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Água: o alerta que vem da África do Sul, por Franklin Frederick



Do GGN, 15 de Fevereiro, 2018 
por Franklin Frederick


"Durante um cerco militar a uma cidade, um carregador de água gritava: ‘Um balde de água a 6 sols!’ Uma bomba explode e derruba um dos baldes. ‘Um balde de água a 12 sols!’ grita o carregador sem se perturbar.” Caractères et anecdotes - Chamfort (1740- 1794)

A Cidade do Cabo, capital da África do Sul com cerca de 3.700.000 habitantes, pode ser a primeira metrópole do mundo a ficar completamente sem água. Várias razões estão na origem desta situação extrema, dentre outras a falta de planejamento e de gerenciamento adequado da crise. Mas a causa principal é uma seca que já dura três anos, conseqüência do aquecimento global. No dia 11 de maio próximo, o ‘Dia Zero’, de acordo com predições do governo, caso não chova, todo o abastecimento de água da cidade, com exceção de escolas e hospitais, será suspenso. Os habitantes terão que recorrer a pontos de distribuição de água em garrafões, limitados a 25 litros por pessoa por dia. De acordo com um artigo do ‘TIME’, o anúncio do provável fim do abastecimento de água já está gerando caos na cidade e estima-se que esta crise de água venha a custar cerca de 300.000 postos de trabalho na agricultura e dezenas de milhares mais no setor de serviços, como hotelaria e alimentação. Se os trabalhadores tiverem que dedicar parte de seu tempo para ficar nas filas para obter água, o impacto na economia será ainda maior.

Porém há um setor que está lucrando enormemente com esta crise: a indústria da água engarrafada. A escassez está provocando uma verdadeira corrida aos supermercados da Cidade do Cabo, cada um procurando comprar quantas garrafas puder, como mostram as fotos no artigo citado acima. Para alívio dos consumidores, aQuelle, uma das marcas mais conhecidas de água engarrafada da África do Sul, anunciou que não aumenta seus preços desde 2016 e que tem enviado caminhões com seus produtos regularmente aos supermercados para ‘ajudar’ a cidade a enfrentar a crise...

Assim, a realidade da mudança climática no mundo do capitalismo global, acaba por beneficiar as grandes empresas do comércio de água. A crescente escassez da água contribui para aumentar o seu valor econômico. Ainda pior: estas mesmas empresas utilizam as crises hídricas cada vez mais recorrentes como meio para avançar as suas agendas de privatização e de imposição de suas próprias ‘soluções’ ao problema, se apresentando como as detentoras do conhecimento ‘técnico’, da capacidade de ‘gestão’ e da ‘responsabilidade’ necessárias para enfrentar as crises. Nessa visão, cabe aos Estados soberanos entregar o controle desse precioso recurso natural à ‘competência’ do setor privado. Que o capitalismo, sobretudo em sua versão neoliberal atual, seja o maior responsável pelo aquecimento global e suas conseqüências é um fato permanentemente ignorado.

Uma das estratégias utilizadas pelo capital nestes tempos de crise hídrica é limitar o foco de atuação ao nível dos consumidores individuais. Na Cidade do Cabo as autoridades exigem – com razão – dos cidadãos que poupem água. Porém, se isto é uma medida importante e mesmo fundamental numa situação de emergência como esta, as CAUSAS do problema permanecem intocadas. Aproveita-se de uma situação de emergência para apagar da consciência pública o fato de que, por trás da crise, há uma HISTÓRIA, um processo, e que compreendê-los é fundamental para a resolução do problema. É claro que os consumidores devem ter cuidado com o consumo de água e evitar toda forma de desperdício. Mas o que esta abordagem que se limita ao papel do consumidor / cidadão esconde é o enorme desperdício de água inerente ao próprio sistema capitalista e à organização do mercado, esse sim o maior responsável pelas sucessivas crises hídricas.

