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"O estigma que a maconha carrega é fruto de propaganda e não dos fatos"

Baseado no Uruguai, dono do serviço de assinaturas 'Canabista' critica guerras às drogas e preconceito com empreendedores


Da Carta Capital, 28 de Janeiro, 2018
por Tory Oliveira


Nanda Godim
'Não trabalhamos com aditivos, nem com produtos ilícitos', explica Rossatto sobre os kits comercializados

É de Montevidéu, no Uruguai, que o empresário Jonas Rafael Rossatto, de 29 anos, comanda o Canabista, serviço por assinatura que entrega no Brasil kits mensais com produtos (legais) selecionados por influenciadores do universo de consumidores de maconha.

Após escolher pacotes que variam entre 9,90 reais e 98 reais, os assinantes recebem em casa discretas caixas com sedas, manuais e acessórios. Com três meses de vida, o serviço tocado por Rossatto e outros dois sócios conta com 150 assinantes, com idades entre 18 e 58 anos.

"Sempre explicamos que não trabalhamos com aditivos, nem com produtos ilícitos. Tudo tem nota e está nos conformes da lei", explica ele, que também é ativista pela descriminalização da maconha no Brasil e já participou de debates no Senado defendendo este ponto de vista.

"De um lado temos pessoas com pouca argumentação que estão cheias de certezas vazias, que são os proibicionistas. Do outro, pessoas cheias de argumentação e que continuam se questionando, mas não se manifestam", critica.

Confira a entrevista:

CartaCapital: Como surgiu a ideia de criar o Canabista? Quem é o público que assina os kits?

Jonas Rafael Rossatto: Eu trabalho com o universo canábico há um bom tempo e, nesses últimos anos, apareceu muita gente explorando o mercado. É o caso da "seda" (papel para enrolar). Muita gente importa/produz na China e em outros países. No entanto, esses produtos são mais nocivos à saúde por causa do tratamento com cloro.

Além do fato de o usuário não dar a devida atenção à qualidade do papel, o alto custo nos quiosques, postos de conveniência e headshops também gera um problema para bastante gente. Isso fez surgir no Brasil uma gama de produtos falsificados. Foi então que surgiu o Canabista: para dar uma opção fácil para quem quer qualidade e custo benefício.

A ideia inicial do Canabista era levar seda de qualidade, redinhas para dar manutenção no bong/pipe e uma cartilha de redução de danos. Afinal, queríamos que as pessoas entendessem as vantagens do produto que estão recebendo. Logo depois de fazermos o piloto, descobrimos que poderíamos incluir mais novidades sobre o mercado canábico, fazer uma curadoria com influenciadores e muitas outras coisas, até jogos.

CC: Quem são esses influenciadores?

JRR: Nas edições passadas contamos com a participação do "THC Procê" (Youtuber que fala sobre cultivo, com 54 mil seguidores) e Paulo Dubmastor (do Cidade Verde Sounds, com mais de 1 milhão de seguidores). Na edição do mês de janeiro será a Camila Fudissaku (designer, que colabora com revistas Trip, TPM, entre outras).

CC: Hoje você mora no Uruguai, que costuma ser considerado um exemplo de modelo de legalização para muitos defensores do tema no Brasil. Como é a vida de um empreendedor canábico onde a maconha é legal? Que diferenças você vê entre a realidade lá e a brasileira?

JRR: As diferenças começam na rotina. Aqui no Uruguai dá pra levar uma vida mais tranquila, não preciso me preocupar se a concorrência ou os conservadores vão me denunciar por plantar cannabis, já que eu posso ter registro como cultivador.

Sobre o mercado canábico daqui do Uruguai, estou no processo de entendê-lo, fazendo levantamento dos dados científicos sobre como a legalização e a lei estão sendo reguladas, sobre o consumo, registro e a demanda para trazer o Canabista para cá. E também estou trabalhando em outro empreendimento legal, destinado a turistas brasileiros.


Kits distribuídos pelo Canabista: planos variam entre R$ 9,90 e R$98

Sobre diferença prática, eu diria que é a lei. Mudar de país implica entender outras leis. É o caso das aplicações de leis tabagistas ou de acessórios fumígenos por exemplo, que após a legalização passam a valer para esse mercado. A principal diferença do Uruguai é a cultura, você percebe que as pessoas sempre foram razoáveis com diversos temas polêmicos ao longo da história.

Um bom exemplo de decisão excepcional foi quando a Phillip Morris perdeu um processo por tentar derrubar a lei antitabaco, visto que o Uruguai não permite propagandas de cigarros em lugar algum, nem mesmo de "seda" para enrolar.

