Pages

Estudo constata que um terço das principais espécies pescadas está ameaçado e põe em risco a segurança alimentar

Do IHU, 19 de janeiro, 2018
Ausência de políticas de conservação de cardumes ameaça espécies de peixes.

A reportagem é de Peter Moon, da Agência FAPESP, publicada por Jornal da UNICAMP, 18-01-2018.

O esgotamento mundial dos cardumes, a redução na diversidade do que é pescado e a diminuição no tamanho dos peixes capturados são grandes desafios para a atividade pesqueira. O enfrentamento dessas questões envolve o desenvolvimento de políticas de conservação de cardumes e de pesca sustentável.


Tais problemas não estão apenas ligados ao aspecto macroeconômico da indústria pesqueira e da aquicultura, responsáveis pelo abastecimento do mercado mundial com proteína animal marinha. Há os aspectos econômico-ecológicos ligados à pesca em pequena escala e que escapam às estatísticas dos organismos de fiscalização governamentais.

Esses aspectos envolvem a pesca artesanal em pequenas comunidades tradicionais, muitas delas espalhadas pelo litoral da Mata Atlântica brasileira, como revela um estudo que vem sendo desenvolvido ao longo dos últimos 20 anos em sete comunidades de pescadores artesanais no litoral sul do Rio de Janeiro e no litoral norte do Estado de São Paulo.

O estudo liderado por Alpina Begossi, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (Nepa) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), registrou que boa parte das espécies de peixes capturadas por pescadores artesanais se encontra em situação de ameaça. Begossi é também professora na Universidade Santa Cecília e diretora do Fisheries and Food Institute (FIFO), ou Instituto para a Pesca, Diversidade e Segurança Alimentar, do qual é uma das fundadoras.

A pesquisadora atua desde os anos 1980 na área de ecologia humana das comunidades de pescadores artesanais na costa da Mata Atlântica e de populações ribeirinhas da região amazônica. Seu método de trabalho consiste em combinar conceitos e modelos de biologia, ecologia e antropologia para entender as relações entre a população e o uso dos recursos naturais.

Begossi e colegas acabam de publicar a primeira radiografia da situação dos pescadores artesanais nos litorais de São Paulo e do Rio de Janeiro e dos pesqueiros dos quais eles dependem. O trabalho foi publicado na revista Ambio e está inserido em um Projeto Temático coordenado por Begossi e financiado pela FAPESP.

“A pesquisa resume uma série de projetos iniciados nos anos 1990, com pesquisadores do Brasil e, atualmente, com outros da França e da Croácia que vêm trabalhando comigo desde então”, disse Begossi.

Ela se refere aos coautores do artigo Natalia Hanazaki, da Universidade Federal de Santa Catarina, Priscila Lopes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Renato Silvano, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Gustavo Hallwass, da Universidade Federal do Pará, e Svetlana Salivonchyk, do Institute for Nature Management da Bielorrússia.

“Temos reunidos 20 anos de dados de consumo da pesca artesanal. No período, fizemos o registro das espécies de peixes consumidas e constatamos a sua crescente escassez com o passar dos anos, o que está em concordância com os indícios de que algumas espécies estavam sendo superexploradas, enquanto outras entravam para a lista vermelha das ameaçadas”, disse.

Com o enorme conjunto de dados de que dispunha, o grupo resolveu reuni-lo no trabalho agora publicado. Entre 1986 e 2009, foram realizadas centenas de entrevistas com pescadores artesanais de sete comunidades nas ilhas de Búzios, Vitória, Jaguanum e Itacuruçá e em três localidades costeiras (Puruba, Picinguaba e Praia Grande/Paraty).

O questionário aplicado nas entrevistas com os pescadores era de respostas abertas e envolvia perguntas do tipo “Você comeu peixe no jantar de ontem?”, “Qual peixe?”, “E no almoço?”.

Entre 70 e 110 espécies de peixes são alvo de captura pela pesca artesanal e comercial na região. As oito espécies mais frequentemente mencionadas pelos entrevistados foram a anchova (Pomatomus saltatrix), pescada (Cynoscion sp.), corvina (Micropogonias furnieri), garoupa (Epinephelus marginatus), peixe-espada (Trichiurus lepturus), xarelete (Caranx sp.), tainha (Mugil curema) e imbetara ou betara (Menticirrhus americanus).

De um total de 65 espécies mencionadas pelos pescadores em 347 entrevistas e mais de 1,5 mil coletas sobre consumo, cerca de 33% tiveram redução de população desde o início do estudo em 1986, enquanto para 54% das espécies capturadas a situação de seus estoques é desconhecida de acordo com dados da União Internacional para a Conservação da Natureza.

Segundo os autores, a crescente escassez de tais espécies impacta a segurança alimentare o sustento dos pescadores artesanais que dependem dos recursos de sua captura tanto para a alimentação de suas famílias quanto para complemento de renda.

A maioria das espécies mencionadas é preterida pela pesca comercial pelo baixo volume dos cardumes. Por isso mesmo, elas têm maior valor individual e são fornecidas a restaurantes especializados no eixo Rio-São Paulo.

“Como resposta à ameaça aos cardumes, o governo brasileiro já estabeleceu diversas proibições à captura das espécies ameaçadas de extinção, sem, entretanto, incluir medidas de manejo da pesca e sem incluir prioridades no estudo dessas espécies”, disse Begossi.

