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A memória da memória: “O Crucificado”

Hoje resolvi abrir espaço para este poema, "O crucificado", de meu amigo Emanuel Medeiros Vieira.



Do Blog da Boitempo, 9 de Fevereiro, 2019


A memória tem direito à memória. Assim como o direito básico é o direito a ter direitos. Coisa que hoje este desgoverno infecto de Michel Temer procura negar às brasileiras e aos brasileiros, excetuando aquela minoria para quem o Brasil tornou-se um “auxílio-moradia” e que tem como ideal na vida fazer compras em Miami.

Da mesma forma, durante décadas negou-se a milhares de brasileiros o direito à memória. Acabo de assistir ao documentário O processo, de Maria Augusta Ramos, sobre o kafkiano impeachment de Dilma Rousseff, em pré-estreia para a imprensa em Berlim, e ali um dos momentos mais pungentes é o depoimento da Presidenta (jamais ex-, até uma próxima eleição legítima) sobre o tempo em que, na prisão, ouvia falar que no nosso país “não havia presos políticos”. Ouvi sua lembrança de como a primeira luta era pelo direito de “existir”. E quem não lembra da sua famosa foto, altaneira, impávida, enfrentando aqueles juízes que covardemente ocultam o próprio rosto?

Por estas e por outras hoje resolvi abrir espaço para este poema, abaixo, de meu amigo Emanuel Medeiros Vieira. Emanuel, amigo de mais de 50 anos e alguns jesuítas (cursamos juntos o Colégio Anchieta, em Porto Alegre), escritor, poeta, insular amante da sua Florianópolis, vive hoje em Salvador. E de lá, quem sabe inspirado também pelo nome da cidade, me enviou este poema em que, pela primeira vez fala de sua passagem pelo DOI-CODI, em S. Paulo. Num ato de coragem, fala daquilo de que nunca falou. Até hoje. Ouçamo-lo.

Crucificado

Emanuel Medeiros Vieira

Em memória do José, meu irmão e padrinho de Batismo.
Em memória de Luiz Travassos, com quem tentamos e outros éticos companheiros refundar ou deixar as sementes de um Projeto Humanista para o Brasil.
Para todos os amigos que, em maio de 1968, há 50 anos, estavam nas ruas de maio.

Terá valido a pena o sacrifício do Crucificado?

Outrora, agora – sempre?

Na sala nano muito grande, papeis na mesa.

Havia uma “cadeira do dragão” (lembrava os antigos assentos de barbeiros, pesados e de madeira, com uma cobertura de zinco, ligada a um regulador de voltagem): sentiam-se os choques no corpo inteiro – era muito fácil um cardíaco morrer ali.

O instrumento era mais utilizado quando o interrogado não falava “apenas” com choques elétricos nas mãos, no pênis, etc.

Passara o ritual (para mim foi o primeiro) dos choques nas mãos, nos ouvidos e o “telefone”: tapas com as mãos abertas nos ouvidos. Tímpanos eram rompidos ali.

O militar sem farda olha o Crucifixo na parede.

E diz: “pede pra Ele”.

Olho: o militar sem farda, o Crucifixo.

“Pede pra ele” – insistiu.

Ele cortava as palavras, abolia sujeitos, predicados, verbos: só interessava a eficácia (a lógica do Processo).

O homem sem farda queria que eu apelasse ao Crucificado para que “a cadeira do dragão” não fosse ligada, que fosse cessada a tortura (mas essa palavra eles nano gostavam de usar).

“Ele te salvará?”, perguntou, com um sorriso cínico.

Cristo quieto na parede.

O homem musculoso ligou a máquina: gritos, mais gritos, só gritos.

Ouviam-se berros vindos das salas vizinhas. As celas eram no térreo.

Um minuto (creio) parecia uma hora, ou a eternidade toda.

(Eu sabia: deste lugar comum eu não conseguiria escapar).

Por que não morrer?

