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O novo quer nascer e o velho não quer morrer



Do IHU, 19 Dezembro 2017
Por  Salvador Schavelzon, publicado por OutrasPalavras,


Um sobrevoo pela política latino-americana, na qual movimentos, partidos e forças traçam um embate ainda sem vencedores.

Eis o artigo.

Depois de 2011 uma onda de manifestações correu o mundo. Com ocupações em praças, levantes contra governos, assembleias comunitárias e protestos, muitas bandeiras foram levantadas. Temáticas como anticorrupção, ou ainda as marchas motivadas pelo aumento do transporte público em junho de 2013 no Brasil ou a dos estudantes no Chile em 2011, foram algumas das motivações que incendiaram as mobilizações massivas que surpreenderam um cenário político antes apático. A sensação geral era de falta de alternativas frente a governos neoliberais, a que tantos conservadores quanto progressistas haviam se entregado.

O contexto que dava lugar a esse ciclo era – e continua sendo – o do aprofundamento do modelo neoliberal, que se mostra sem alternativas. Os efeitos da crise são vários e em série: explosão de bolhas especulativas, com mais dívidas, mais segregação dos pobres, liberalismo extremo e a certeza frágil de que a lógica empresarial deve ser o caminho para o funcionamento dos serviços sociais em qualquer dimensão de nossa vida. Ao mesmo tempo, surgem como contraponto – mas também com elementos de um mesmo cenário cada vez mais comunicado entre uma profusão de minorias – novos feminismos, movimentos étnicos ou antirracistas que ganham espaço frente ao desmantelamento de uma política de massas que já não se mantém, em uma sociedade que já não existe, frente à inércia das ferramentas tradicionais, de estruturas e instituições que ainda seguem de pé.

Por mais que o neoliberalismo seja único, generalizado e global, em termos de sistema político ele se organiza como polo midiático que opõe, de um lado, perfis que assumem abertamente uma agenda de elite atendendo a setores empresariais; frente a outro campo que, sem romper com o neoliberalismo, se apoia em narrativas como nacionalismo, soberania ou a um sistema de direitos sociais que imagina uma sociedade integrada com um Estado forte. Na realidade, naturalmente nem a liberdade nem a prosperidade do mercado se realizam; nem muito menos hoje a justiça socialcom intervenção do Estado vai mais além do que um discurso. Ficamos com palavras que não mobilizam, não conseguem ser traduzidas em políticas estruturais efetivas, nem muito menos se conectam materialmente com a vida dos trabalhadores ou com construções políticas de base e poder territorial.

Diante disso, surgem novos movimentos e mobilizações que se inserem em diferentes buscas políticas. As ruas abriram caminhos frente a uma disputa espetacular que se dilui em uma multitude de identidades, discursos, campanhas eleitorais sem conexão com quem realmente nos governa. São práticas de ruptura que se isolam sem conseguir enfrentar a batalha em um mundo que mercantiliza e vende tudo, com Estado e mercado trabalhando juntos frente a um capitalismo sem rival.

As mobilizações de Hong Kong a Nova Delhi, Praça Zucotti ou no DF são, juntas, ar fresco e materialidade frente a cenários desgastados e sem saídas. Ali se discutiu ativamente a representação e os limites da institucionalidade republicana.

É alto o risco de que o que está nascendo seja também tragado e neutralizado depois de um impacto inicial e que as coisas voltem a se acomodar. Práticas políticas tradicionais que não perdem tempo em estar presentes em qualquer coisa que apareça exerc

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