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“É momento de sair do Estado e retornar às comunidades.” Segundo dia começa com análise de conjuntura

Do IHU, 25 de janeiro, 2018

A mística de abertura evocou o colorido das camisas, das peles e da vida nas comunidades. É o dia do “Ver”, da análise de conjuntura, conduzida pelo companheiro Pedro Ribeiro de Oliveira, assessor das CEBs, e pela companheira, professora da USP,Raquel Rolnik.

A reportagem é publicada por CEBs no Brasil, 24-01-2018.

Antes de passar a palavra para a assessoria, a coordenação convidou Frei Betto para uma rápida fala sobre o Brasil de agora. Como este Brasil não se desgarra do Brasil do passado, o Dominicano, preso político no regime militar-empresarial iniciado com o golpe de 1964, enfatizou a importância de se preservar a memória histórica.

“O que nós temos de mais precioso no Brasil, conquistado com muito suor, sangue e lágrimas, é a democracia. A democracia brasileira tem muitos mártires. Precisamos preservar a memória desses companheiros e companheiras. É mentirosa uma democracia em que todos podem votar, mas poucos podem viver com dignidade.”

A natureza do Golpe

Pedro Ribeiro inicia sua fala dizendo que “precisamos entender a natureza do golpe no Brasil. O golpe foi dado para uma mudança profunda. Não foi só para derrubar um governo. É um golpe treinado primeiro em Honduras. O outro ensaio foi no Paraguai. Na Venezuela, não conseguiram. Na Argentina, elegeram o Macri, senão teriam dado o golpe.”

Lembrou ainda das duas dimensões mais evidentes da crise: “1) ambiental. Estamos arrebentando com nosso planeta. Os donos do mundo não consideram seriamente barrar o avanço das grandes empresas, apesar de todo problema climático causado por elas. O papa Francisco denuncia, mas fazemos corpo mole; 2) econômica: a taxa de lucro do capital está diminuindo, o que acelera sua financeirização. As guerras são maneiras do capital investir na indústria. Guerras às drogas, de fronteiras, étincas… Temos que tomar consciência de que o mundo está em guerra, muitas guerras.”

O assessor não esqueceu de fazer referência ao que chamou de “guerra de informações”: “Espalhasse uma notícia para justificar a outra guerra. Há muito conhecimento, mas sua produção é feita por pouquíssimas grandes empresas e pelo serviço de informação e segurança dos EUA. Há muita notícia falsa produzida.

“As nossas igrejas e nossas comunidades falam a realidade do mundo e da vida? Ou só da realidade individual, da pessoa que adoeceu ou sobre quem morreu? Tecnologia, eficiência, competição são valores aceitos por todo mundo. Solidariedade, democracia são valores considerados românticos, do passado. Temos que inverter isso.”

E concluiu dizendo:

“É preciso resgatar o processo de conscientização, saber quem são nossos aliados e quem está do outro lado. O método de educação popular desenvolvido por Paulo Freire é fundamental, na medida em que quem ensina também aprende. Na leitura popular da palavra de Deus, é fundamental questionar o povo sobre a escravidão do presente, para que este adquira consciência de sua condição de oprimido. Pobreza se vive, opressão só se percebe com processo de conscientização. E não esquecer de se valer sempre das lutas concretas para avanço do processo.”
Utopia e identidade: alimentos históricos das CEBs

Raquel Rolnik assumiu a condução da reflexão, recordando que, desde a década de 1970, as CEBs participam da luta urbana, a luta pela transformação da cidade, ajudando a construir espaços, territórios e alternativas de poder. Utopia e imaginário que alimentaram historicamente sua caminhada e identidade.

“A formação das cidades no Brasil ocorreu com a expulsão do agricultor, do ribeirinho, do indígena do campo. Em poucas décadas, dezenas de milhões de pessoas migraram para a cidade. Foram essas pessoas que se organizaram nos bairros e lutaram. A Igreja teve um papel fundamental em todo esse processo. Luta por casa, por água, por esgoto, por saúde. São essas forças que se apresentam no instante da Constituinte de 1988, criando uma verdadeira cidadania insurgente. Se os direitos não vinham, a luta se encarregava de conquistá-los.”

E frisou que a década de 1990 foi a década da quebra do Estado, com a reestruturação do capital, com a crise do endividamento público, a financeirização da economia e o aumento vertiginoso do desemprego.

“Nesse período é que o tráfico de drogas chega às comunidades e começa a minar a sociabilidade da organização popular. Parte da Igreja se volta para atender as demandas espirituais dos ricos. Os partidos políticos que ajudamos a construir, com sua participação no mundo institucional e crescendo eleitoralmente, competem cada vez mais no mercado de votos, esquecendo de atender às necessidades do povo, para abrir uma frente de negócios com grandes empresários. O Estado segura o dinheiro para assegurar a financeirização do capital.”

A professora termina sua contribuição profetizando:

“É momento de sair do Estado e retornar às comunidades. O contrário da estatização não é privatização, mas a autodeterminação territorial dos povos. É no território que se constrói as coisas extraordinárias.”
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