Pages

Lenin além do mito

Moniz Bandeira narra a epopeia bolchevista com um olhar sem estereótipos para o seu líder


Da Carta Capital, 26 de Dezembro, 2017
por Nirlando Beirão 



Em Moscou, 1921, mantendo viva a chama da revolução

A vida de Vladimir Ilyitch Ulianov tomou um novo curso, aos 17 anos, com a morte de seu irmão mais velho, Aleksandr. Estu­dan­te universitário, leitor de Marx, Aleksandr foi preso quando caminhava pela Perspectiva Nevsky, o amplo bulevar de São Petersburgo, carregando um insuspeito, mas volumoso, Dicionário de Medicina.

A polícia secreta de Alexandre III andava especialmente alerta após o atentado que matara, no dia 1º de março de 1881, o antecessor do czar, seu pai Alexandre II. O volume estava oco. Dentro dele, havia dinamite e cápsulas de estricnina.

O mais velho dos Ulianov fazia parte da organização Narodnaia Volia (Liberdade do Povo), que, no confronto com a autocracia dos Romanov, não via outra saída senão o terrorismo. Prometia: “Um Alexandre após o outro”.

Dificilmente o primogênito seria o líder da conspiração, mas assumiu sozinho a responsabilidade. Sua mãe o apoiou: “Coragem, coragem”, gritava para o prisioneiro atrás das grades. Aleksandr foi enforcado a 5 de maio de 1887, na Fortaleza Schlusselburg.

Foi nesse viveiro de cultura revolucionária que o futuro Lenin floresceu. Mas Volodia – seu apelido familiar – era bem diferente do irmão. Tinha a mesma energia dele, mas era alegre, sarcástico impulsivo (o pai ia além: cabeça dura). Apesar das dificuldades da vida da família de classe média laboriosa, ele conseguia ser terno e afetuoso.

Na escola, tornou-se um aluno exemplar, “aplicado, cuidadoso, sempre à frente de sua classe, medalha de ouro por sua atuação e conduta”, como escreveu, em 1887, seu mestre Fiodor Kerenski. Por ironia, o velho professor era o pai daquele Kerenski que o aluno Vladimir e seus companheiros bolchevistas iriam apear do poder 30 anos mais tarde.

A biografia de Lenin sofreu os ajustes ideológicos tanto dos desafetos quanto dos próprios correligionários.


Com o rude Stalin, Lenin sabia que a revolução iria se perder. Trotski não era o único pensador do timeFicou engaiolada no clichê que descrevia um revolucionário que só pensava naquilo, como dizia, com visível exagero, o menchevique Pavel Axelrod – “Lenin até mesmo quando dorme sonha com a revolução” –, no líder iluminado ou no fanático sombrio, mas que esquecia a dimensão humana e intelectual para quem a teoria e a prática se fundem – “e a vida e a obra se confundem”, como lembra o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, na biografia agora relançada.

O homem de ação não ofuscava o pensador, que escreveu, ao longo de três décadas de militância, mais de 10 milhões de palavras em incontáveis livros de reflexão, doutrinação e ativismo.

A consistência analítica de uma obra esclarecedora como a de Moniz Bandeira, de iniciação educativa, ainda que minuciosamente pesquisada, sem os grilhões da ortodoxia e sem a soberba da pretensão, escrita por um intelectual marxista que admirava Lenin sem nunca ser leninista, que admirava Trotski sem nunca ser trotskista e considerava Stalin um serial killer, ajuda a entender a fecunda durabilidade desta biografia – assim como do enciclopédico O Ano Vermelho: A Revolução Russa e seus Reflexos no Brasil, de volta às livrarias meio século após sua primeira edição.

Moniz Bandeira morreu na Alemanha, em novembro, aos 81 anos, e as duas reedi­ções reparam a injustiça de ele ser um historiador e pensador mais conhecido no exterior do que na terra onde antepassados seus lançaram raízes desde os primórdios da colonização.

O baiano Moniz Bandeira era descendente de Garcia d’Ávila e à trajetória da família, até a independência, inspirou-lhe O Feudo – A Casa da Torre de Garcia d’Ávila. O pioneiro Caramuru está também enraizado na genealogia do escritor.

A trajetória desta biografia de Lenin tem traços de peripécias persecutórias como as do próprio biografado. Por encomenda da Editora Paz e Terra, Moniz Bandeira começou a escrevê-la no ano de 1968, quando o acirramento político provocou a trágica rebordosa do AI-5.


A Guarda Imperial fuzila manifestantes pacíficos. Começa o levante de 1905

O autor já andava acuado por sistemáticos interrogatórios e um processo que chegara a resultar na sua prisão preventiva (logo derrogada). Leonel Brizola, já no exílio, era réu no mesmo processo. O Ano Vermelho, lançado em plena ditadura com estardalhaço nos arraiais da esquerda, só botara ainda mais combustível na desconfiança dos inquisidores.

Lenin foi mandado para gráfica às vésperas do AI-5. Os originais foram apreendidos e o livro teve de esperar dez anos para ser publicado. A ditadura trancafiou Moniz Bandeira por dois anos e, mesmo absolvido, o escritor achou mais prudente ir trabalhar no exterior.

A errância foi igualmente o fado de Volodia. Os Ulianov, após a morte do filho revolucionário, trataram de se resguardar do estigma político deixando a capital do Império e se abrigando em Kazan, terra natal do pai.


O irmão Aleksandr lia Marx, mas virou terrorista Era uma cidade de 100 mil habitantes e, considerada a capital do Volga, muito mais arejada politicamente do que a sede dos Romanov – e de sua polícia secreta. Numa manifestação, Vladimir acabou preso. “Por que você se rebela, jovem?”, perguntou-lhe o comissário. “Não vê a muralha que existe à sua frente?” “A muralha, sim.” “Mas está balançando e vai cair”, retrucou o jovem estudante.

Já estava inoculado pelo vírus do socialismo. A partir da última década do século, sua vida se alternaria entre tentativas frustradas de estudar legalmente e o mergulho clandestino na literatura marxista, sucessivas prisões, o desterro na Sibéria juntamente com sua companheira Nadezhda Krupskaya e intensas discussões acerca do socialismo ajustável a um país agrário, autocrático e atrasado como a Rússia czarista.

Logo viria também a etapa do exílio no exterior, preâmbulo para a consolidação do movimento, depois partido, bolchevique, a volta a Petrogrado, a invasão do Palácio de Inverno, a queda do governo provisório burguês e a instauração do regime socialista à moda russa.

O debate ideológico foi intenso e nele Vladimir Ilyitch Ulianov, agora já encoberto pelo codinome Lenin, notabilizou-se pelo conhecimento e pela sensibilidade. Antes, ele já percebera que a dinamite dos terroristas não levaria a luta adiante. A social-democracia avançara, nas frestas da repressão feroz.

O proletariado começava a crescer, os camponeses, empobrecidos, fugiam para as cidades em busca de emprego nas fábricas e Lenin viu nos trabalhadores urbanos – não no campesinato, como imaginavam os narodniki (populistas) ­– o motor da História e o esteio do regime que, não sem suor e sangue, despontava no horizonte.

]

O fim do comunismo respeitou o Mausoléu de Lenin no Kremlin.Assim pensava também Georgi Plekhanov, um dos interlocutores marxistas que Lenin respeitava. “A Revolução Russa não pode vencer senão como revolução proletária”, proclamou Plekhanov. “Não há nem pode haver outra saída.”

A admiração do biógrafo pelo biografado e pela reviravolta política que ele desencadeou, a notável revolução do século XX, com reflexos no mundo todo, não obscurece a convicção do analista de que, sem Lenin, ou talvez mesmo com ele, aquilo poderia degringolar.