Mas, dentro da lógica capitalista, não cabe questionar a ‘sabedoria’ dos mercados que decidem sobre a utilização de um recurso natural, pois esta é, por definição, racional, assim como o sistema capitalista como um todo. Irracionais são os indivíduos, os simples consumidores a quem é imposto um sistema dentro do qual eles têm cada vez menos opções e controle. Um das principais estratégias de imposição do neoliberalismo como paradigma hegemônico na sociedade contemporânea é a criação da ilusão de vivermos em um presente permanente, sem passado, sem história, sobretudo sem alternativa. Crises hídricas como a enfrentada pela Cidade do Cabo são veículos perfeitos para a construção e imposição desta ilusão neoliberal.

Ninguém menciona o fato, por exemplo, de que a fabricação de uma garrafa PET de um litro exige três outros litros de água; que os materiais utilizados na confecção destas garrafas são derivados de petróleo e que os milhões de garrafas PET produzidos desta forma em todo o mundo representam uma contribuição significativa para o aquecimento global... Que o transporte por caminhões em todo o mundo desses milhões de garrafas também significam gastos de combustível que liberam mais carbono na atmosfera, contribuindo também para a mudança climática...

E ninguém menciona tampouco que em certos lugares estas garrafas PET são produzidas e transportadas segundo uma lógica absolutamente insana. Na Europa, por exemplo, todos os dias dezenas de caminhões transportam garrafas de água SAN PELEGRINO da Itália para a França e outros países europeus. Ao mesmo tempo, outros caminhões transportam outras garrafas de água EVIAN da França para a Itália e outros países, etc. Um gasto absurdo de recursos liberando enormes quantidades de gás carbônico na atmosfera. Se os países da Europa Ocidental levassem a sério o aquecimento global, há muito tempo que teriam banido de seus países a produção e comercialização de garrafas de água, por supérfluo e inútil. Seria uma medida simples, factível, que seria aceita e apoiada por todos os cidadãos com um mínimo de consciência. Em países como a França, a Alemanha, a Suíça ou a Itália – para citar alguns – a água da torneira é perfeitamente segura e de excelente qualidade. Se isso não pode ser feito, não podemos ter muitas esperanças de que outras medidas de diminuição de emissão de carbono na atmosfera que sejam mais complicadas, exigindo mudanças profundas na organização social e na economia, possam vir a ser tomadas.

O impacto da agricultura tanto para o aquecimento global quanto para a produção e conservação da água é imenso. Neste caso, o mercado impõe um modelo baseado na utilização de insumos, principalmente fertilizantes, também derivados do petróleo, que progressivamente destroem os solos e sua capacidade de retenção de água... Sem mencionar o uso indiscriminado, de que o Brasil é campeão mundial, de pesticidas que acabam por contaminar rios, lagos e as águas subterrâneas.

Enfim, como o filósofo marxista István Mészáros, recentemente falecido, escreveu em ‘A teoria da alienação em Marx’:

“Outra contradição básica do sistema de controle capitalista é que este não pode separar ‘avanço’ de destruição, nem progresso de desperdício – não importa o quão catastróficos sejam os resultados. Quanto maior o poder de produção liberado pelo capitalismo, mais destruição é igualmente liberada; e quanto maior o volume de produção alcançado, maior a montanha de dejetos sufocantes produzidos enterrando todo o resto. O conceito de economia é radicalmente incompatível com a ‘economia’ da produção capitalista, a qual, necessariamente, acrescenta injúria à ofensa ao explorar vorazmente os limitados recursos do nosso planeta para depois poluir e envenenar o meio ambiente com sua produção massiva de dejetos e efluentes.”

