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O mar se vinga e devora a Albânia

Um dos países mais pobres da Europa sofre com as mudanças climáticas e o urbanismo selvagem viabilizado pela corrupção


Da Carta Capital, 17 de Novembro, 2017Por Briseida Mema e Nicolas Gaudichet




O pescador Albert Pati na ilha Kune, na Albânia, em novembro. "A água morreu", diz ele

A elevação da maré angustia Asim Krasniqi em seu bar na praia de Qerret, que está em perigo devido à ameaça da erosão costeira, o preço que a Albânia paga pelas mudanças climáticas e o urbanismo selvagem.

Embora "inicialmente tenha sido discreto, o fenômeno ganhou proporções importantes nos últimos anos. O mar começou a engolir a costa. Vinga-se do homem que destruiu a natureza", afirma Sherif Lushaj, especialista em temas ambientais da Universidade Polis de Tirana.

No norte do país, perto da nova localidade balneária de Shengjin, dezenas de troncos de árvores se fossilizam na água, lembrando que até pouco tempo atrás havia uma floresta que separava o mar da lagoa de Kune.

Esta lagoa está ameaçada de desaparecer, assim como o cordão que anteriormente a protegia. Os búnqueres, construídos sobre dunas durante a ditadura comunista de Enver Hoxha, apenas emergem, enquanto outros estão submersos.

Dos 427 quilômetros do litoral albanês, "154 km estão afetados pela erosão", detalha à AFPo ministro do Meio Ambiente, Blendi Klosi. O avanço do mar em alguns setores é alarmante, de 20 metros por ano, explica. Perto de Shengjin, engoliu "cerca de 400 metros de terra durante os últimos 15 anos", avalia o ministro.


"Este lugar desaparecerá"

"Este lugar desaparecerá se o Estado não tomar as medidas necessárias", adverte Osman Demi, um pescador que recorda "a terrível noite" de 31 de dezembro de 2009, quando sua aldeia sofreu inundações repentinas e inéditas.

"Aqui pescamos robalo, caranguejos, tainhas... A destruição desta lagoa seria uma catástrofe", afirma seu colega Albert Pati, que assegura que em alguns lugares outrora ricos em peixes "a água já morreu".

O pelicano desapareceu da lagoa. Um censo realizado há um ano contabilizou 7 mil pássaros, enquanto eram 50 mil nos anos 1970.

Se nada for feito, os homens também partirão logo, segundo Jak Gjini, encarregado de Meio Ambiente no município de Lezha, do qual depende Shengjin. "A situação é dramática", diz, com 2 mil habitantes com casas ameaçadas.

Troncos fossilizados em Kune. A floresta não existe mais

Tudo conspira para ajudar o mar em sua conquista. De um lado, estão as mudanças climáticas, com tempestades de inverno cada vez mais fortes que arrastam a água cada vez mais adiante, mas também o desmatamento maciço do país, a extração de areia dos rios, o urbanismo selvagem na costa...

Quinze mil pessoas passam o verão em Shengjin, em edifícios de cimento de vários andares, construídos sobre o solo arenoso da lagoa.

Aqui os chefões investiram, diz este pescador com um sorriso. Os chefes constroem sem permissão, que conseguem uma vez que o edifício esteja concluído, no momento das eleições ou em troca de dinheiro.

"A lei do mais forte"

"As pessoas têm medo de se meter com os interesses dos poderosos. É a lei do mais forte". "Estas construções são o resultado de pressões exercidas por indivíduos para construir sem nenhuma consideração pelo plano de urbanização", diz Jak Gjini.

De seu bar em Qerret, Asim Krasniqi mostra um espigão que afunda no mar, perpendicular à costa. Foi construído sem autorização pelos donos de mansões ou de hotéis. "Modificaram as correntes, agravando ainda mais o problema", afirma o septuagenário.

Com ele, os proprietários esperavam proteger seus bens da erosão, mas o único que conseguiram foi empurrar o problema para o vizinho que também construía seu espigão, desatando um efeito dominó desastroso. "Qualquer construção ilegal no mar será destruída, os responsáveis serão castigados", promete o ministro Blendi Klosi.

Segundo Eglantina Bruci, especialista em mudanças climáticas para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em Tirana, isto não serviria para nada. "A única solução (...) seria a construção de estruturas rochosas paralelas à costa e a reconstituição das dunas", destacou.

Isto teria um custo enorme para um dos países mais pobres da Europa, afirma Jak Gjini. Mas se nada for feito, acrescenta, o país empobrecerá cada vez mais. E o território da Albânia encolherá.

*Leia mais na AFP

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