Pages

O vício em smartphones prejudica profissionais e empresas

Nomofobia é a moléstia psíquica relacionada ao pavor de ser separado de seu smartphone


Da Carta Capital, 21 de Dezembro, 2017
por Thomaz Wood Jr.



Os smartphones se tornaram símbolo de status, além de um bem de consumo obrigatório para todas as idades e estratos sociais.

Novos vícios, novos conceitos. Em tempos de delírios tecnológicos, a psicologia corre atrás, nomeando e investigando patologias emergentes. Nomofobia é a moléstia psíquica relacionada ao pavor que um indivíduo experimenta se separado de seu smartphone.

Foi revelada em 2008, a partir de estudo realizado no Reino Unido, que mostrou que mais de 50% dos usuários de celulares experimentam ansiedade quando perdem o aparelho; e que, entre jovens, o porcentual é ainda maior.

Os smartphones surgiram no fim da década de 1990 e foram adotados em massa na década seguinte. De símbolo de status transformaram-se rapidamente em bem de consumo obrigatório para todas as idades e estratos sociais.

Junto às fantasias prometidas pela tecnologia vieram os efeitos colaterais. No fim de 2016, a American Academy of Pediatrics divulgou um amplo estudo sobre os efeitos das mídias digitais (frequentemente difundidas por meio de smartphones) sobre crianças e adolescentes.

Na longa lista de problemas, velhos conhecidos de pais e mães: efeitos negativos sobre o sono, a atenção e o aprendizado; relação preocupante com a obesidade e a depressão; exposição a conteúdos inadequados; e riscos relacionados à privacidade.

Em um ensaio de grande repercussão veiculado na revista The Atlantic em 2017, Jean M. Twenge, professora de psicologia na Universidade Estadual de San Diego, alertou sobre o risco de uma crise mental iminente afetando crianças e adolescentes.

A autora argumenta que a onipresença de smartphones teve efeito dramático sobre os jovens nascidos entre 1995 e 2012: mais tempo na frente da tela e menos socialização; mais segurança, porém, mais vulnerabilidade; maior tendência para a depressão e para o suicídio.

Para adultos no mundo do trabalho, os efeitos começam a ser estudados e analisados. A conectividade 24/7 (24 horas por dia, 7 dias por semana) já existia antes dos smartphones,porém, foi intensificada com os novos aplicativos de troca de mensagens. A disponibilidade permanente gera ansiedade e estresse, ou tecnoestresse, outra invenção da época.

Em artigo publicado na revista científica Addictive Behaviors Reports, Éilish Duke e Christian Montag reportam estudo realizado na Alemanha. O ponto de partida é que a disseminação dos smartphones mudou significativamente a maneira como nos comunicamos, nos entretemos e trabalhamos.

No trabalho, percebe-se facilmente o efeito negativo dos aparelhinhos sobre a produtividade. Faltava, entretanto, comprovação científica. O estudo, conduzido com 262 voluntários, comprova que há relação entre o vício em smartphone e a percepção de perda de produtividade.

Diversos outros estudos revelam que o uso dos smartphones rouba horas do dia de trabalho. Seus sinais visuais e sonoros constantes interrompem fluxos de raciocínio e prolongam desnecessariamente o tempo de realização de atividades.

O uso mal administrado de smartphones ajuda a criar um ambiente de emergência permanente, transforma problemas gerenciáveis em incêndios ameaçadores e faz com que todos se sintam como bombeiros sem equipamentos, frustrados e impotentes, diante de circunstâncias supostamente avassaladoras.

De forma geral, o entendimento científico sobre os efeitos colaterais dos smartphones ainda está engatinhando. Vários efeitos e fenômenos correlatos precisam ser estudados e compreendidos.

Primeiro, a crescente substituição do trabalho investigativo e reflexivo pela bricolagem aflita de conteúdos da internet. Segundo, o declínio da capacidade de planejamento e execução e a aceitação do caos permanente. Terceiro, o faz de conta digital tomando lugar do trabalho real, dado que o primeiro oferece recompensa imediata, embora efêmera, enquanto o segundo exige disciplina e dedicação e só traz recompensa a médio ou longo prazo. Quarto, uma separação cada vez maior entre seres pensantes, ainda autônomos e críticos e hordas de zumbis digitais. Uma verdadeira distopia pode estar em gestação.

Realizar mais estudos científicos é importante para contrapor à propaganda avassaladora dos fabricantes de smartphones, coligados e inocentes úteis da mídia. Não se trata de combater, tal qual luditas, a tecnologia. Os pequenos computadores pessoais constituem avanço importante. É preciso, entretanto, conhecer melhor seus efeitos colaterais e desenvolver antídotos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário