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Lula e os mercados

Do Blog da Boitempo, 26 de janeiro, 2018
Por Edemilson Paraná.

"Sob o curto-prazismo rentista só o presente, ou melhor, a antecipação do futuro no presente, é o que de fato importa. Receosos da radicalização política em nossas próprias fileiras, acabamos vítimas da mais regressiva forma de radicalização política daqueles “adversários” que tratamos com moderação."

Lula discursa no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC durante o julgamento de segunda instância. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo


Lula condenado. Bolsa em alta. Dólar em baixa. Em busca de ganhos especulativos instantâneos, a finança expressa, mais uma vez, seu apoio a um acontecimento político. Por mais óbvia que pareça a um primeiro olhar, não deixa de causar certa espécie a relação de amor e ódio, tapas e beijos, entre Lula e o dito “mercado” – essa entidade, ao mesmo tempo, nebulosamente suprassensível e prosaicamente concreta. É que em tempos como o nosso, compreender o óbvio não é tarefa qualquer. Vejamos.



Depois de uma ruidosa birra nas eleições de 2002, e no período imediatamente anterior à posse de Lula – quando a bolsa despencou, o dólar disparou e um ensaio de pânico se instalou –, um estado de boa-vontade enfim se alojou entre as partes nos anos seguintes. Não sem antes, sabemos, da divulgação da carta ao povo brasileiro e de um beija-mão dos Capas petistas aos “senhores do universo” em Nova Iorque e Washington. Claro que a crise política do mensalão, entre outros episódios políticos indigestos, demonstra que não foram apenas flores. Mas, ironicamente ou não, foi justamente sob Lula que esse mesmo “mercado” viveu seus tempos áureos nas últimas décadas.

Sabemos como e porque isso se deu. Para além de uma maré internacional venturosa, as estruturas mais profundas do arranjo rentista que há décadas pilha e governa o país – metas de inflação arrancadas pelo tacão de uma escandalosa taxa de juros, câmbio flutuante e superávit primário – foram mantidas com disciplina régia, ao que se temperou com uma reforma da previdência e outras medidas de austeridade. As benesses foram abundantes. Lula não mente ao dizer que foi precisamente em seus governos que os nossos senhores da finança mais ganharam: entrada de capital estrangeiro em patamares elevados – com afluxo para o financiamento da dívida pública e a diversificação do mercado de capitais –, ganhos financeiros reais crescentes em moeda forte, queda do risco país e conquista do investment grade, aumento sem paralelo das operações de abertura de capitais na bolsa (a afamada “era dos IPOs”), crescimento no número de investidores individuais, ganhos financeiros recordes. Tudo somado, as correias e engrenagens do hipermoderno “Brasil Delivery” – essa imponente “plataforma de valorização financeira”, nas palavras da professora Leda Paulani – foram colocadas para girar em altíssima intensidade. No mais, a história é conhecida.*

O fato é que, a despeito disso tudo, Lula volta a ser, ou segue sendo, o espantalho da banca, “aquele cujo nome não deve ser nomeado” nos edifícios reluzentes do Itaim-Bibi. Ódio de classe, preconceito puro e simples contra o que representa o ex-presidente para a multidão de pobres brasileiros? Ainda que joguem seu papel, essas não são, em si, as razões últimas daqueles que não tem outra fé ou ideologia que não o dinheiro.

A finança, enquanto bloco político e econômico, é o que vem construindo e sustentando materialmente as reais pontes entre economia, política e sociedade no Brasil nas últimas décadas. Para além de expressar um querer e um dizer político bastante coordenado, tem sido capaz, e eis o fundamental, de determinar os limites do bem-estar social a cada momento, o horizonte material de possibilidades dentro do qual todos devem disputar seus anseios políticos, “respeitando as (suas) regras” (e não deixa de ser irônico falarmos em “respeito as regras” neste momento). Se a banca decreta, em seu próprio benefício, que “acabou a festa” dos demais, então todos se apressam em repetir: “acabou a festa” – a despeito, naturalmente, de sua própria esbórnia se apresentar sempre como a ordem natural das coisas.

Eis, portanto, o centro político, é preciso ficar claro, de onde emanam todas as medidas regressivas atualmente implementadas no Brasil: não pode haver atividade social e política neste país à parte das finanças e seu impacto, que ignore a reconfiguração das estruturas econômicas e ideológicas dirigidas pelo setor financeiro globalizado.

Trata-se da expressão política concreta do casamento entre neoliberalismo e financeirização, um modo de regulação social em que as liberdades privadas crescem na exata medida da diminuição das liberdades públicas e sociais. Um mundo em que os mercados regulam e disciplinam a sociedade e o Estado, e não o contrário. Um mundo, em resumo, em que a ameaça constante de tragédia econômica representada pelo livre fluxo de capitais faz parecer brincadeira de criança os lockouts e greves capitalistas do passado.

