhecido pela defesa dos movimentos sociais, só aponta uma solução: o fim do sectarismo das esquerdas, costurado por uma política comunicação alternativa que possa ter a universidade pública como uma de suas principais interlocutoras. "Diante da ameaça à democracia, não há outro caminho que não o das ruas e, para isso, as esquerdas precisam vencer seu principal inimigo, que é a falta de união", disparou, completando: "É na comunicação popular que se conduz essa luta". Professor catedrático da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos é um dos convidados de destaque da Universidade Federal da Bahia (Ufba) na programação do Fórum Social Mundial, que se realiza até sábado em Salvador.

As palavras do mestre Boaventura selaram os debates da mesa temática "Interlocuções: universidade, sociedade, pensamento crítico e a comunicação estratégica" promovida pela Ufba, hoje (14), pela manhã, no Salão Nobre da Reitoria. Uma plateia lotava até os corredores do espaço, aguardando pela participação do sociólogo desde o início dos debates, enquanto ele se deslocava do Campus de Ondina, onde participava de outro evento também do Fórum. "A comunicação é essencial, inclusive para que estejamos cientes de que não estamos num momento de construção do socialismo, mas sim de defesa da democracia, onde é preciso resistir", afirmou, citando o exemplo do crescimento da economia portuguesa nos últimos anos, "depois que contrariou todos os argumentos neoliberais de que é preciso privatizar e promover contrarreformas", frisou.


O discurso pela união das esquerdas defendidas pelo professor Boaventura acabou integrado à defesa de uma outra importante conjunção de forças: a que envolve a comunicação e as universidades públicas, para estabelecer novos modelos de interlocução com sociedade. Esta foi uma das principais conclusões das discussões realizadas, contando com a participação dos especialistas Rita Freire, uma das organizadoras do Fórum Coletivo de Comunicação no Fórum Social Mundial; Fátima Fróes, coordenadora da Rede Mulher e Mídia; Roberto Leher, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e Antônio Andreolli, vice-reitor da Faculdade Federal da Fronteira Sul; além dos jornalistas Renata Mielli, coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, e Luis Nassif, que, referência na produção de artigos independentes. Nassif, a princípio, iria apenas assistir ao debate, pois sua participação como palestrante estava agendada para o período da tarde, mas acabou participando da mesa, a convite do reitor João Carlos Salles, diante da alta expectativa da plateia sobre as considerações do convidado,

Antiga redoma

"O papel dos jornalistas nunca foi tão imprescindível como agora", disse Nassif, referindo-se à importância dos profissionais também para provocar reflexões. Bem no seu estilo, sem papas na língua, o jornalista criticou as universidades públicas em geral "por terem ficado anos em uma redoma, a serviço das elites". Segundo ele, somente nos últimos anos algumas universidades começam a acordar para a questão. "E este foi apenas um dos motivos que não avançamos na construção de uma democracia participativa e, hoje, o fato é que para recuperarmos o tempo perdido não poderemos mais atacar o desmonte à democracia com soluções antigas, mas buscarmos novos modelos". Ele lembrou o ataque que vem sendo feito às chamadas "notícias falsas" (fake news) divulgadas pela internet. "Jogados no mesmo bolo de críticas e riscos apontados pelos representantes da hegemonia da comunicação, esconde um cerceamento aos blogs alternativos", alertou.

Fortalecer a comunicação pública, desvinculada de interesses mercadológicos, foi a tônica do discurso da jornalista Renata Mielli. Coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, ela acredita que "se faz necessária a construção de novas formas de comunicação pública que promova um debate sobre os reais interesses da sociedade". A universidade, segundo ela, precisa estar ainda mais atenta ao seu papel de promover o pensamento crítico que leve a sociedade a perceber os interesses escusos da veiculação mercadológica, independentemente de ser pelos veículos tradicionais de comunicação ou via canais e redes na internet.

Rita Freire, que integra também o Conselho da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), deu exemplo das intervenções sofridas ultimamente pela empresa pública de comunicação, criada em 2008, incorporando a Radiobras. "Mais do que nunca é importante abrir novos canais de comunicação com a sociedade e a universidade pública pode unir forças e ser uma excelente aliada nesse desafio". Já a produtora e gestora cultural Fátima Froés, da Rede Mulher e Mídia, parabenizou a Ufba pela realização do debate sobre o tema, "rompendo, assim, diversas fronteiras, inclusive com a construção do conhecimento crítico. É um momento de luta, coragem, enfrentamento e construção de novas redes", afirmou.

Estrangulamento financeiro


Para Roberto Leher, da UFRJ, o papel das universidades públicas na resistência contra as políticas hegemônicas está, duramente, ameaçado por cortes no orçamento que, segundo ele, podem, inclusive, limitar o papel das instituições na produção do conhecimento crítico e sua difusão para a sociedade civil. "O maior risco para as universidades, também nesse contexto de interlocução social, não é apenas o cerceamento jurídico, mas o estrangulamento financeiro que, da forma que vem sendo feito, não permite sequer as funções meramente vegetativas das instituições", afirmou.

O vice-reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul, Antônio Andreolli, lembrou que a instituição é a única do país que assegura 25% da participação da sociedade civil na votação para reitor e vice-reitor, além de participação cativa no Conselho Universitário. "É um avanço, assim como a Ufba avançou ao criar disciplina específica sobre o golpe de 2016, por exemplo, mas o mais importante, nesse momento, é que estamos no Fórum Social Mundial justamente para construirmos força política para avançar na defesa de uma ciência que seja engajada e emancipadora, e não reprodutora de uma hegemonia opressora". O reitor da Ufba, João Carlos Salles, que presidiu a mesa de debates, encerrou as discussões, levando a todos os participantes a uma reflexão: "Mais do que esperar, é preciso que a própria comunidade acadêmica adote, no dia a dia, uma postura de luta pelo fortalecimento da universidade pública".

Vale lembrar que os debates políticos na Reitoria tiveram também o seu momento cultural, com a apresentação do Madrigal da UFBA, um dos corpos estáveis da Escola de Musica.

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