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Iemanjá, uma prece e uma flor

Da Carta Capital, 22 de Dezembro, 2017
por Pai Rodney 


O final do ano se aproxima, muitos tomarão as praias no réveillon. Roupas brancas, presentes, flores ao mar. Iemanjá tem muitas histórias...

“Janaína Rainha do Mar do Nascimento Brito”. Naquele dia nenhum dos olhares a constrangeu. Sempre que seu nome era pronunciado, o murmurinho se espalhava. Ela já não aguentava mais contar a história. Naquele dia a tristeza a consumia e quando o médico a chamou, o corredor do hospital pareceu imenso, interminável. A mãe padecia, não havia mais o que fazer. Antes de ser sedada pediu para falar com a filha.

Janaína se aproximou do leito. Já não continha as lágrimas. O jovem médico a observava. Como era linda...

– Filha, não chora. A mãe te ama tanto...

– Mãe, não me deixa.

– D. Neusa, a senhora não pode fazer esforço, interveio o Dr. Iaggo.

– Mãe, eu não tenho ninguém nesse mundo, por favor, não me deixa.


– Filha, você foi meu maior presente, a única riqueza que eu tive nessa vida, mas minha luta está acabando, não tenho mais força.

– Não, mãe, eu não vou aguentar.

– Sua madrinha, filha, ela nunca te desamparou. Foi ela que me deu você, que te salvou. Confia, filha, Iemanjá vai cuidar de você. Meu sofrimento acaba aqui, eu vivi por você e agora te entrego nos braços dela. Não tenha medo.

A enfermeira abraçou Janaína, tentou acalmá-la enquanto a equipe procedia à sedação. Aquele choro sentido, incontrolável; a mão da filha sobre o rosto da mãe; a dor de uma despedida. O jovem médico, residente ainda, comoveu-se. Por muito pouco não chorou com a moça. Que linda...

Quando ele a viu de cabeça baixa, com seus cachos lhe cobrindo as costas, pensou em tocá-la. A pele, o cheiro, aqueles olhos...

– Janaína, você está bem? Posso te oferecer um calmante? Vem, vamos tomar uma água.

Ela não controlava o choro. “O que vai ser de mim sem ninguém? Como vou viver sem minha mãe, a única pessoa que tive na vida?”, repetia entre soluços.

– Janaína, cadê seu pai?

– Nunca tive pai.

– Mas consta o nome nos seus documentos.

– É uma longa história...

Neusa teve uma vida triste, era uma sobrevivente. Não conheceu o amor. Nem pai, nem mãe, nem irmãos. A realidade dura de uma menina negra, naquele orfanato. Foi adotada aos nove anos. Na verdade, foi a criada, a empregada que não tinha salário, horário, nem dia. Serviu àquela família sem nenhum direito. Olhou os filhos do casal, cuidou da matriarca idosa, limpou, cozinhou. Comia o que sobrava e dormia no quartinho, onde estendia todas as noites o colchão e o único cobertor e os recolhia antes do sol nascer.

Todo final de ano ia à praia com a família, assistia à queima de fogos, ficava encantada. Mas aquele batuque... As saias rendadas, as flores, o cheiro da alfazema. Aquelas mulheres girando, cantando, dançando. Aqueles homens tocando, aqueles braços, aquele suor. Aquelas peles tão negras, aquelas roupas tão alvas... Palmas, rosas, sidras, perfumes, e os barquinhos lançados ao mar.

Num ano, Neusa sentiu-se mal, caiu desfalecida e a família consentiu que o pessoal do terreiro cuidasse dela. Foi um sono profundo e ela sonhou, ela viu aquela mulher, ela ouviu seu canto, sentiu todo amor que nunca conhecera. “Iemanjá?”, pronunciou suavemente cerrando os olhos.

“Sim! O mundo inteiro me conhece, o mundo inteiro me ama. Sou Iemanjá: a mãe, a rainha, a senhora. Oceanos e mares. Povos e culturas. Luas e marés. Harmonizo e uno, sou rio sem margem, sou mãe da humanidade. Translúcidas e negras, turquesas e esmeraldas, de tantos azuis e tantos verdes: minhas preciosas águas. Sou várias, sou inúmeras, sou Iemanjá: sereia, cantora, rainha. Sou musa, sou diva, sou inspiração. Sou Iemanjá. Peixes são meus filhos; pescadores, meus maridos. Matrona, prima-dona, decana. Nem dique, nem represa. Não me segure, não me prenda. Só me vejo fluida, escoando em plena liberdade, como a seiva que escorre de meus seios fartos. Sou Iemanjá, sua mãe, mãe de todos. Sou Iemanjá, me movo ao sabor dos ventos, me altero a cada luar, sou calmaria e ressaca. Não provoque minhas águas, lembre-se: se houver enchente, sou rio sem margem. Sou Iemanjá, sou sua mãe, não se esqueça. Na aflição, me chame.”

E foi acordando lentamente, com a imagem nítida de Iemanjá, com as palavras ressoando em sua mente. A mãe do terreiro explicou, mas os padrinhos nem deram atenção. “Toma, filha, guarda isso aqui que um dia você vai precisar”, disse a mãe de santo ao lhe entregar uma vela e um cartão. Ela guardou com cuidado. Voltaram pra casa xingando a criada que estragou a noite de festa.