“Entendi sempre”, escreveu Moniz Bandeira no prefácio, “que o bolchevismo, com base no centralismo burocrático, no partido e na supressão das liberdades políticas pelo Poder Soviético, representava uma relação simbiótica do populismo narodniki com o marxismo e, uma vez Lenin morto, germinou o totalitarismo stalinista, elevado à condição de doutrina.” Com o inadequado rótulo de “leninismo”.

A pergunta inútil, impossível de ser respondida, é se a revolução tomaria outro rumo se Lenin não tivesse sucumbido, ainda em plena fase de consolidação do regime, a uma sucessão de derrames, aos 53 anos, em janeiro de 1924.

A morte levou-o à condição mítica de herói do socialismo ao mesmo tempo que os estereótipos da História botaram automaticamente na conta de Stalin os desvios do projeto proletário. Seja como for, ficou evidente que Lenin – assim como o outro vértice do triângulo revolucionário, Leon Trotski – teve divergências sérias com aquele que iria sucedê-lo no comando do partido e do governo. Tanto doutrinárias quanto pessoais.

O exílio, oxigenado por discussões com outros pensadores e ativistas da revolução social, abrira os horizontes teóricos de Lenin. Ele cruzara as fronteiras russas em 1900 com o objetivo ambicioso de unificar os grupos, facções, cisões do socialismo russo em torno de um programa que desse o protagonismo ao proletariado e às massas urbanas.

Nicolau II, a czarina e os filhos: os últimos Romanov

Suíça, França e Alemanha estavam no seu roteiro. A revolução derrotada de 1905 recrutou-o em São Petersburgo, mas, em 1907, estava de partida novamente. Em Zurique, privou com a diáspora dos émigrés. A mesma noite, no Café Voltaire, podia reunir figuras como James Joyce, os artistas Wassily Kandinsky e Giorgio de Chirico, e os poe­tas Jean Arp e Guillaume Apollinaire.

Lenin enriqueceu-se intelectualmente ainda que viesse a passar para a posteridade no papel primordial de estrategista e líder carismático. O de intelectual sofisticado ficou reservado a Trotski, o qual, no entanto, botou a mão na massa, em especial na tarefa de constituir o Exército Vermelho para enfrentar os invasores estrangeiros.

A Stalin o reducionismo histórico reservou a imagem de troglodita bigodudo e implacável, a quem coubera o ônus pesado da Real Politik de um regime sitiado por inimigos.

Quando Lenin desembarcou na Estação Finlândia, em abril de 1917, a divergência com Stalin e os outros editores do Pravda escancarou-se. Os dirigentes partidários “insistiam na velha palavra de ordem da ditadura democrática de operários e camponeses”, narra Moniz Bandeira, e inclinavam-se para o apoio condicional ao Governo Provisório de Kerenski.

Ainda se consumiam na fantasia idílica de uma coalização no poder – como o próprio Lenin chegava a admitir no levante de 1905. Agora, não: o líder não queria aliança sequer com os mencheviques. Acusou a coligação social-democrata de pretender manipular as massas, refreá-las, domesticá-las, não as libertar.

O convívio com Stalin foi se tornando penoso, a ponto de Lenin incluir um adendo a seu testamento, um ano antes de morrer: “Stalin é demasiado rude e esse defeito, perfeitamente tolerável nas relações entre comunistas, é intolerável no posto de secretário-geral.

Proponho, portanto, aos camaradas que vejam o modo de retirar Stalin desse posto e nomeiem outro homem que o supere em todos os sentidos, isto é, que seja mais paciente, mais leal, mais afável, mais atento com os camaradas e menos caprichoso”.

Em março de 1923, escreveu a Stalin ameaçando “romper todas as relações pessoais”. O indigitado burocrata fizera uma grosseria com a Krupskaya. Lenin não perdoou a afronta. Mesmo um revolucionário, no calor da luta, não pode desprezar as regras mais elementares do cavalheirismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário