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O vampiro de Wall Street

O sistema financeiro imporá aos Estados Unidos 23 trilhões de dólares em custos excessivos entre 1990 e 2023


Da Carta Capital, 25 de Dezembro, 2017


A dívida entre os bancos cresceram mais rápido do que o endividamento das famílias. É 'nóis por nóis'

Gerald Epstein publicou há poucos dias um estudo cuidadoso e interessante sobre o desempenho do sistema financeiro americano após a febre da desregulamentação. Economista da Universidade de Massachusetts, Epstein faz uma avaliação dos benefícios (ou malefícios) sociais e econômicos causados pelas práticas da nova finança.

O estudo começa por estabelecer critérios para a avaliação de um sistema financeiro saudável: 1. Está comprometido com o financiamento do investimento produtivo. 2. Ajuda as famílias a poupar e canaliza recursos para a educação superior e as aposentadorias. 3. Desenha produtos destinados a reduzir o risco, cria instrumentos para prover liquidez e administra um sistema de pagamentos eficiente. 4. Gera inovações para que esses objetivos sejam alcançados com custos razoáveis para empresas e famílias.

Para Epstein, essas funções são cruciais ao funcionamento estável e produtivo das economias de mercado. “Mas, após décadas de desregulamentação, o sistema financeiro americano transformou-se em um setor altamente especulativo que fracassou espetacularmente na consecução de suas tarefas.”

Em seguida, o autor pergunta, de forma um tanto retórica: quanto esse sistema fracassado custou para a economia americana? Qual o preço cobrado às famílias, contribuintes e empresários no exercício dessas questionáveis atividades?

O estudo analisa três componentes desses custos: 1. Rentismo e lucros excessivos decorrentes de poder de mercado. 2. Má alocação de recursos, fruto da concentração de operações dentro do próprio sistema financeiro. 3. Custos sociais e econômicos produzidos pela crise de 2008.

“Para o período de 1990 a 2023, nossos cálculos estimam em 23 trilhões de dólares os custos excessivos impostos à economia americana por um sistema financeiro que, em sua forma atual, é um sorvedouro líquido de recursos.” Tenho um pé atrás com tais estimativas. Sou obrigado a concordar, porém, com os critérios estabelecidos para a avaliação da funcionalidade ou da “utilidade” de tais sistemas financeiros.

Dizem os entendidos que, entre os anos 1950 e 1970, etapa da “repressão financeira”, as políticas monetárias e de crédito eram orientadas no sentido de garantir condições favoráveis ao financiamento do gasto produtivo, público ou privado, e atenuar os efeitos da valorização da riqueza não produtiva sobre as decisões de gasto corrente e de investimento da classe capitalista.

As políticas monetárias associadas à “repressão financeira” entre anos 50 e 70 continuaram a ser executadas na etapa de desregulamentação e assim prosseguiram no afã de sustar a recorrência de crises de deflação de ativos e de “desvalorização do capital”. Os mercados passaram a cultivar a percepção de que as perdas seriam limitadas.

As ações de estabilização dos bancos centrais e dos Tesouros construíram as bases para o avanço do processo de financeirização. Os títulos da dívida pública americana, sem risco e de pronta liquidez, permitiram a formação de pirâmides de ativos securitizados e hierarquizados conforme a relação risco/liquidez. As técnicas de alavancagem destinadas a elevar os rendimentos das carteiras de ativos deram força aos episódios de formação de bolhas.

A abertura das contas de capital suscitou a disseminação dos regimes de taxas de câmbio flutuantes que transformaram as moedas nacionais em “ativos”. As flutuações das moedas ensejaram oportunidades de arbitragem e especulação ao capital financeiro internacionalizado e tornaram as políticas monetárias e fiscais domésticas dos ditos emergentes reféns da volatilidade das taxas de juro e das taxas de câmbio.

As grandes instituições construíram uma teia de relações “internacionalizadas” de débito-crédito entre bancos de depósito, bancos de investimento e seus fundos. O avanço dessas inter-relações foi respaldado pela expansão do mercado interbancário global.

Os bancos de investimento e os demais bancos sombra aproximaram-se das funções monetárias dos bancos comerciais, abastecendo seus passivos nos “mercados atacadistas de dinheiro” (wholesale money markets), amparados nas aplicações de curto prazo de empresas e famílias.

Não por acaso, nos anos 2000, a dívida entre as instituições financeiras como proporção do PIB americano cresceu mais rapidamente do que o endividamento das famílias e das empresas. O crescimento da dívida intrafinanceira às vésperas da crise chegou a 120% do PIB. É “nóis com nóis”, contra o resto.

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