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Elisângela Carvalho se formou pelo programa da Pedagogia da Alternância e dá aula em escola Sem Terra

Da Ecologia dos Saberes, 31 de Janeiro, 2018
por Cristina Chacel 


Elisângela Carvalho, Professora do campo

Ela nasceu no Rio de Janeiro, mas foi em Minas que encontrou seu lugar de existir. Por existir, entenda-se estudar, se formar, se afirmar, repartir e amar. Elisângela Carvalho é, antes de mais nada, agricultora. No campo, aprendeu a sonhar e a multiplicar. No lote de 13 hectares que ocupa com o companheiro, camponês professor de geografia, no Assentamento Dênis Gonçalves, na Zona da Mata de Minas Gerais, ela plantou feijão. Semeou dez quilos, colheu 200. Mas a sina de Elisângela, a Elis, é ensinar.

Há muita dificuldade de acesso às escolas, elas são distantes do trabalho e da moradia. O camponês, muitas vezes, precisa parar de estudar para trabalhar. As diretrizes da Educação do Campo respondem a essas precariedades. A educação é construída com os sujeitos, para os sujeitos

Na sala de chão batido demarcada por uma cerca de bambu, efêmera como a incerteza da vida, por isso itinerante, Elis dá a dimensão da sua responsabilidade à frente da escola recém-inaugurada no acampamento da Fazenda São José, uma porção de terra abandonada do complexo de nome Liberdade e ocupada por 315 famílias Sem Terra. É ela quem lembra e pontua a contabilidade dramática do déficit educacional no campo – 37mil. Este é o número oficial, registrado pelo Censo Escolar do MEC, de escolas fechadas nos últimos 15 anos, no Brasil rural, essa vasta porção de terra e gente invisível, que as cidades só enxergam no noticiário policial. Vista por esse ângulo, a abertura de uma nova escola em acampamento do MST, como a autorizada pela Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais, ganha outra relevância.

A professora enumera as várias razões para o fechamento das escolas no campo, entre elas o baixo número de alunos. “Isso se deve às dificuldades de acesso às escolas, distantes do trabalho e da moradia. O camponês, muitas vezes, precisa parar de estudar para trabalhar”, afirma. “As diretrizes da Educação do Campo respondem a essas precariedades. A educação é construída com os sujeitos, para os sujeitos”, diz.

Criança em acampamento Sem Terra em MG/ Foto: Gustavo Stephan

Fruto de uma parceria do Incra com diversas universidades, o Programa Nacional de Educação nas Áreas de Reforma Agrária, aprovado em 1998, oferece uma direção para superar a precariedade educacional do campo. Abrange desde o Ensino Fundamental até a universidade, mediante a apresentação de projetos vinculados à Pedagogia da Alternância, por meio da qual a agricultora Elis obteve sua licenciatura em Educação do Campo, na Universidade Federal de Minas Gerais.

Na vastidão deste Brasil de tantas porteiras, o desafio da escola perto da moradia é uma das diretrizes operacionais aprovadas, em 2015, para a educação do campo no Estado de Minas Gerais. “Trata-se de um reconhecimento da necessidade e da especificidade do camponês, um direito”, ensina Elis. Quantos quilômetros uma criança ou mesmo um adulto precisa caminhar para chegar à escola da cidade mais próxima?

Sem Terra: Educação do Campo inclui disciplinas que se relacionem com cotidiano/ Foto: Gustavo Stephan

Outra diretriz da Educação do Campo é a de incorporar ao currículo conteúdos úteis para os educandos. Isso é fácil? Não. Principalmente porque, em geral, os professores não são do campo e desconhecem os conteúdos. A diretriz permite que sejam contratados, preferencialmente, educadores que tenham a ver com a realidade do campo, capacitados a trabalhar com os conteúdos que fazem sentido para o camponês, sem prejuízo do Currículo Básico Comum (CBC). Na nova escola do Acampamento da Fazenda São José, todos os seis professores e a auxiliar de serviços básicos, têm formação no MST.

Fala a Elis: “A educação tem como princípio trabalhar com a identidade e a cultura camponesa, porque o sujeito camponês tem uma história e uma vida a serem valorizadas. Na cidade, ainda hoje, em pleno século 21, a gente sofre muito preconceito com a forma como vai à escola. Se uso chapéu e chinelo de dedo, sou discriminado. A nossa escola trabalha com a simbologia, o movimento, a bandeira, a mística, a palavra de ordem, tudo isso tem um sentido. E a gente tem essa liberdade nas diretrizes da educação no campo”.

As disciplinas estão agrupadas e consolidadas em áreas de conhecimento. Linguagens (português, arte, língua estrangeira e educação física), Ciências Sociais e Humanas (geografia, história, sociologia, filosofia e ensino religioso), Ciências da Vida e da Natureza (biologia e química) Agroecologia (meio ambiente e sustentabilidade) e Matemática e Ciências Agrárias.“Escola é para além de quatro paredes”, diz professora de Sem Terra/ Foto: Gustavo Stephan

A evasão escolar é um problema que requer atenção especial. No próprio assentamento Denis Gonçalves, alunos abandonaram os estudos porque a área é enorme e a escola fica distante da moradia de muitos. O professor tem que seduzir o educando, observa Elis. “O aluno tem que ser ouvido. Todos os dias ele vai trazer alguma questão para o professor”, conta. “Quando a gente pensa a educação do campo, precisa considerar que, mesmo que o aluno não termine os estudos, a experiência vivida dentro da escola, com educadores que vão conseguir ouvi-lo e entender por que ele está cansado e dormindo na aula, vai ser transformadora”.

A escola deve ter partido, sustenta a professora. “Escola é para além das quatro paredes. Temos autorização para funcionar pelo estado. Mas mesmo que não tivéssemos, a gente faz processos de formação informal todo o tempo. Nas assembleias, nas reuniões de núcleo e em outros espaços de atividades coletivas. Temos a consciência de que não dá para separar a educação da política, não tem escola sem partido, não tem neutralidade”.

Foto de Elis: Custódio Coimbra

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