Já no Brasil, temos um governo que quer proibir a maconha e não tem nem planos pra vetar comerciais de cerveja ou outras bebidas alcoólicas, que são a causa de aproximadamente 80 mil mortes por ano na América, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Com o agravante de que o Brasil é o quinto país com maior número de óbitos ligados ao consumo de bebidas.

CC: Estima-se que no Brasil o comércio formal da maconha movimentaria cerca de 5,7 bilhões de reais por ano. No entanto, estamos vivendo um momento mais conservador nesta questão, com ministros do STF que se declaram abertamente contra a legalização e com o ministro do Desenvolvimento Social e Agrário criticando os processos de legalização no Uruguai e no Colorado. Como você vê o horizonte para um mercado legal de cannabis no Brasil?

JRR: Em 2012, os pesquisadores da Unifesp apontaram que no Brasil há 1,5 milhões de pessoas que usam maconha diariamente. Em uma pesquisa do portal canábico SmokeBudcom mais de 15 mil usuários, descobrimos que em média as pessoas consomem 25 gramas (aproximadamente 100 reais) a cada duas semanas.

Fazendo um cálculo básico, percebemos que circulam no mercado ilegal mais de 3 bilhões de reais por mês: dinheiro que o Brasil não vê. Isso sem levar em conta o fato de os dados serem um "falso-positivo". Ou seja, tem muita gente que fuma, mas que diante da lei que criminaliza, responde que não fuma. E sem contar que o comércio de produtos legais relacionados a cannabis já gera muito dinheiro.

No entanto, para muitos isso [o comércio de produtos legais] é apologia e não uma oportunidade para empregar brasileiros e gerar impostos para saúde, educação e cidadania.

Falar da descriminalização, legalização e regulamentação ainda é complicado no Brasil, principalmente porque muitos não acreditam no próprio País e não aceitam mudanças.

Nosso governo vai de mal a pior, temos tantos ministros e deputados cassados, a maioria que compõe o cenário político é investigada por corrupção e não inspira confiança. E nesse cenário de incertezas o conservadorismo prospera.

O povo ainda tem uma visão muito errada do que é ser conservador, e muitas vezes confunde valores e tradições que vêm de casa, da família, com tomar decisões que inibem liberdades individuais. O conservadorismo é o principal inimigo do progresso.

Pouco a pouco, as pessoas vão percebendo que o estigma que a maconha carrega é fruto de propaganda e não dos fatos, mas a falta de debate sobre o tema faz com que as mudanças demorem muito mais.

Deveríamos pensar mais no bem estar social como um todo, e parar de tentar controlar o que só diz respeito a pessoa, mas encontramos resistência em todas as instâncias, inclusive de pessoas que, na teoria, estão posicionadas para melhorar nosso convívio, mas acabam criando ainda mais dificuldades.

É o caso do atual ministro do desenvolvimento agrário, Osmar Terra (PMDB-RS), que quando era deputado chegou a ir até o Uruguai e tentou frear a legalização na sessão da Comissão de Saúde Pública do Senado uruguaio. Esse mesmo senhor já apresentou um projeto de lei que endurece a pena para traficantes, seguindo o círculo vicioso das medidas paliativas, e propôs também a regulamentação das internações voluntárias, involuntárias e compulsórias (junto com Ronaldo Laranjeira).

CC: Você participou de uma audiência pública no Congresso sobre os impactos da legalização. No início de sua fala, você aponta a importância dos defensores da legalização participarem do debate público. Qual é a importância de usuários e defensores da cannabis se posicionarem pública e politicamente?

JRR: A importância é extrema, de um lado temos pessoas com pouca argumentação que estão cheias de certezas vazias, que são os proibicionistas. Do outro, temos pessoas cheias de argumentação e que continuam se questionando e que não se manifestam.

Está na hora destas pessoas amparadas por argumentos serem mais participativas nas nossas políticas sociais. Puxar a fila, participar da mudança. A essência da democracia é acatar a decisão da maioria, então tem que haver participação, por que não vai cair um anjo do céu e mudar as coisas como um milagre. Quem faz a política é a parte da sociedade que participa.

CC: Na sua opinião, os canabistas estão saindo mais do armário? Isto é, há mais pessoas dispostas a dizer que fumam?

JRR: Sim, com certeza os usuários estão dando mais as caras. Com esse "green rush" [corrida verde] vemos usuários encontrando mais argumentações relacionadas a cannabis, de forma medicinal, social, sócio-econômica e até mesmo religiosa. Temos usuários usando roupas, acessórios, e escutando músicas sobre o tema.

