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Fé e trabalho no descanso dominical



Do IHU, 19 Dezembro 2017
Por Gian Enrico Rusconi, filósofo italiano, publicada por La Stampa, 14-12-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.


"Algumas sociedades secularizadas perderam o sentido cristão do domingo iluminado pela Eucaristia. Isso é uma lástima". Esta é a frase-chave do discurso do Papa Francisco pronunciado na audiência geral da última quinta-feira, em resposta à pergunta "Por que ir à missa aos domingos".

A pergunta e a resposta são endereçadas claramente aos fiéis. E, de fato, a maioria das reflexões do Pontífice é dirigida aos cristãos. Mas seu argumento contém afirmações bastante questionáveis quando aborda "o domingo como dia de descanso por excelência".

Deixando de lado as simplificações históricas a respeito de a Igreja impor o dia festivo, há alegações insensíveis tanto para quem é religioso não cristão (e justamente reivindica o próprio dia de festa religiosa e o seu valor para marcar o ritmo do tempo e sua diversificação entre o cotidiano e o sagrado) como para quem é "secularizado", mas não por isso valoriza menos o tempo de descanso, mas a necessidade de um tempo para si, para as relações sociais, para a comunidade.

Foram os movimentos "secularizados" dos trabalhadores que impuseram uma redução da jornada de trabalho e o reconhecimento das pausas festivas. Que estas tenham coincidido com o domingo depende do fato de que esses movimentos atuaram primeiro nas sociedades europeias, onde o cristianismo havia consolidado as próprias festividades, não pelo reconhecimento de um direito de primogenitura ontológica do domingo sobre os demais dias.

O atributo de "secularizado" adquire na linguagem de Bergoglio uma conotação exclusivamente negativa, sobrepondo-se, de fato, ao conceito de laico e, portanto, ao de ateu: ambos, no entendimento pessoal do Pontífice, são considerados de uma forma negativa, por serem motivos de desumanização. Como resultado, como é típico da linguagem de Bergoglio, o conceito de "pecado" é usado como sinônimo de mal em geral, e vice-versa.

Nessa perspectiva, o Papa evoca a questão do descanso dominical. Desconsiderando os complexos aspectos econômicos, ocupacionais, das condições e direitos dos trabalhadores, das diferenças entre setores (questões sobre os quais é, evidentemente, preciso discutir mais detalhadamente), a questão é explicada pelo fato de que "sem Cristo estamos condenados a ser dominado pelo cansaço do cotidiano, com as suas preocupações, e pelo temor do amanhã". De acordo com o pontífice, portanto, festa e alegria, solidariedade e "repouso que restaura a alma e o corpo" seriam primeiramente uma prerrogativa dos cristãos.

É provável que a intervenção do Pontífice traga armas polêmicas para as partes e os partidos que, em perspectiva das eleições, vão querer usar a seu favor essa oportunidade. É inútil dizer que a sua preocupação não será de forma alguma religiosa no sentido de Bergoglio. Mas pouco importa desde que angarie votos e apoios.

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