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Uma visão revolucionária do cosmos. Após as descobertas dos cientistas ganhadores do Prêmio Nobel de Física

Do IHU, 16 Novembro 2017
Por André Garcia Santana, publicada por Olhar Direto



Parece que o próprio universo quis se curvar e prestar homenagem aos três cientistas estadunidenses agraciados com o Prêmio Nobel de Física de 2017: poucos dias após a concessão do prestigioso reconhecimento, os astrônomos anunciaram a observação simultânea de ondas gravitacionais e de radiação eletromagnética emitidas por duas estrelas de nêutrons coalescentes em uma fantástica explosão amplamente divulgada pela mídia nos últimos dias.

O Prêmio Nobel foi concedido no último dia 3 de outubro a Rainer Weiss, Barry C. Barish e Kip S. Thorne, representando a grande Colaboração internacional Ligo (Laser Interferometry Gravitacional Observatory), que, depois de décadas de tentativas, conseguiu pela primeira vez detectar as ondas gravitacionais. O fenômeno foi previsto por Albert Einstein como uma consequência lógica da sua teoria da gravidade, conhecida como relatividade geral, mas a debilidade dessas mínimas ondulações no espaço-tempo tinha-as, até agora, tornado imperceptíveis e apenas a perseverança dos físicos na busca de soluções tecnológicas sempre mais refinadas tornou finalmente possível a inequívoca detecção desses fracos sinais cósmicos.

O resultado tinha despertado grande entusiasmo, não só entre os cientistas, mas também no grande público, sempre fascinado por fenômenos cósmicos e por uma teoria de consequências tão distantes do entendimento comum.

A concessão do Prêmio Nobel aos representantes da Colaboração internacional Ligo era, portanto, esperada e eu diria quase descontada. O que não era absolutamente esperado foi que, justamente em concomitância com o prêmio, os instrumentos da Colaboração – aos quais, desta vez, somou-se o interferômetro italiano Virgo - revelassem uma nova emissão de ondas gravitacionais e, ao mesmo tempo, os observatórios espaciais de raios gama (o satélite Fermi da NASA e Integral da Agência espacial Europeia) medissem um súbito e violento flash de luz gama, semelhante ao que acompanha as explosões nucleares.

Ficou logo evidente que se tratava de sinais emitidos pela própria catástrofe cósmica: duas estrelas de nêutrons, que em trajetória espiral cada vez mais próxima uma da outra, se fundem em uma só dando origem ao fenômeno, até agora previsto apenas teoricamente, chamado de "kilonova". A enorme vantagem da observação simultânea do flash gama consiste no fato de que a direção da origem deste último, ao contrário do local de emissão das ondas gravitacionais, pode ser determinada no céu com razoável precisão: imediatamente a localização do evento foi transmitida aos telescópios ópticos do mundo inteiro, incluindo o veterano telescópio espacial Hubble, e todos foram direcionados naquela direção na esperança de detectar o brilho de luz visível e infravermelha que certamente tal evento explosivo deveria produzir. A esperança foi amplamente recompensada, e justamente agora, em uma empolgante sucessão de conferências de imprensa, o filme (podemos realmente chamá-lo assim) do evento ocorrido 130 milhões de anos atrás, em uma zona periférica de uma galáxia vizinha, foi mostrado ao público.

Para além do evento espetacular, as consequências científicas dessa fantástica observação são de grande magnitude. Em primeiro lugar, confirma-se a hipótese de que a velocidade de propagação das ondas gravitacionais é idêntica à da luz: de fato, se os sinais gravitacionais e eletromagnéticos - de natureza completamente diferente – fossem sendo propagados no espaço com velocidades mesmo que minimamente diferentes, depois de um percurso de bem 130 milhões de anos-luz, teriam chegado com um considerável lapso de tempo.

Outra consequência é que a admirável e frutífera colaboração entre telescópios ópticos e gravitacionais abre oficialmente uma nova era da astronomia observacional: no futuro poderemos investigar fenômenos cósmicos não só observando a luz emitida por eles, mas também através das mínimas vibrações do espaço-tempo, sinais estes que, diferentemente da radiação eletromagnética e por sua própria natureza, não encontram obstáculos em seu caminho.

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