As redes sociais foram um grande passo para mostrar que ninguém estava sozinho. Também há o fato de que a violência contra os usuários de maconha segue agravando-se. Muitas pessoas cansaram de ficar sem saída, e essa repressão as levou a expor esse problema que deveria ser questão de saúde pública, não criminal.

CC: Ao mesmo tempo, ainda há muita resistência a respeito do tema: Dois em cada três brasileiros adultos (66%) declararam que fumar maconha deveria continuar sendo proibido por lei segundo o Datafolha. Apesar do número ser alto, é o menor da série histórica. Na sua visão, quais são os entraves para um melhor debate sobre a legalização no Brasil? Por que fumar maconha ainda é um tabu para a maioria?

JRR: Acho que para compreender melhor esse problema precisamos olhar para a herança do Brasil colônia, que se estendeu até 1800. Somos um país jovem, com uma democracia mais jovem ainda, é natural que o progressismo encontre muitas barreiras, sobretudo pela falta de debate.

A maior parte do Brasil ainda é muito mal informada, somando a isso a falta de engajamento e a resistência contra mudanças, o panorama é de um conservadorismo velado que não se altera com fatos. É uma tarefa árdua mudar a cabeça da população, sobretudo de pessoas mais velhas.

Os problemas que enfrentamos com política hoje são reflexos da falta de diálogo, de levar decisões públicas no "piloto automático" e votar em candidatos mais pela pressão midiática do que pelas propostas.

Com a legalização é a mesma história, ninguém procura saber quais são os benefícios e malefícios da maconha, seguem um modelo de pensamento de décadas atrás, e muitos sequer fazem comparações imediatas, com o álcool, por exemplo.

Se o álcool fosse alvo da mesma cruzada moralista que persegue a maconha, o alcoolismo sofreria um duro golpe. Mas o brasileiro não exercita o senso crítico, a maioria prefere informação mastigada e opiniões prontas.

CC: Na sua opinião, ainda há preconceito contra negócios como o Canabista? Que tipo de crítica você costuma receber? Como responde a elas?

JRR: Há um enorme preconceito não só no Brasil, mas no mundo todo. Já fomos expulsos de bancos americanos por não poder ter absolutamente nada relacionado a cannabis, mesmo que acessórios não seja ilegal. Também já conversei com muitos canabistas famosos, como músicos, comediantes e atores, que não querem participar e nem mesmo dar uma entrevista para não perder 50% da fatia do mercado.

O contratante não vai chamar pro comercial quem participa desse meio. Você pode até cantar sobre, fazer piada sobre, mas falar de maconha é falar do lado particular da celebridade, e há muita gente que não está disposta a abrir esse diálogo.

Do outro lado existem grandes players tabagistas que atuam no mercado canábico, mas não querem ser notados no segmento canábico - o que faz com que o segmento seja fraco e quase não exista.

No Canabista tem muita gente que fica com receio de assinar achando que um policial vai levar o kit em casa. Mas sempre explicamos que não trabalhamos com aditivos, nem com produtos ilícitos. Tudo tem nota e está nos conformes da lei.

Sempre haverão críticas, mas sempre tentamos resolver da melhor forma e traduzir isso de forma a provar o potencial econômico para quem está assinando, para quem está participando e para quem está aparecendo na curadoria. Tentamos criar o cenário que se esse mercado empregar mais gente, a proibição e a lei vão mudar.

CC: Quais são as consequências, na sua opinião, do modelo de “guerras às drogas” ainda vigente no Brasil?

JRR: Já fazem 47 anos desde que o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, declarou guerra às drogas e o mundo seguiu o exemplo. De lá pra cá, muitos já apresentaram dados para mudar essa política falha, mas continuamos adotando o mesmo modelo paliativo.

Isso faz com que seja desperdiçado dinheiro, tempo e treinamento para prender pessoas que estão exercendo sua liberdade de escolha. Se usar drogas faz mal, isso é uma questão de tratamento, não de encarceramento, visto que não há dano nenhum a terceiros.

Isso também contribui para a superlotação das cadeiras. Deveríamos colocar na cadeia quem realmente deveria estar lá, como corruptos, bandidos e criminosos de alta-periculosidade. Sempre tivemos uma grande lavagem de dinheiro para controlar a nossa administração pública, que só enxuga o gelo.Devíamos olhar para países como os Estados Unidos, que tem a maior população carcerária do planeta, e aprender com os erros deles.

No fundo, toda a questão de segurança pública depende do mesmo remédio: educação e distribuição de renda. O sistema penitenciário hoje no Brasil só contribui para que o detento mergulhe ainda mais no crime. É um sistema puramente punitivo, que ao invés de reabilitar, acaba com a vida do cidadão.

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