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Por que Paulo Freire é tão mal compreendido?

Da Carta Capital, 22 de Dezembro, 2017
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas 

Imagem de Paulo Freire em muro de escola em Salvador

Tanto favoráveis quanto desfavoráveis a Paulo Freire, em regra, não o leram, não entendem suas propostas e não são capazes de contextualizá-las hoje

Temos publicado neste blog, nos últimos meses, diversos textos sobre grandes pensadores da educação e alguns leitores nos têm questionado: por que Paulo Freire não está entre eles? As razões são várias: a) já se fala demais dele no Brasil e quase nada de outros grandes pensadores que vieram antes ou que, posteriormente, trouxeram propostas abarcando os avanços tecnológicos, socioeconômicos e outros havidos nas últimas décadas; b) Freire suscita as paixões ideológicas e o debate descarrilha para emoções incontroladas; etc.

Isso não queria dizer que as ideias de Paulo Freire não estivessem dentro da concepção do autor de reforma educacional. A noção de uma educação humanitária, que possibilitasse aos oprimidos a liberdade, a consciência, já estava, em contexto histórico bem anterior, na Paideia da Grécia Antiga, em Roger Bacon e em Erasmo de Rotterdã, todos tratados em textos publicados neste blog.

A aproximação entre pedagogia e teologia que desse a esta caracteres menos dogmáticos e mais cristãos, proposta de Paulo Freire, teve em Roger Bacon um grande precursor e crítico da doutrinação da escolástica ainda na Idade Média.

Jean-Jacques Rousseau, forte influência deste blog, no século XVIII já repisava insistentemente a ideia utilizada bem depois por Freire de que a educação precisa respeitar a liberdade natural de cada um e, ao mesmo tempo, libertá-lo da prisão que é a sociedade.

Freire foi muito influenciado pelo francês Emmanuel Mounier, que, por sua vez, foi influenciado por Rousseau. Aliás, na medida em que Freire se aproximou do personalismo de Mounier, também se distanciou em alguns aspectos do Marxismo.

Quanto à visão de Pedagogia do Amor de Paulo Freire, que consistia em uma relação afetuosa de parceria e diálogo entre educador e educando, isso já havia sido proposto e executado com maestria por Johann Heinrich Pestalozzi do final do século XVIII para o início do século XIX.

Freire também propôs que se acabasse com o “falso amor”, com a “falsa generosidade”, defendendo a quebra da contradição entre opressores e oprimidos, ideia que depois foi bem desenvolvida por Roberto Mangabeira Unger, inclusive com propostas de reformas em políticas públicas de naturezas variadas.

Sobre o tema, Freire disse:

“A ‘ordem’ social injusta é a fonte geradora, permanente, desta ‘generosidade’ que se nutre da morte, do desalento e da miséria. Daí o desespero desta ‘generosidade’ diante de qualquer ameaça, embora tênue, à sua fonte. Não pode jamais entender esta ‘generosidade’ que a verdadeira generosidade está em lutar para que desapareçam as razões que alimentam o falso amor” (p. 17 de Pedagogia do Oprimido).

A ideia de que a política apenas “adoça a pílula amarga do capitalismo”, tão forte em Mangabeira Unger, já havia sido, portanto, trazida por Freire, e o objetivo dos dois pensadores não é intensificar a contradição entre opressores e oprimidos, mas aproximá-los por meio de mudanças estruturais. Os alertas de Freire nesse sentido eram frequentes, inclusive fazendo críticas àqueles revolucionários que se tornavam opressores logo em seguida, algo corriqueiro no século XX e mesmo neste século:

“O ‘homem novo’, em tal caso, para os oprimidos, não é o homem a nascer da superação da contradição, com a transformação da velha superação concreta opressora, que cede seu lugar a uma nova, de libertação. Para eles, o novo homem são eles mesmos, tornando-se opressores de outros. A sua visão do homem novo é uma visão individualista. A sua aderência ao opressor não lhes possibilita a consciência de si como pessoa, nem a consciência de classe oprimida. Desta forma, por exemplo, querem a reforma agrária, não para libertar-se, mas para passar a ter terra e, com esta, tornar-se proprietários ou, mais precisamente, patrões de novos empregados” (p. 18 de Pedagogia do Oprimido).

