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A opressão do sucesso

A pregação moderna que só valoriza o acúmulo material transforma utopia em paranoia

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Da Carta Capital, 28 de Janeiro, 2018por Ricardo Lengruber* 


A busca pelo "sucesso" não pode ser um fardo

Há um "discurso de sucesso" a se proliferar em vários espaços: nas empresas, nas igrejas, nas escolas e nas famílias. Há, mais do que isso, uma exigência pelo sucesso. Uma ideia estranha de que a vida só faz sentido se for plena de êxito, de realizações e de glórias.

É um mantra sempre repetido: "Tudo com o que você sonhar, poderá realizar. E você deve sonhar alto. Você pode ser rico, bem-sucedido, passar no vestibular, ser abençoado e ser sempre muito feliz."

Cada receita de felicidade, claro, tem mil e uma estratégias. Há treinadores e mentores especializados nos detalhes dessa empreitada. São como inspiradores por meio dos quais os indivíduos se preparam para vencer na vida.

A ajuda dos outros não é, em si, ruim. Às vezes precisamos mesmo de apoio para vencer certos obstáculos. E há áreas da vida nas quais somos menos hábeis do que em outras. Nessas questões pontuais, carecemos também de mais atenção e foco.


Especialmente no que diz respeito ao mundo do trabalho, essas técnicas podem ajudar muito. As técnicas cognitivas e comportamentais são, sim, úteis, mas não dão conta das questões profundas da existência. A vida é complexa demais para caber apenas no discurso de que o desejo é o motor da conquista.

Há muito mais em jogo do que simplesmente “reprogramar” a mente nessa ou naquela direção. A tristeza, o tédio e as fraquezas povoam a existência humana. As frustrações fazem parte da caminhada e, por contraditório que pareça, é também por meio dessas experiências que podemos crescer e amadurecer.

O problema surge quando essa pregação moderna do sucesso, que até se confunde com o discurso religioso, cria a sensação e o sentimento de urgência, de necessidade, de obrigatoriedade. "Vencer" passa a ser um imperativo.

É nesse ponto que a inspiração vira opressão. O sucesso impõe-se como fardo. Isso é ruim por vários motivos. Cria ansiedade, aquela ideia de que "ainda" não sou o que devo ser. Há sempre a sensação de que há muito pela frente. O futuro passa a ser a grande realidade da vida. Cria-se uma expectativa tal que, na prática, é impossível de se atingir.

Promove frustração: nem sempre dá para ser ou fazer aquilo com o que se sonha. O senso de realidade, que é diferente do determinismo ou derrotismo, deixa de ser a bússola orientadora da existência. Confunde-se utopia (que é inspiradora e motivadora) com paranoia (que frustra e desaloja).

Gera culpa, pois desconsidera que a inevitabilidade de certos fracassos tem a ver com as intempéries da vida, e não apenas com uma programação equivocada do "eu" que não soube se orientar no caminho do êxito. Esse tipo de discurso que culpa sempre o indivíduo esbarra na crueldade. Uma coisa é a responsabilização, outra bem diferente é a determinação exclusiva e individualizada da culpa.

Apesar de parecer que o controle está em suas mãos, há sempre uma receita a ser seguida. As técnicas sobrepõem-se à autonomia dos indivíduos. Inibe a liberdade e pasteuriza os indivíduos sem considerar, no fim das contas, a beleza da individualidade humana e suas múltiplas formas. Terceiriza a própria identidade. E é ruim, por fim, pois reforça a ideia de que o hoje é apenas a preparação para o amanhã do sucesso. Adia o inadiável. Adia a própria vida.

* “Sócio” desde 2017

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