Algumas grandes cidades que poderão enfrentar séria falta de água no futuro próximo são Melbourne na Austrália, Jacarta na Indonésia, a Cidade do México e, claro, São Paulo. Um terreno fértil para o avanço das ‘soluções’ do capitalismo neoliberal. Estas cidades, por sua vez, acabam por exercer uma enorme pressão sobre o seu entorno, sobretudo sobre o meio rural, na busca desesperada de obter água para o seu consumo. Intensificam-se assim os conflitos entre o meio urbano e rural, bem como a destruição da natureza, já que as megalópoles são obrigadas a buscar água em regiões cada vez mais distantes, privando estas de seu acesso a este recurso, danificando ecossistemas inteiros.

É a ameaça que paira, por exemplo, sobre a região do Circuito das Águas em Minas Gerais, talvez a região com maior diversidade em todo o mundo de fontes de água mineral. Mais ou menos eqüidistante das três maiores capitais brasileiras – São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, as águas desta região são cobiçadas por empresas privadas que prevêem lucros fáceis e exorbitantes vendendo água para estes sedentos grandes centros urbanos. A Nestlé já é proprietária do Parque de Águas do município de São Lourenço, detendo o direito de explorar e comercializar a água de suas fontes. As cidades vizinhas de Caxambu, Cambuquira e Lambari – além de outros municípios menores – ainda preservam suas águas como bem público. Há um forte movimento local contra a privatização da água e a luta que se dá ali deve ter o apoio e o respeito de todos, pois trata-se de uma região com qualidades únicas. Aos olhos da exploração capitalista, a especificidade de cada fonte de água mineral, seus usos terapêuticos, sua importância para o ecossistema local, seu valor cultural, histórico, etc., desaparecem, restando apenas a água como ‘commodity’.

O auto-proclamado ‘Conselho Mundial da Água’, que reúne as grandes empresas privadas de distribuição de água e saneamento, junto com o Water Resources Group – a iniciativa da Nestlé, Coca-cola e Pepsi – são os poderosos lobistas internacionais dispostos a impor a sua agenda de privatizações e ‘soluções’ de mercado aos problemas relacionados com a água. Eles estarão presentes em março próximo no Brasil, em Brasília, por ocasião do ‘Fórum Mundial da Água’. O Diretor Executivo do Fórum, Ricardo Andrade, que também é Diretor de Gestão da ANA - Agência Nacional de Águas – deu recentemente uma entrevista em que, a exemplo das autoridades da Cidade do Cabo, chama a atenção para a necessidade da responsabilidade dos consumidores individuais.

Mas nenhuma palavra na entrevista sobre a responsabilidade do setor privado na origem dos diversos problemas que enfrentamos, nem na necessidade de mudar o próprio sistema econômico se pretendemos DE FATO resolver os prementes problemas relacionados com a água no mundo. Só no Brasil, segundo um estudo publicado em 2016, os conflitos por água aumentaram em 150% em cinco anos.

Em todo mundo estes conflitos aumentam e tendem a se tornar cada vez mais violentos. Segundo o World Resources Institute, aproximadamente 3.5 bilhões de pessoas sofrerão com escassez de água no ano de 2025. Com o capitalismo neoliberal em guerra contra o planeta e a sociedade, nada há a esperar por este lado. Ao contrário, este é justamente o principal problema!

Uma preocupação central das autoridades da Cidade do Cabo na situação atual é com o caos e os possíveis conflitos violentos dentro da cidade com a situação de abastecimento de água deteriorando a cada dia. Neste caso, uma medida possível seria o reforço policial ou mesmo o envio de forças armadas para conter a população. Porém, medidas como esta podem ser facilmente tomadas também como meio de impor decisões antidemocráticas favoráveis ao mercado e contra a sociedade e o bem comum. Na verdade, faz parte do planejamento estratégico neoliberal contar com o caos provocado por crises hídricas ou outros eventos extremos ligados ao aquecimento global para impor suas políticas. Manipulado pelo grande capital, a mudança climática pode ser um instrumento poderoso de reversão de direitos e conquistas da democracia, destruição do bem comum e privatização da riqueza pública. Isso é algo que não podemos permitir.

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