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"Nossa aposentadoria é a nossa única garantia de futuro", diz professora

Organizado por centrais sindicais e movimentos populares, ato em SP teve a participação de cerca de 20 mil pessoas


Por Rute Pina*
Do Brasil de Fato | São Paulo (SP),19 de Fevereiro de 2018 


Ato desta segunda-feira (19) foi convocado pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo / Mídia Ninja

Há 15 dias, o motorista Edson de Carvalho Souza entrou com o pedido de aposentadoria no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Após 33 anos transportando cargas pesadas e materiais tóxicos, o baiano radicado em São Paulo comemora a chegada do benefício. "Para mim, a aposentadoria vai significar um alívio. Mas eu acredito que o pessoal mais novo não vai ter condição de se aposentar", disse.

Edson foi um dos 20 mil de manifestantes que protestaram nesta segunda-feira (19) contra a proposta de reforma da Previdência em São Paulo (SP). A estimativa de público é das Frentes Brasil Popular e Povo Sem medo, organizadoras das mobilizações, que tomaram as ruas de outras cidades pelo país.



Edson de Carvalho Souza está prestes a se aposentar. Foto: Rute Pina/Brasil de Fato

O motorista criticou o projeto de reforma do governo federal, que utiliza o argumento do déficit na Previdência para aprovar alterações nas regras para o recebimento da aposentadoria e outros benefícios. "Muitas empresas descontam da gente, trabalhadores, e não repassam para a Previdência. Eu acho que o papel do governo seria de fiscalizar as empresas", pontuou. (Leia mais: Especialistas contrapõem dados do governo sobre déficit na Previdência; entenda)

Andrea Selarin, professora da rede municipal em São Bernardo do Campo (SP), rebateu outro argumento do governo, o que o funcionalismo público é privilegiado no sistema previdenciário. "A gente contribui com 11% do nosso salário para a Previdência, não temos fundo de garantia e, por isso, nossa aposentadoria é a nossa única garantia de futuro. A gente tem que lutar para não perder esse direito", pontuou a professora.



A professora Andrea Selaria (direita) protesta com colegas na Avenida Paulista. Foto: Rute Pina/Brasil de Fato

Andrea já contribuiu 27 anos com o INSS. Hoje, ela sente que a possibilidade de receber a aposentadoria integral está ameaçada. "A vida do professor em sala de aula é muito complicada. Ele fica muitas horas em pé, tem que lidar com crianças, com impacto emocional. Não é à toa que o professor tem aposentadoria especial. Manter um professor em sala de aula até os 65 anos vai comprometer a qualidade da educação e para nossa vida pessoal também. A gente faz planos, né?", reclama a docente.

Protestos por todo o estado

O ato na Avenida Paulista integrou o Dia Nacional de Lutas contra a Reforma da Previdência, com mobilizações em todo o país convocadas pelas Frentes Basil Popular e Povo Sem Medo. Desde o início da manhã, movimentos realizaram protestos e travamentos de rodovias e estradas, em cidades de Guarulhos e São Bernardo do Campo.

Em todo o estado, o dia de paralisação teve adesão de categorias diversas, como os professores da rede estadual e municipal; metalúrgicos da região do ABC, Vale do Paraíba e Baixada Santista, químicos das cidades de Jundiaí e Campinas; bancários de São Paulo, Osasco e Região; além de petroleiros e eletricitários.
Tramitação paralisada

Durante a realização do ato, Eunício Oliveira (MDB-CE), presidente do Senado, anunciou a suspensão da tramitação da proposta, que já estava travada no Congresso Nacional por causa do decreto do governo federal de intervenção militar no estado do Rio de Janeiro — a lei afirma que não é possível alterar a Constituição Federal enquanto houver uma intervenção em curso.

Para Raimundo Bonfim, da Frente Brasil Popular, o anúncio não deve ser comemorado prematuramente, já que o presidente golpista Michel Temer já deu indícios que pode retirar o decreto para retomar a votação da reforma da Previdência.

"A qualquer momento, por iniciativa de Temer, daqui cinco dias ou mês, entendendo que ele tem os votos necessários para a proposta, ele pode extinguir o decreto e a normalidade da Câmara e Senado continua. Por isso que nós mantivemos as mobilizações do dia de hoje", explicou Bonfim.

Natália Szermeta, coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Frente Povo Sem Medo, avalia que o dia de manifestações foi importante para reafirmar a luta contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 287. Para ela, o governo está fazendo "um balcão de trocas" para aprovar a medida.

"Essa postura é absurda, própria de um governo golpista que tenta melhorar sua popularidade com uma ação populista de farda, fazendo uma intervenção militar em um estado que precisa de intervenção social. Nosso ato de hoje também é contra esse decreto", disse.

O ato na capital paulista, que teve início às 16h em frente ao Masp, o Museu de Arte de São Paulo, terminou pacificamente, por volta das 19h.

* Com colaboração de Camila Salmazio.

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