Cresceu naquela casa, viu seu corpo de criança se transformar, tornou-se moça. O padrinho começou a assediá-la. A madrinha fingia que não via a desfaçatez do marido, mas repreendia Neusa: “deixa de ser assanhada, menina”. O cansaço de todas as noites a fazia dormir profundamente, mas numa madrugada ela acordou com um peso sobre seu corpo, a mão áspera tampando sua boca e a dor que lhe rasgava o ventre. Chorou em silêncio. Sentia-se suja e seu corpo tremia de medo e vergonha.

Foi contar à madrinha, mas antes que terminasse, levou um tapa tão forte na cara que caiu ali mesmo, no chão frio da cozinha. “Pega seus trapos e some daqui, sua vagabunda.” Chorou, implorou: “eu não tenho pra onde ir.” De nada adiantou.

Pegou o que tinha e foi pra estrada. Conseguiu algumas caronas e chegou ao Rio de Janeiro, à praia onde a família mineira passava o final de ano. Diante do mar, lembrou-se da mãe de santo e finalmente leu o cartão. No terreiro, foi acolhida e recolhida, fez seu santo: Iemanjá. E na reclusão sentiu os primeiros sintomas da gravidez. Revoltou-se, queria morrer, mas num sonho Iemanjá lhe disse que nunca abandonaria sua filha, que nos momentos de maior aflição a salvaria.

Uma gestação difícil, a saúde de Neusa cada vez mais frágil e no sétimo mês o parto. A equipe do Dr. Barreto toda mobilizada, mãe e filha em risco. “senhora, qual é sua fé?”, perguntou o médico incrédulo. Ela balbuciou “Iemanjá”. O nome da divindade soou como uma sinal. Mesmo ateu, Dr. Barreto nutria certa simpatia por Iemanjá e admirava o mar. Pelo sim, pelo não, todos os anos atirava uma rosa e fazia uma oração para Ela, a quem aprendera a chamar de Janaína, Rainha do Mar.

Na anamnese, Neusa contara sua triste história. O médico consternou-se. Quando mãe e filha foram salvas, ele sabia que havia testemunhado um milagre.

– Neusa, como vai se chamar sua filha?

– Não sei, doutor. Se o senhor fosse mulher, daria seu nome a ela. Mas vou deixar o senhor escolher o nome, é o único jeito de lhe agradecer.

E o médico se encarregou do registro: “Janaína Rainha do Mar do Nascimento Brito”, em homenagem a Iemanjá. A mãe estranhou o sobrenome, afinal, chamava-se Neusa de Jesus. O médico então explicou que registrou Janaína em seu nome, que queria assumir a menina e que se casaria com Neusa, se ela aceitasse. E ela aceitou, mas a família do médico não. Mandaram-no para o exterior e, mais uma vez, Neusa se viu só e perdida.

Viveu no terreiro por alguns anos e criou a filha, mas com a morte da mãe de santo a casa fechou e cada um teve que encontrar seu caminho. Neusa sofreu, mas não permitiu que nada faltasse à filha. A casinha modesta na Baixada Fluminense conseguiu comprar com o dinheirinho que juntou em anos de trabalho pesado. Janaína estudou e ingressou na universidade federal. Cursava direito.

Quando a mãe adoeceu, Janaína se desesperou. Era grave, muito grave, e em menos de um mês não havia mais esperança.

Neusa faleceu no dia 30 de dezembro e o enterro foi na véspera do ano novo. Dr. Iaggo foi a boa alma que providenciou o funeral. Por questões religiosas, Janaína estava vestida de branco e trazia nas mãos uma rosa que pretendia jogar na sepultura da mãe, mas de tão atordoada se esqueceu. Saiu do Caju e seguia a esmo quando um carro parou: “entra, estamos indo pra lá.”

Quando se viu em Copacabana, com aquela multidão de branco, nem pôde acreditar. Prostrou-se diante do mar, com a flor nas mãos, e chorou. “Iemanjá vai cuidar de você.” As palavras da mãe ainda ecoavam. E ela acreditou.

O ano novo rompeu. Fogos iluminaram o céu. Ela lançou a rosa nas ondas, sentiu o cheiro forte da alfazema, enrolou-se no pano da costa branco da mãe e adormeceu.

“Janaína, Rainha do Mar, como foi difícil esse ano. Ai, minha mãe, ainda assim te agradeço pela vida, pela saúde, por cuidar dos meus filhos, por não me deixar faltar o pão de cada dia. Iemanjá, uma prece e uma flor te ofereço. Não me abandone, não me desampare.”

Janaína foi despertando e viu o semblante daquela mulher negra e sua roupa alva brilhando aos primeiros raios do sol. Assustou-se com o barulho do celular, era o Dr. Iaggo:

– Janaína, você pode vir até o hospital?

Quando lhe avisaram que a equipe seria apresentada ao novo chefe, disseram o primeiro nome e não deram maiores informações. Ao encontra-lo, Iaggo quis ser simpático:

– Muito prazer, Dr. Sidney!

– Pode me chamar de Barreto, Dr. Barreto.

“Sidney Barreto do Nascimento Brito”, o mesmo nome que constava nos documentos de Janaína. Quando Iaggo contou a história, o velho médico não se conteve. Finalmente, o destino se cumpria.

Ao olhar nos olhos de Janaína, Dr. Barreto viu os olhos de Neusa com o mesmo brilho de quando a pediu em casamento. O médico já não tinha mais a família, era só. Mas agora reencontrara sua filha, o presente que Iemanjá lhe deu. A maior e única riqueza de Neuza agora era sua. Sua filha, sua herdeira.

Aturdida, Janaína nem se dera conta de que o tempo todo estava de mãos dadas com Iaggo. Eles se olharam. E todos entenderam o que o silêncio daquele momento estava dizendo.

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