Que Lula esteja sendo condenado sem provas, e seja impedido de concorrer à presidência, apenas reforça esse ponto. Não há pacto social possível com este setor. Mudadas as condições econômicas e políticas gerais (internas e externas), esvanecem-se o que se concebeu serem pactos e lealdades políticas de outrora. E nenhuma nomeação apressada de ministro banqueiro, ou estelionato eleitoral, poderá nos salvar. Sob o curto-prazismo rentista só o presente, ou melhor, a antecipação do futuro no presente, é o que de fato importa. Receosos da radicalização política em nossas próprias fileiras, acabamos vítimas da mais regressiva forma de radicalização política daqueles “adversários” que tratamos com moderação.

Que haja, neste episódio, uma grande dose de preconceito e ódio social por parte de uma elite mesquinha como brasileira, não é de se duvidar. Mas, sob pena de não enfrentarmos o óbvio, é preciso afastar como causa última o atavismo, a ignorância e a burrice dessas elites – aquelas, se tem dito, que insensatamente jogam fora a oportunidade de mediação e moderação que beneficiaria a elas mesmas em última instância. Ledo engano. A racionalidade do 1%, no Brasil e no mundo, é apenas e tão somente de primeira instância. Que Lula, o PT e os setores progressistas brasileiros venham a percebê-lo apenas agora diz muito sobre a natureza ingênua e ilusória de suas projeções e expectativas.
Notas

* É evidente que o mesmo período foi marcado por certa retomada do investimento público em geral, e em infraestrutura, em particular; pelo incentivo à formação de cadeias produtivas, como por exemplo, nos setores naval, petroquímico e construção civil; por uma estratégia debilmente coordenada de inserção internacional de grupos empresariais brasileiros (acompanhada de uma nova diplomacia), por programas e políticas moderadas e focalizadas de assistência e redistribuição social, por investimentos crescentes no acesso (público e, sobretudo, privado) à serviços saúde e educação e, o mais importante: por aumentos reais no salário mínimo e no acesso ao crédito popular. Mas isso se deu, também sabemos, sob a direção e controle da mesma finança, algo relacionado, ademais, a um processo profundo de desindustrialização, financeirização, e aprofundamento da condição primário-exportadora. A desigualdade econômica, dados atualizados provam, subiu. As estruturas produtivas, em suma, se mantiveram, grosso modo, as mesmas.

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Edemilson Paraná entrevistou, junto com Gustavo Capela, o marxista paquistanês Tariq Ali para a nova revista da Boitempo, a Margem Esquerda n.29. Volume temático dedicado à questão indígena, a edição conta com um dossiê sobre “Lutas indígenas e socialismo” coordenado por Silvia Adoue, composto de artigos dela, de Jean Tible, de Laura Zúñiga Cáceres e de Gabriel Moraes Ferreira de Oliveira, e textos de Luiz Bernardo Pericás, sobre a questão agrária no Brasil hoje e de Marina Ghirotto Santos sobre o “bem viver”. A seção clássico traz uma preciosa reflexão de José Carlos Mariátegui sobre a questão indígena. A seção de poesia traz um poema de Carlos Federico Abente Bogado, traduzido e selecionado por Flávio Aguiar. Na seção de imagens, coordenada por Sergio Romagnolo, a artista convidada é Regina José Galindo. A revista ainda conta com artigos de Marcio Pochmann, Marco Fernandes e Celso Frederico, além de homenagem a Miguel Urbano Rodrigues e diversas resenhas e notas de leitura.



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Edemilson Paraná é doutorando em Sociologia pela UnB (Universidade de Brasília), e atualmente pesquisador visitante na SOAS – University of London. É autor do livro A Finança Digitalizada: Capitalismo Financeiro e Revolução Informacional (Insular, 2016). Dele, leia também no Blog da Boitempo os artigos “Brasil 2016: preparando a (nova) gestão de uma crise permanente“, “Brexit: o Reino Unido sequestrado pela extrema-direita?“, “O Brexit e as esquerdas: as contradições da razão europeísta“, “Um novo tsunami financeiro global a caminho?“, “Da direta à esquerda: a crise diante da falta de um projeto de país“, “O Brasil no pêndulo das elites: entre liberalismo submisso e desenvolvimentismo autoritário“, “Disputar o povão: neopentecostalismo e luta de classes“, “As raízes da escalada conservadora atual” e “Lula, o cerberus da política brasileira“.

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