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As mulheres no mundo da ciência. “Há preconceitos muito sérios na confraria de varões”

Do IHU, 08 Março 2018
Por Pablo Esteban, publicada por Página/12, 07-03-2018. A tradução é de André Langer.


O campo científico, historicamente, foi construído como um cenário de poder dominado por homens. O principal obstáculo, neste sentido, consiste no conhecido “teto de vidro”, o que se traduz na redução de possibilidades das mulheres terem acesso a cargos de direção, tanto à frente de laboratórios, centros ou institutos, quanto como diretoras em subsecretarias e secretarias de governo vinculadas à área.

No âmbito do Dia Internacional da Mulher, a Dra. Dora Barrancos e a secretária de Ciência de Santa Fe, Erica Hynes, contribuem com suas reflexões para desfazer sensos comuns e analisar as interseções entre ciência e gênero.

Eis a entrevista.

Vocês, que ocupam posições hierárquicas, podem falar sobre isso. Quais são os obstáculos que as mulheres enfrentam para chegar ao poder?

Erica Hynes: Há um “teto de vidro” que é palpável em todas as esferas da vida. As mulheresnão têm acesso a cargos de tomada de decisões porque existe uma distribuição desigual das tarefas familiares e domésticas. Desta forma, as cientistas que têm a responsabilidade de realizar essas atividades, assumem menos compromissos no campo do trabalho porque já têm uma enorme demanda em suas casas. Há tantos estereótipos subjacentes que a escolha entre a família ou o trabalho deixa de ser percebida como uma decisão pessoal, já que existe o risco de pagar custos sociais muito elevados. Cria-se uma espécie de autocensura e elas culminam por desistir de posições de maior poder.

Dora Barrancos: A Argentina situa-se nos primeiros lugares do mundo em termos de incorporação das mulheres na vida científica. Cinquenta e três porcento dos cientistas que trabalham no Conicet são pesquisadoras e a maioria está concentrada em áreas altamente feminizadas, como a biologia, uma disciplina que, em todo o mundo, possui uma atração particular das vocações femininas. Então acontece o que já é do conhecimento de todos: a ciência não está isenta do teto de vidro e todas precisam passar por sérias dificuldades para obter reconhecimento. Além disso, como apontou Erica, as cientistas são mães e isso as leva a não poder ignorar o papel de mãe durante a primeira fase da vida de seus filhos. Isso gera um pântano em suas capacidades produtivas.

Mas isso não se traduz em perda de qualidade em seus trabalhos de pesquisa...

Dora Barrancos: Claro, não há uma perda de qualidade, mas de quantidade, um fator que ainda é muito considerado pelo sistema de avaliação no Conicet. De qualquer forma, temos provas suficientes de que as mulheres cientistas, mesmo na maternidade, podem publicar pesquisas de alto nível.

Erica Hynes: Às vezes, parece que os papéis ligados ao lar se estendem à própria esfera científica. As mulheres acabam sendo donas de casa, mas dentro das instituições lhes são atribuídas tarefas administrativas, enquanto as políticas de orçamento são definidas pelos homens.

No Conicet foram criadas algumas propostas para tentar mitigar a desigualdade.

Dora Barrancos: É verdade. Outorgou-se mais visibilidade e maior consideração a solicitações particulares de bolsistas e pesquisadoras em relação à extensão de prazos para entregas em situações de maternidade. Antes, uma gestante acabava de dar à luz e imediatamente tinha que entregar os relatórios; hoje, ao contrário, existe a possibilidade de ampliar o tempo para as apresentações.

Quais são os preconceitos diários no campo científico?

Dora Barrancos: Há preconceitos muito sérios na confraria de varões. Felizmente, graças ao contexto em que vivemos e ao movimento social das mulheres, há uma percepção mais precisa da violência que está sendo perpetrada contra nós. Ainda precisamos fazer muita pesquisa sobre os assédios sofridos pelas bolsistas. Não me refiro apenas aos assédios de ordem social, mas também aos insultos do tipo discursivo: “Você não serve para isso”; “Você se equivocou novamente”. Os conflitos produzem uma diminuição na autoestima das pesquisadoras, que acham muito difícil resolver essas situações porque sempre se sentem desfavorecidas, já que qualquer passo em falso pode custar-lhes a carreira. Acusar um diretor representa uma dificuldade muito grande.

Erica Hynes: Muitas mulheres se sentem subestimadas quando, mesmo tendo a mesma hierarquia profissional que os homens, são convidadas a desempenhar as tarefas administrativas do grupo de pesquisa. Muitas vezes, em carreiras como engenharia, enquanto os homens desenvolvem redes de contenção quando se trata de viver suas primeiras experiências no campo, as mulheres se sentem relegadas e não participam dos laços de camaradagem equivalentes. São situações de desigualdade que às vezes se estacionam nesses pontos e outras vezes são transformadas em assédio ou violência.

Como reverter os estereótipos que nascem no jardim de infância?

Erica Hynes: Os estereótipos condicionam as nossas escolhas individuais e nos tiram graus de liberdade desde a nossa própria infância. Basta andar pelos corredores dos supermercados e observar as prateleiras: enquanto às mulheres são oferecidas atividades relacionadas ao lar e ao cuidado dos bebês, aos homens são apresentados a aventura do mundo exterior relacionada ao conhecimento, a autonomia para viajar em carros potentes, o desafio da guerra com brinquedos bélicos e os esportes. Os métodos de criação são desiguais. Também precisamos inculcar nas meninas valores como a coragem e a exploração pessoal.

Dora Barrancos: Se as professoras se convencerem da obstrução patriarcal, teremos uma revolução muito significativa. Em muitos espaços, ainda predomina a visão de que existem tarefas, vocações e funções específicas para as meninas. O horizonte social continua preso à divisão de perspectivas científicas para as mulheres e outras muito diferentes para os homens. Para além dos conflitos persistentes, sou otimista, porque avançamos muito nos últimos tempos, com gerações melhor preparadas.

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