Eram equipes diversas: entrava uma, saía outra.

Eles enxugavam-se com toalhas.

Quem me interrogava agora tinha cabelo escovinha.

Quanto tempo aguentarei?

O Crucificado continuava em silêncio.

Escutei barulho de carros, pneus rangendo.

Alguém – me informaram – havia morrido.

O médico calculara mal.

Havia um médico e o chamavam de vez em quando.

Ele pega um aparelho e, curtamente, dizia: “Esse aguenta mais um pouco”. “Esse este no limite”.

Um guarda no térreo (eu estava no primeiro andar) berrava eufórico: gol do Corinthians!

Operação Bandeirantes (OBAN), rua Tutóia, Bairro Paraíse, São Paulo.

Departamento de Operações de Informação (Doi).

Centro de Operações de Defesa Interna (Codi).

Sim: o bairro chamava-se “Paraíso”.

Havia alguns homens com fardas, fios ligados e aquela cadeira enorme.

(Não, não era tão grande assim. Agora me parece. Faz 48 anos.)

“Um cardíaco já morreu aqui”, contou o chefe de uma equipe.

A quem mais odiavam?

Prestes e Lamarca: vieram de suas entranhas – o Exército.

Textos meu em cima da mesa: havia um panfletário e violento texto meu contra a morte do estudante Edson Luís de Lima Souto (1950 – 1968),

assassinado pela Ditadura no “Calabouço”, no Rio de Janeiro.

Escrito no jornal do “Centro Acadêmico André da Rocha”, Faculdade de Direito da UFRGS.

Eles só pediam um nome: de alguém que estava fugindo para o Uruguai, mas eu calculava que o companheiro ainda não tinha chegado lá.

Era preciso aguentar mais um pouco.

Não sei se conseguiria – estava um bagaço. Pensava: eu já estava morto? Me levaram para a cela, sentia-me cego, sangue escorrendo por todo lado – e sempre há um pior do que o outro – um agente jogou um balde d’água no meu corpo…

Havia na cela mais uns sete ou oito presos.

Alguém improvisou um curativo para mim. Queria ter guardado o seu nome.

Na transferência da OBAN para o DOPS – 19 de dezembro de 1970 – pessoas faziam compras de Natal.

“Saiam da frente, são terroristas!”, gritavam os agentes, e as pessoas nos olhavam horrorizadas.

Um agente (naquelas caminhonetas), no transcurso da OBAN para o DOPS, disse: “Não temos nada contra vocês. Se a revolução de vocês ganhar, pagando bem a gente bate também naqueles que vocês mandarem”. Acreditem: certa vez, quando estava sendo torturado, lembrei-me de T. S. Eliot (1888 – 1965): “Mas aquilo que apenas vive/Pode apenas morrer”.

Eu sei: lembrar-se de versos na hora da pancada soará inverossímil. Mas quero o “sumo do sumo”: a verdade.

Mas foi o que me salvou: a Verdade, os Versos? Certamente, os dois.

O Crucificado? Eu não sei se Ele ainda está lá, se existe aquela sala, se aquilo tudo foi demolido, se as pessoas que estavam comigo na cela jeca morreram, como os torturadores –para que serviria aquela construção agora? Uma Delegacia de Polícia?

Pude dizer o nome que eles queriam: ele já vai chegado ao Uruguai.

Como calculei? A gente sabia.

Para eles, eu agora era um trapo inútil, mas com processo nas costas, e eu precisava continuar a viver.

Repito: faz 48 anos.

(Anos mais tarde, ouvi Vandré e Gardel, lembrando-me daqueles dias da minha juventude: a minha, com 25 anos).

Não sei: por que resolvi ouvir Gardel?

O Crucificado? Perdi-o de vista. Talvez esteja numa igreja velha.

(Salvador, janeiro de 2018).

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Seu mais novo livro é O legado de Capitu, publicado em versão eletrônica (e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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