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Intervenção militar no Rio não tem lógica, aponta Avritzer

Do GGN, 18 de Fevereiro, 2018



Crise de segurança no Rio apresenta hoje dados menos alarmantes. Forças Armadas vão intervir em outros Estados com níveis piores de segurança? Tudo supõe que é uma maneira de mudar a pauta política nacional, avalia cientista político

Jornal GGN - Está cada vez mais claro que o decreto de intervenção federal (com apoio militar) na segurança pública do Rio de Janeiro pode estar sendo usado para mascarar o fracasso do governo Temer em conseguir a aprovação da reforma da Previdência no Congresso. Nesta entrevista ao jornalista Luis Nassif, o cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e colunista do GGN, Leonardo Avritzer, elenca uma série de pontos que convergem para esta análise incluindo também o esforço desesperado do governo de melhorar a imagem frente a opinião pública.

“Temer e os líderes do governo no Congresso gastaram parte do cacife para salvar o próprio Temer do processo de impeachment, além disso a proximidade das eleições preocupa parlamentares. Previdência diz respeito a um grupo muito grande de eleitores” avalia.

A apresentação surpreendente da pauta de segurança pode, ainda, ser uma estratégia para desviar o olhar do brasileiro das pautas reformistas que continuam tramitando no Congresso.


Avritzer também pondera, que diante de “uma ampla capacidade de articulação” entre Temer e o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, poderia haver um outro modelo de cooperação para a segurança pública, sem o peso de um decreto de intervenção, medida que está prevista na Constituição Federal, mas que de tão extraordinária limita ações políticas dentro do próprio Congresso.

O cientista político comenta que a impressão que se tem é que as Forças Armadas “foram pegas de surpresa”, salientando que existem pontos sob responsabilidade direta do governo federal junto ao conjunto militar que apresentam sérios problemas:

"Por exemplo, a Marinha não cumpre o papel dela de coibir o tráfico de armas pesadas que o próprio tráfico de drogas faz em toda a região da Baía da Guanabara. O Exército e nem a Polícia Federal cumprem bem seu papel de proteção das fronteiras no sentido de contrabando de armas, especialmente do Paraguai. Questões que o governo poderia atuar sem estar falando em intervenção”.

Avritzer reflete, ainda, que o Exército irá receber o comando de polícias militar e civil do Rio com sérios problemas administrativos como de carreira e salarial:

“Estudos mostram infraestrutura salarial completamente insana. No caso das polícias militares, os coronéis entre 45 e 47 anos ganham acima de 25 mil reais, e com 52 anos podem se aposentar, enquanto você tem toda a parte de baixo da corporação muito mal remunerada”, sem contar o atraso nos salários dos funcionários públicos do Estado que atinge a base da segurança pública. Todas essas, questões que se refletem no serviço público de segurança nas ruas e dentro das delegacias.

Outro ponto que chama muito a atenção para a falta de coerência da intervenção no Rio, lembra Avritzer, é o que muitos blogs de notícias têm apontado: os níveis de segurança no Rio já foram mais alarmantes do que o atual. No carnaval deste ano, por exemplo, os casos de violência registrados pelas polícias foram menores do que no carnaval de 2017.

“Se não existe emergência, porque a militarização dessa forma? Tudo supõe que é uma maneira de mudar a pauta política nacional e colocar essa pauta da segurança de uma forma muito conservadora”.

O cientista político também questiona que, se a intervenção foi decretada no Rio de Janeiro, será replicada em outros estados, como no Ceará, onde a cidade de Fortaleza “infelizmente, é mais bem localizada nos rankings nacionais e internacionais de violência, do que o Rio?” E outra pergunta importante é: “o Exército vai topar assumir esses papéis?”

Em suma, a decisão do governo Temer apenas aumenta as dúvidas em torno do cenário político brasileiro. Resta agora acompanhar com atenção os próximos passos, incluindo se o decreto de intervenção será ou não rejeitado no Congresso Nacional nas próximas duas semanas e se a reforma da Previdência será ou não suspensa.

Para Avritzer, vale destacar que alguns jornais de influência nacional, como o Estado de S.Paulo, se manifestaram neste final de semana em editorial contra o modelo de intervenção federal agora em vigor no Rio.

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