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As confissões da carne


Volume encerra 'A História da Sexualidade', de Michel Foucault, um dos pilares da filosofia contemporânea




Da Folha de São Paulo. 16.fev.2018
Por 
Vladimir Safatle

Na semana passada, as livrarias francesas receberam o último volume de um dos projetos filosóficos mais influentes do que poderíamos chamar de filosofia contemporânea, a saber, "A História da Sexualidade", de Michel Foucault.

Mais de 30 anos após sua morte, coube a Frédéric Gros a organização póstuma de "As Confissões da Carne", que deveria terminar a série de quatro livros que Foucault planejara escrever para perscrutar a maneira com que a experiência de si foi constituída no Ocidente por meio, principalmente, da relação com o sexo e o desejo.

A escritura do que deveria ser o último volume de "A História da Sexualidade" encontrava-se já bastante avançada à ocasião da morte de Foucault, em 1984. Certamente, o texto passaria apenas por revisões pontuais. Por isso, o volume que o leitor tem atualmente em mãos está longe de constituir um simples manuscrito. Ele é um livro orgânico cujos eixos estão claramente organizados, como era próprio da generosidade didática de Foucault.

Mas o que traz esse último volume de "A História da Sexualidade"? Lembremos, inicialmente, qual era o ponto de partida de Foucault. Em dado momento do século 20, ficou claro como algo de fundamental em nossas expectativas de emancipação social só poderia ser pensado se voltássemos nossos olhos ao sexual.

Nesse sentido, é possível dizer que estava claro como sexo é política, que questões maiores a respeito de nossas formas de reprodução social passavam pela crença em uma relação profunda entre sexo e verdade. Não por acaso, a política se moverá em direção a problemas relacionados às práticas repressivas, as estruturas disciplinares, à problematização das identidades de gênero, entre outros.

No entanto, havia algo de singular na maneira com que Foucault abordava esse problema. Ele começava por lembrar que nossas sociedades modernas ocidentais são as únicas que transformaram o sexo em objeto de uma ciência. Não mais uma ars erotica, mas uma scientia sexualis. A sexualidade é a experiência sexual submetida à disciplina de um discurso médico-terapêutico-científico.

Sendo assim, Foucault tentará mostrar como falar sobre sexo a partir da perspectiva de alguém que é sujeito de uma sexualidade específica, que vê sua identidade definida a partir da sexualidade que lhe é própria, será sujeitar-se a discursos sociais que procuram legitimar formas diversas de intervenção.

Caberá à filosofia entender como tais discursos foram formados, como eles demonstram a natureza produtiva de um poder capaz de produzir individualidades.

Isso nos permitirá pensar o poder não apenas como uma forma de coerção imposta que nos coage de fora, mas principalmente como um modo de produzir formas de vida, de dar forma a nossos desejos, sejam nossos desejos de normas, sejam nossos desejos de transgressões.

Dentro desse projeto, Foucault vai dedicar a maior parte de seu esforço para desvelar formas de relação ao sexo e aos desejos que estariam na base das sociedades ocidentais, mas que foram, de certa forma, esquecidas e submetidas ao modelo hegemônico de nossa sexualidade atual. Daí a ideia de voltar aos gregos e romanos a fim de redescobrir as práticas de cuidado de si que poderiam servir de fundamento uma crítica social renovada.

Nesse contexto, o último volume de A História da Sexualidade vem para explicar como o cristianismo impõe modificações importantes na concepção antiga dos prazeres de sua economia. Não será o cristianismo que criará as práticas de contenção, de verbalização, de regulação, a submissão do sexo à reprodução no interior do casamento, a importância da virgindade, que associamos atualmente, de forma tão clara, às dinâmicas de controle do sexual.

O que o cristianismo fará, e isso Foucault mostra com uma riqueza de detalhes que lhe é própria, é fornecer uma significação inédita a todas essas práticas que já eram prescritas dentro da moral estoica ou mesmo epicurista. Ele submeterá todas elas a um logos que se enuncia na natureza, na razão humana ou na palavra de Deus.

Nesse sentido, o que vemos no último volume é uma verdadeira genealogia da moralidade cristã através de seus vínculos orgânicos com o debate moral greco-romano. No que Foucault lança nova luz sobre a complexa relação entre nossas práticas ditas científicas e a moralidade própria ao cristianismo.

Vladimir Safatle

É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.

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