Pages

Avanço do agronegócio no Matopiba leva devastação e violência ao Cerrado

Desmatamento e queimadas para campos de soja e pasto na região fronteiriça entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, transformaram o Cerrado num dos principais emissores de gases de efeito estufa



por Cida de Oliveira, 
da RBA 23 de Fevereiro,2018


Relatório adverte ainda para o crescente domínio da região pelo mercado financeiro e a resistência dos povos tradicionais a esse processo, na luta pela própria sobrevivência e pela preservação ambiental

São Paulo – Bioma brasileiro dos mais devastados, o Cerrado sofre um desmatamento de proporções maiores que da Amazônia. Dos seus 204 milhões de hectares, 100 milhões já foram destruídos. A derrubada de sua cobertura vegetal e os incêndios alteram a paisagem, fragmentam habitats, extinguem espécies animais e vegetais, causam erosão do solo, poluem os aquíferos, assoreiam rios e desequilibram os ciclos hidrológico e de carbono, aumentando a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

Apesar da sua importância biológica e cultural, apenas 2,94% de sua área estão protegidos por unidades de conservação federais, sendo 0,92% de uso sustentável e 2,02% de proteção integral. As unidades de conservação estaduais somam 4,98% da área do bioma. Esse pouco mais de 7% de áreas protegidas não garante a preservação de sua sociobiodiversidade, já que são constituídas por um mosaico de terras públicas e privadas, sem fiscalização efetiva.

Assim é o avanço do agronegócio sobre o Cerrado na região do Matopiba, que compreende áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e onde já se derrubou aproximadamente metade da área original de vegetação nativa para abrir campo para a soja e para pasto.

O alerta é do relatório Impactos da Expansão do Agronegócio no Matopiba: Comunidades e Meio Ambiente, lançado pela ActionAid, organização que integra a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Clique aqui para acessa o documento na íntegra.


Capa do relatório, que pode ser acessado na íntegra

Visibilidade

O objetivo dos organizadores é dar visibilidade aos impactos sofridos pelo meio ambiente e pelas comunidades que vivem no Matopiba, com especial atenção aos conflitos e violências a que são submetidas as comunidades locais, principalmente indígenas e quilombolas.

O relatório chama atenção também para o crescente domínio da região por "mercados financeirizados em escala global ou que a eles servem desde o Estado, a mídia e diversos centros de legitimação de seu poder". Trata-se de fundos de pensão internacionais, administrados por grupos estrangeiros sem compromisso nem preocupação com os impactos às populações e ao meio ambiente.

E alerta principalmente para a resistência de populações tradicionais a esse processo. Ontem (22), entidades que compõem a Articulação dos Povos Impactados pelo Matopiba e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, apoiadas por movimentos e organizações nacionais e internacionais, reforçaram denúncia da crescente violência e violações de direitos às comunidades do Cerrado no Piauí que vivem na região de implementação do Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba.
Matopiba: caravana internacional denuncia violações de direitos humanos

De acordo com carta assinada pelas entidades, grupos armados têm ameaçado lideranças e moradores/as de comunidades comunidades tradicionais dos municípios de Baixa Grande do Ribeiro, Santa Filomena, Gilbués e Bom Jesus, todos em luta contra megaempreendimentos do agronegócio na região.
Medidas

Em dezembro, procuradores do grupo de trabalho (GT) Cerrado, Comunidades Tradicionais e Terras Públicas do Ministério Público Federal (MPF) recomendaram ao governo do Piauí e ao Banco Mundial para o Brasil a adoção de medidas para corrigir efeitos negativos do programa de regularização fundiária financiados pelo Banco Mundial. O objetivo é prevenir e remediar violações de direitos territoriais de povos e comunidades tradicionais. Clique aqui para acessar do documento do MPF.

"Estamos avançando no diálogo com o governo do Piauí", afirmou o procurador Wilson Rocha Fernandes Assis, que coordena o GT Cerrado. Segundo ele, a defesa das populações que há séculos ocupam esses territórios faz parte da estratégia de defesa do bioma contra o avanço da monocultura principalmente de soja e cana de açúcar. "Se tirarem essas comunidades, a soja entra", disse, destacando os prejuízos da monocultura para o solo, clima, fauna, flora e saúde humana.

"Essas comunidades estão sendo expulsas de maneira violenta. Há problema sério de fechamento de escolas rurais e dificuldades com relação à titulação coletiva de territórios, que protege essas populações de pressões de grandes grupos. Atualmente há titulação coletiva apenas para quilombolas, quando temos diversos grupos tradicionais e muitos deles exercem a posse coletiva da terra", explicou.

FACEBOOK/CAMPANHA NACIONAL EM DEFESA DO CERRADORepresentantes de povos tradicionais de áreas do Piauí dentro do Matopiba em manifestação contra a violência sofrida

registrado em: matopiba cerrado amazônia efeito estufa desmatamento popu

Nenhum comentário:

Postar um comentário