Favoráveis e desfavoráveis a Paulo Freire gostam de bradar em torno de termos como “opressão”, "opressores" e "oprimidos", pondo fogo na contradição, enquanto que o objetivo do educador pernambucano era quebrar a dualidade, pautando-se numa ação prática e efetiva que fosse inclusiva, que salvasse o próprio opressor. Nas palavras dele:

“A violência dos opressores que os faz também desumanizados não instaura uma outra vocação – a do ser menos. Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscar recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos. E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos – libertar-se a si e aos opressores” (p. 16-17 de Pedagogia do Oprimido).

A proposta educacional de Paulo Freire é de uma inclusão humanista e amorosa, dando consciência tanto aos oprimidos quanto aos opressores acerca da complexidade do cenário que se apresenta e dos prejuízos causados pelas contradições entre eles. Ao dividir oprimidos e opressores, esquerdistas e direitas, como bons ou maus, e vice-versa, as pessoas criam um debate superficial e futilmente emocionado, por meio do qual buscam, em regra, impor ideias que estejam condizentes com suas agendas pessoais.

Daí porque, apesar de o educador pernambucano ter sido um gênio criativo que unia, por exemplo, fenomenologia e dialética, fazendo brotar muitas ideias inovadoras, assim como era alguém de amplo conhecimento filosófico, que ia de Hegel e Marx, passando pelo pensamento cristão, chegando a Mournier, Sartre e outros franceses; às vezes, mesmo assim, é útil não falar especificamente no nome "Paulo Freire".

Semelhante ao que acontece com o gênio Karl Marx, Freire foi muito pouco lido e ainda menos compreendido, sendo ambos usados, com frequência, de forma distorcida para servir a fins egoístas de grupos ou pessoas.

Muitos, aliás, não o fazem de modo premeditado. É outra ilusão que a dualidade bom e mau causa. Quando alguém está tão ferrenhamente abalado emocionalmente com os problemas do país ou mesmo com seus próprios problemas, que quase sempre são mais interiores do que exteriores, faz o raciocínio simplista: “sou infeliz porque sou oprimido, logo usarei Marx e Freire (de forma distorcida, lembre-se), que tratam do assunto, para atacar aqueles que me oprimem e supostamente irei melhorar a minha situação”.

Do outro lado, como sempre, há os que atuam de forma consciente, porém são ainda muito mais frequentes aqueles que atuam inconscientemente e podem raciocinar assim: “essas pessoas que ficam se fazendo de oprimidas, de coitadas, são umas chatas e apenas querem melhorar as vidas delas mesmas, fazendo todos mais pobres, doutrinando as crianças, então as combaterei com vigor e, dentro disso, os pensadores que elas usam como base: Marx e Freire”.

Nesse jogo de ignorância, sentimentos fúteis e dominação, o país fica em guerra e não avança. Voltamos a alegar, como já feito em outros textos, que o tipo de educação que é dado está intrinsecamente ligado a esse cenário.

Paulo Freire falava muito em dar consciência às pessoas para que elas tivessem mais liberdade. Com a Internet, as redes sociais e uma crescente pulverização dos veículos de imprensa, isso se torna hoje mais fácil, ainda que dependa de esforços, de modo que o cenário já mudou de lá para cá. É preciso contextualizá-lo, portanto.

Estudos e propostas práticas, como aquelas feitas por Howard Gardner, Daniel Goleman, Peter Senge e Richard J. Davidson, já se utilizaram dos enormes avanços tecnológicos e científicos ocorridos nos últimos 20 anos, depois do falecimento de Paulo Freire, sendo imperativo interligar os pensadores antigos da educação, como aqueles estudados neste blog, com educadores mais contemporâneos como Maria Montessori, Eurípedes Barsanulfo, Anália Franco, Anísio Teixeira, Tomás Avelino, Paulo Freire e outros, com pesquisadores de ponta como esses acima referidos.

A postura de idolatrar heróis, algo muito comum em regiões menos desenvolvidas como a América Latina, é perniciosa, pois, dentre outras razões, gera o tipo de debate superficial e acalorado acima exemplificado.

Propõe-se, portanto, que Paulo Freire seja sim reconhecido como o grande pensador e educador que foi, adequadamente lido e discutido nos debates sobre reforma educacional, mas isso dentro de diálogos informados sobre problemas práticos brasileiros, com o fim de solucioná-los, sem esquecer de inter-relacionar esse autor, que é apenas um dentre dezenas de bons autores, com os demais que podem colaborar para uma educação humanista, libertadora, consciente e inclusiva, pilares que deveriam ser um consenso nacional.

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