“Se por um lado tal política visa proteger e recuperar os cardumes, por outro ela consiste em uma ameaça à pesca em pequena escala e ao sustento dos pescadores artesanais e suas famílias. A solução não está na proibição pura e simples da pesca destas espécies, mas no seu manejo sustentável”, disse.

Há ainda a questão da diversidade alimentar. “As espécies capturadas pela pesca artesanal são aquelas que garantem nossa diversidade alimentar. Os peixes preferidos, como a garoupa ou o robalo (Centropomus undecimalis), vêm da pesca artesanal. Nenhum deles vêm da pesca industrial”, disse a pesquisadora.

“Há espécies que eram comuns nos anos 1980, como a garoupa, mas que rarearam bastante. Hoje ainda se encontra garoupa, mas de tamanho menor. Já um peixe do mesmo gênero como o cherne (Epinephelus niveatus), este não se vê mais. Não é mais citado pelos pescadores. É um caso crítico”, disse.

O trabalho de Begossi e colegas destaca a necessidade de se reunir mais e melhores dados biológicos e ecológicos das espécies marinhas da costa da Mata Atlânticabrasileira. Segundo ela, esses dados são “urgentemente necessários” para ajudar a promover a conservação e o manejo destas espécies.

“Nossa opção é permitir que esses peixes desapareçam? Nossa escolha é daqui para a frente comer apenas três ou quatro espécies de peixes, aqueles fornecidos pela aquicultura, como a tilápia e o salmão? É esse o futuro que queremos?”, disse.

O artigo Threatened fish and fishers along the Brazilian Atlantic Forest Coast (doi:10.1007/s13280-017-0931-9), de Alpina Begossi, Svetlana Salivonchyk, Gustavo Hallwass, Natalia Hanazaki, Priscila F. M. Lopes e Renato A. M. Silvano, pode ser lido aqui.


Leia mais
Peixes diminuem de tamanho à medida que a temperatura do oceano aumenta
Pesquisa da Embrapa indica que integrar criação de peixes com hortaliças economiza 90% de água e elimina químicos
Estudo indica que o aquecimento dos oceanos, pelas mudanças climáticas, deve reduzir o tamanho dos peixes
20% dos peixes do sexo masculino nos rios do Reino Unido agora é ‘transgênero’ devido ao descarte de produtos químicos
Dez milhões de toneladas de peixe desperdiçados a cada ano, apesar da diminuição dos estoques pesqueiros
“O peixe está magro e está morrendo”, afirma indígena Munduruku sobre o rio Teles Pires
Mudança climática sufoca peixes
Expedição aos Corais da Amazônia encontra peixes que estão sob risco de extinção e possíveis novas espécies
A contaminação por mercúrio em peixes marinhos no Brasil
50% dos estoques de peixes em grandes ecossistemas marinhos, GEMs, são superexplorados
Nova lei estadual ameaça milhares de espécies de peixes em rios da Amazônia
Pesquisa do ICMBio aponta contaminação por metais pesados em peixes no litoral do ES
Dá para saber se haverá mais peixes ou plástico nos oceanos em 2050?
Mais de noventa espécies de peixes foram descobertas na Amazônia nos últimos dois anos
BA: Pescadores tradicionais sufocados por deserto verde da Fibria S.A temem pelo futuro
Estudo associa desmatamento e queda de produtividade da pesca na Amazônia
A sobrepesca e a degradação dos oceanos
MPF pede suspensão da licença de Belo Monte até que impactos à pesca sejam atenuados
Indígenas, quilombolas e pescadores pedem à Alemanha que não importe produtos de quem agride suas vidas e território
Usinas do Tapajós podem causar contaminação de pescadores e morte de peixes em massa
Cinco anos após início da instalação de Belo Monte, Ibama reconhece impactos na pesca
Mais uma barragem rompida: pescadores de Santa Cruz (RJ) denunciam prejuízos e descaso de empresas
Justiça Federal proíbe pesca na Foz do Rio Doce por conta da lama da Samarco
Pescadores atingidos pela usina de Belo Monte ficam sem rio e sem peixe, aponta atlas
A pesca predatória dizima os rios da Ilha de Marajó
Consórcio da Usina Hidrelétrica de Aimorés é processado por danos aos pescadores que dependiam do rio Doce
Dossiê Belo Monte: impactos na pesca não foram reconhecidos no licenciamento
Pescadores à míngua por causa de megaobras como Belo Monte
Pesca desenfreada nos oceanos pode causar impacto maior que poluição, diz ONG
Luta em defesa do Território Pesqueiro leva centenas de pescadores à Aparecida
Prorrogado o prazo para fim da pesca de animais ameaçados
Estudo alerta para pressão contínua da sobrepesca nos mares da Europa
Estudo calcula em 5 anos tempo necessário para salvar os oceanos da contaminação e a sobrepesca
Países reconhecem o papel vital da pesca artesanal
Movimento de Pescadores ocupa MPA e reivindica mais políticas para a pesca artesanal
Privatização das águas e a desilusão dos pescadores artesanais. Entrevista especial com Elionice Sacramento
Hidronegócio atinge a pesca artesanal. Entrevista especial com Maria José Pacheco
Em defesa dos territórios e dos direitos dos povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e demais populações tradicionais
Ictiofauna sob risco no Teles Pires, em razão de hidrelétricas, pode afetar segurança alimentar indígena
Brasil regride no combate à fome e na garantia da segurança alimentar
FAO alerta que oceanos serão ainda mais vitais no futuro da segurança alimentar

Nenhum comentário:

Postar um comentário